tristeza

Sobre ser/estar inteira

Sobre ser/estar inteira - doce cotidiano

Mesmo quando estou despedaçada, partida, quebrada, ainda posso ser inteira. Pra mim, ser inteira é reconhecer e aceitar todas as partes como minhas, as boas e as não tão boas.

Sabe, tem dias que eu não tenho nada pra dar. Absolutamente nada. Nem um sorriso. Esses dias já não são tão frequentes, mas eles existem. Pode até ser que eu me sinta diferente no decorrer das horas, pode ser que as emoções que me prendem e a quem eu me prendo, se dispersem. Acontece. Mas tento não contar com isso!

Estou aprendendo a não brigar mais com meus sentimentos. Estou aprendendo a acolher. É claro que nem sempre é fácil, ninguém disse que é. Mas, consegui fazer isso há algumas semanas e a sensação foi tão boa, mas tão boa, que eu quis escrever.

Acordei me sentindo triste e angustiada e passei o dia com um nó na garganta. De início, tentei recordar se havia algo novo acontecendo em minha vida que pudesse contribuir com essa sensação; não, não havia. Massageei um pouco meu peito, pousei as duas mãos sobre ele e lá as deixei. Fiquei assim, quieta comigo, me dando um pouco de carinho e atenção.

A tristeza não foi embora, entendi que ela ainda precisava ficar ali.

Fiz EFT, chorei. Chorei muito. Mesmo sem saber o porquê das lágrimas, mesmo sem entender o que estava acontecendo comigo, deixei o sentimento livre.

Acho que foi a primeira vez que não fiquei brigando com o que eu sentia. Não tentei ignorar, não tentei expulsar e, depois de um tempo, não tentei entender. Só fiquei ali, com todas aquelas sensações que pediam pelo meu acolhimento.
Deitei um pouco na rede e me abracei. Embalei lentamente nós duas, eu e minha tristeza. E lá ficamos por um tempo olhando o céu e observando o voo dos urubus – que é uma das coisas mais lindas de se ver, em minha opinião -, curtindo o fim da tarde que se aproximava.

Depois, o Ciro me levou ao parque, nos sentamos num banco embaixo das árvores e em frente ao lago. Ficamos um tempo observando os passarinhos, as capivaras e os patos. E ali, em meio à natureza, que é onde sempre me sinto conectada comigo, chegou a paz.

E aquela paz cresceu até ocupar tantos espaços dentro de mim que a tristeza foi embora. Eu não pedi para ela ir, ela simplesmente foi. Talvez, por ter se sentido acolhida e escutada, ela não precisava mais estar ali implorando por atenção.

Não sei se conseguirei fazer isso sempre, mas estou aprendendo a não brigar com o que eu sinto. Quando a raiva, a tristeza, a angústia e o medo chegam, eu imagino que é a minha criança interior que está inundada por todos esses sentimentos, assim fica mais fácil escutá-los e dar amor.

Quando acolho essa criança que faz parte de quem eu fui e de quem eu sou, reconheço todos os sentimentos que me invadem como uma parte de mim, os bons e os não tão bons. E isso me faz sentir inteira.

Sobre iluminar as minhas sombras

luz

Estava em busca da minha raiva, esse sentimento poderoso que mora dentro de mim e que estava escondido.

Eu sempre senti raiva, de tudo! E a minha forma de lidar com ela era meio primitiva, o sentimento vinha e eu o colocava pra fora, sem filtros. Com o tempo, comecei a me sentir mal com isso porque eu magoava pessoas que eu amava, e a solução encontrada foi sufocar a raiva. Escondê-la, reprimi-la, ignorá-la.

Por um tempo, pareceu dar super certo. E eu realmente acreditei nisso. Via-me como alguém que não nutria mais esse sentimento tão perturbador, acho até que me sentia superior por não deixar que um sentimento de vibração tão baixa me dominasse. Eu racionalizava as situações que poderiam despertar o monstro e, depois, as ignorava.

Então, acontecimentos que normalmente despertariam a minha raiva começaram a me deixar triste e deprimida. Sem ação, sem reação, sem movimento algum. E isso começou a me incomodar muito mais do que as antigas explosões. Porque deixar de sentir por um tempo pode até ter um efeito calmante, mas, se isso persiste, fica muito claro que é só um processo de fuga. E eu não queria mais viver fugindo de mim.

Porque o problema nunca foi a raiva ou qualquer outro sentimento considerado negativo. A questão não é só o que eu sinto, mas sim, o que eu faço com isso. A raiva pode ser um ótimo combustível para coisas boas e bonitas.

Dizem que a raiva é a tristeza colocada em movimento, que onde existe raiva, provavelmente, existe uma tristeza profunda que não foi olhada. A tristeza, por sua vez, pode vir de um sentimento de raiva que não foi expresso. Pra mim, pra minha história, isso faz total sentido. Esses dois sentimentos sempre estiveram conectados.

Não existe nada de errado em sentir raiva e tristeza. O que eu quero aprender é a acolher todo sentimento que brota em mim, olhar pra ele, não negar ou esconder sua existência. Quero entender de onde eles vêm e os seus porquês.

Percebo que toda vez que fico triste ou sinto raiva é porque estou “brigando internamente” com a realidade. Isso não quer dizer que devo simplesmente me conformar e aceitar as coisas como são; não agir quando sinto que preciso agir, não dizer quando sinto que preciso dizer. Mas, certas coisas são como são, não estão no meu controle e não há muito o que eu possa fazer. A única situação que tenho algum poder pra mudar é a minha. E isso já é difícil pra caramba.

Convivo comigo há quase 39 anos e ainda não me decifrei. Ainda estou aprendendo os porquês de fazer as coisas que faço, do jeito que faço, muitas vezes de forma destrutiva. Os porquês de repetir antigos comportamentos, seguindo velhões padrões comprovadamente catastróficos. Porque, tantas vezes, escolho a dor e não o amor, mesmo que faça isso inconscientemente naquele momento.

Meu momento agora é de união. Juntar esses muitos pedaços perdidos e renegados, todos os sentimentos que fazem e já fizeram parte de mim, acolhê-los, aceitá-los e assumir a minha responsabilidade em cada ação e em cada falta de ação, e fazer isso com amor. Abraçar a raiva que permiti, finalmente, que saísse de seu esconderijo; acolher a tristeza, a culpa e a vergonha que me fizeram companhia por tanto tempo; aceitar o medo constante que só tentava me proteger e, então, usar a luz que me habita para iluminar minhas sombras, todas elas e, um dia, conseguir amar cada pedacinho de mim.

Essa é minha missão. Ser quem eu vim pra ser. Inteira!

Sentir é bom! Tristeza não é doença

tristeza não é doença - Doce Cotidiano

Por que não é mais permitido sofrer?

Por que o sofrimento foi considerado uma doença que deve ser tratada por psiquiatras com altas doses de medicamento? Por que, para fugir da dor, muitas vezes nos anestesiamos com drogas e bebidas?

Um coração partido, uma traição, a perda de alguém, uma grande decepção, qualquer sentimento que nos cause dor, sofrimento e lágrimas, é natural. Sofrer não é doença (estou desconsiderando depressão e outras patologias, ok).

Imagine uma criança que chora algumas noites porque teve um pesadelo. Você lhe receitaria ansiolíticos, antidepressivos ou remédios para induzir o sono? Espero que não! O que você talvez faça seja acalentar essa criança, dar-lhe amor, perguntar sobre o pesadelo, dizer que nada de mal vai lhe acontecer enquanto ela dorme, talvez durma com ela o restante da noite para protegê-la dos “monstros”.

Então, a gente cresce, e é claro que ainda teremos os nossos “monstros”. Ninguém passa uma vida sem sentir nada (bom, talvez os psicopatas), e sentir é bom, significa que estamos vivos e que ainda nos emocionamos. A dor é um ótimo sintoma. Imagine se ela não existisse!

A gente adoeceria até a morte sem ter a chance de perceber que estávamos doentes. Nossa mão continuaria queimando no fogo antes de percebermos que algo estava errado e retirá-la.

É claro que ninguém quer sofrer e, podendo escolher, definitivamente a gente evitaria situações que nos causam sofrimento. Mas, acredito que todas essas situações, que tendem a ser transformadoras, são essenciais para o nosso desenvolvimento e evolução.

Essa semana, assistindo um episódio de uma série que adoro – Grey’s Anatomy -, o cirurgião Owen Hunt, numa conversa com uma amiga que estava sofrendo (não vou me aprofundar porque corro o risco de dar spoiler), disse algo que eu acho que cabe muito bem aqui.

“Tudo isso que você está administrando. A ideia não é administrar nada.
A ideia é sentir. Tristeza, pesar, dor. É normal. Não é normal para você, porque nunca fez isso. Em vez de sentir a dor, você engole tudo e parte para as drogas. Em vez de atravessar a dor, você foge dela.
Em vez de lidar com a mágoa e a solidão e com medo que só existisse esse sentimento de vazio, eu fugi. Fugi e me alistei para outra temporada de exercícios.
Nós fugimos e medicamos.
Fazemos o que precisar para anestesiar a sensação, mas isso não é normal.
Nós temos que sentir. Temos que amar e odiar. E nos machucarmos, sentir pesar, quebrarmos, sermos destruídos.
E nos reconstruirmos para sermos destruídos de novo.
Isso é humano. Isso é humanidade.
Isso é estar vivo. Essa é a questão. Essa é a ideia. Não evite isso.”

Então, tenha amigos para te confortarem num momento de pesar, procure ajuda sempre que sentir que está difícil carregar o fardo sozinho, chore, grite, escreva, desabafe, mas SINTA! A gente precisa sentir, a gente foi feito para sentir. E, enquanto estivermos vivos, vamos sentir. Não há nada de errado nisso!