O reencontro com o feminino

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Recentemente fui bombardeada – no bom sentido – pelo feminino, tanto em workshops para mulheres como em conversas com as mais variadas pessoas. E isso me fez pensar e questionar tantas atitudes e escolhas, antigas e atuais.

Minha relação com o feminino sempre foi conturbada, e não estou falando da minha relação com outras mulheres, mas sim de algo interno. O “ser mulher” era algo que me remetia à vulnerabilidade, e como eu entendia vulnerabilidade como fraqueza, me sentia frágil na minha condição feminina.

Me lembro de uma necessidade de não querer ser vista e desejada pelos homens, a não ser que fosse pelo carinha que eu estivesse interessada na época. E, na tentativa frustrada de tentar me esconder e me fazer invisível, eu fui brigando internamente com todas as mudanças que ocorriam no meu corpo e na minha mente.

Não sei dizer quando tudo isso começou, mas talvez exista uma causa externa da qual eu não me lembro com clareza. Nos últimos anos alguns pensamentos relativos à minha infância começaram a surgir, como flashes, mas não posso chamá-los de memórias porque eu não sei se são reais já que até hoje fica tudo meio nebuloso. Às vezes, é mais como uma sensação e algo desperta no fundo da minha mente, para logo em seguida desaparecer.

A questão é que, desde cedo, comecei a brigar com minha feminilidade e com o que ela representava pra mim. Ser mulher me colocava fraca e vulnerável à força dos homens e aos seus desejos pelo meu corpo. Mas, como esconder o meu corpo? Por mais que quisesse desaparecer, eu não conseguia.

Me senti violada inúmeras vezes, nas palavras que me sussurraram nas ruas e nas mãos que me tocaram sem a minha permissão. E, sabendo que aquilo também acontecia com quase todas as mulheres que eu conhecia, esse desejo de ser invisível só aumentava.

Foram décadas nessa briga interna com o que ser mulher representava pra mim e eu levei um bom tempo pra entender que vulnerabilidade e fraqueza eram coisas diferentes. Aliás, demorei pra entender que era preciso muita força para expor a própria vulnerabilidade.

Foi só no encontro com outras mulheres que eu iniciei meu reencontro comigo, e no reconhecimento da força que nelas reside eu pude vislumbrar um pouco da força que vive em mim. E então, eu comecei a fazer as pazes com o meu útero, com o meu corpo e suas mudanças hormonais e físicas, com a minha menstruação e até com a cólica que dói horrores. Comecei a entender meu ciclo e sua interferência no meu humor, na minha pele, nos meus cheiros e desejos. Redescobri a bruxa que sempre me habitou e reassumi a responsabilidade pela minha saúde na tentativa de me cuidar da forma mais natural possível, e comecei a estudar sobre os óleos essenciais e suas funcionalidades e sobre a alimentação feita de forma mais intuitiva e consciente.

É engraçado, sabe. Eu cresci ouvindo que a relação entre mulheres era pautada na rivalidade, mas o que tenho percebido, cada vez mais, não tem nada a ver com isso. O que eu encontrei foi essa linda irmandade que tem me ajudado demais a me entender melhor e a olhar para todas as outras mulheres com um outro olhar; o da compaixão, da empatia, da admiração, do entendimento e de uma conexão que me possibilita enveredar pelo caminho do não-julgamento.

Quando eu me vejo em outras mulheres e quando vejo um pouco delas em mim – as mulheres do meu passado, as que já se foram e as que permanecem aqui; as mulheres do meu presente, que me inspiram ao me dar bons exemplos -, sinto essa força do feminino crescendo dentro de mim e posso aprender a deixar de brigar com quem eu sou e com o que não posso mudar. Porque apesar de ter começado a trilhar esse caminho quase agora – eu levei 40 anos para chegar até aqui -, acho que nunca é tarde para uma reconciliação interna.

Tirando algumas máscaras

Porque eu quero poder ser quem eu sou, eu preciso tirar algumas máscaras, tanto as físicas quanto as emocionais.

Quando eu me exponho aqui nesse espaço estou me mostrando vulnerável e sei que posso me magoar com os comentários e atitudes advindos dessa exposição. Aliás, esse foi um dos motivos que me fez parar de escrever por um tempo; o medo. Mas esse também foi um dos motivos que me fez voltar a escrever; eu estava cansada de fugir do que eu queria fazer e eu sabia que precisava enfrentar meu monstros e seguir em frente.

Estou nessa fase de tentar me livrar de tudo aquilo que me esconde e estou gostando muito disso.

Há algumas semanas atrás teve uma confraternização do trabalho do Ciro, num dia de muito sol, com tempo quente e abafado. Durante os onze anos de trabalho no banco eu nunca entrei na piscina em nenhuma dessas festas de fim de ano. Só alguns homens, as crianças e pouquíssimas “corajosas” mulheres (coisa muito rara) se refrescavam. Esse ano eu decidi dar um basta nesse meu comportamento castrador e me joguei.

Pode parecer algo bobo, eu sei, mas se você é mulher e em algum momento já sentiu receio de mostrar seu corpo, se você se escondeu e ainda se esconde e prefere ficar suando a se expor, talvez entenda a libertação que foi quando desfilei minhas celulites e flacidez. E mesmo me lembrando de todas as vezes em que não me permiti essa simples diversão de me refrescar num dia quente, não me culpei.

Não sei o que pensaram a meu respeito, não sei se julgaram meu corpo e, honestamente, estava pouco me lixando pra isso. Finalmente, um pouquinho da liberdade que eu tanto almejava pareceu surgir quando eu fiz o que eu estava com vontade, pensando somente em mim e no que eu queria fazer.

Outra máscara que comecei a retirar há um tempinho, foi a maquiagem; artifício que eu usava como um meio de proteção quando eu queria esconder minhas imperfeições de pele e que me dava uma falsa sensação de segurança pra botar minha cara no mundo. Essa função da maquiagem eu não quero mais “vestir”. Quando eu usar, e se eu usar, não será mais para me esconder, porque eu não quero mais sentir vergonha da minha aparência e de todas as marcas que fazem parte de mim.

Não sei se tem a ver com ficar mais velho, com atingir um ponto na sua vida em que você não quer mais fingir, se esconder, se fechar, não se permitir. Estou tão cansada de tentar interpretar alguém diferente de mim, porque soa falso e é extremamente exaustivo fingir pra si mesmo e pro mundo que você é alguém que não é.

Quero ser livre para viver de acordo com as minhas verdades e com tudo aquilo que faz sentido pra mim, seguindo o meu coração e não os meus medos, porque esse último já foi meu guia por muito tempo e não me fez mais feliz.

A ideia é encontrar e reconhecer cada uma dessas máscaras que criei para me proteger e, então, me libertar. É tentar não criar novas couraças e viver mais leve. É me jogar no mundo, mesmo com medo de me machucar. É ser eu mesma em cada salto no escuro, me despindo e me reencontrando em cada mergulho profundo pra dentro de mim.