trabalho

Desempregada ou dona de casa?

desempregada ou dona de casa? - doce cotidiano

Outra semana, durante um depoimento, eu tive que responder algumas questões sobre mim; nome, data de nascimento, escolaridade, endereço, profissão e outros dados pessoais. Na hora de responder sobre a profissão eu disse “desempregada no momento”, mas logo que eu disse isso, senti um baita desconforto.

Eu estou desempregada? Eu me considero desempregada mesmo sem estar procurando um emprego? Eu deveria ter respondido “dona de casa” ou “do lar”? Qual é a minha situação?

A realidade do momento é que meu namorado paga as contas e eu cuido da casa. Não existe problema algum nesse arranjo se isso é um acordo do casal – e esse é o nosso caso. Então, por que me sinto incomodada quando tenho que falar para terceiros sobre a minha condição profissional?

Por que me importo, ainda, com o que os outros pensam sobre a minha vida? Que parte minha julga essa situação como inadequada? Por que me sinto menos por não estar contribuindo financeiramente em casa? Essa é uma questão tão minha! Não existe nada no meu relacionamento que me faça sentir mal sobre isso. O Ciro não me pressiona para que eu volte a trabalhar, ele não me cobra nada e sempre me apoia. Eu não tenho nada a reclamar, sério. Então, por que me sinto assim?

A todo momento que encontro algum conhecido, logo depois que me perguntam se estou bem, vem a pergunta seguinte: com o que você está trabalhando, o que você está fazendo da vida? Bom, eu estou vivendo. Mas, isso não parece ser o suficiente pra mim. Porque, em algum ponto da nossa história, nos definimos e nos descrevemos pelo o que fazemos e não por quem somos. Já reparou nisso? Uma das primeiras coisas que as pessoas falam sobre si mesmas é a profissão. “Olá, sou Fulano, advogado”, “bom dia, me chamo Sicrana, sou empresária”. Mas, a sua profissão não é quem você é. Você não É advogado, você ESTÁ advogado. Mas, a gente mistura tudo, talvez por não saber de verdade quem somos. Sei lá. Só posso falar por mim.

O que percebi é que ainda existem algumas questões e bloqueios internos a serem trabalhados nessa área da minha vida. Eu quero voltar a ganhar dinheiro por uma infinidade de razões e eu sei que isso vai acontecer mais cedo ou mais tarde, mas ainda coloco muita pressão em mim. Parece que certos comportamentos requerem um pouco mais de tempo para mudar, ainda mais quando fizeram parte da minha vida por tanto tempo, como a autocobrança e a autodepreciação.

Entendo que, mais do que não querer me definir por uma palavra relacionada a alguma profissão, o meu ponto de incômodo aqui é o DINHEIRO, mais precisamente o fato de não estar ganhando nenhum. E isso tem a ver com a minha dificuldade de receber, com o fato de me sentir menos por estar dependendo financeiramente de alguém, mesmo que esse alguém seja meu parceiro.

Eu poderia pensar que voltar a ganhar dinheiro seria a solução para esse “problema”, mas sei que o buraco é mais fundo, porque na época que eu trabalhava já me sentia NÃO merecedora, essa dificuldade ainda é uma questão que necessita de aceitação e acolhimento. E, apesar do desconforto em falar desse assunto, sou grata por poder viver essa experiência que me faz lidar com questões que me desafiam e me ensinam diariamente.

Ainda estou aprendendo a conhecer quem eu sou enquanto tento me desvencilhar de ideias preconcebidas sobre quem eu deveria ser.

Uma carta e uma década depois

zai26hwyrpy-giulia-bertelli

Em fevereiro de 2006 eu escrevi uma carta pra mim para ser aberta um tempo depois, mas me esqueci. Dia 5 de maio de 2010 eu a encontrei enquanto arrumava as minhas coisas. Eu digitei seu conteúdo e joguei o papel fora.

Essa semana, xeretando o HD externo que nunca uso, eu encontrei o arquivo.

Compartilho com vocês, na íntegra, sem exclusões.

Indaiatuba, 14 de fevereiro de 2006

Eu poderia começar de tantas formas, mas nunca sei como começar.
Tem tantas coisas que eu gostaria que você soubesse sobre mim, aqueles segredos que eu não revelo nem pra mim mesma. As coisas mais absurdas que já fiz, as insanidades que já pensei. Mas tenho medo. Medo de ser julgada, julgada e condenada. Mas, na verdade, eu sou o meu maior carrasco.
Eu não me permito errar, não me permito falhar e, muitas vezes, não me permito sentir.
Tudo em mim é tão intenso que me assusta, por isso me escondo na proteção, por isso me fecho pra mim mesma.
Não consigo nem responder o que eu quero fazer da minha vida.
Faço planos na irrealidade porque a realidade da vida me assombra.
É isso mesmo? Às vezes a vida parece uma estranha brincadeira.
Estudamos, aprendemos coisas novas a todo momento, crescemos, trabalhamos, nos relacionamos, férias de vez em quando, um passeio, algumas discussões, fazemos as pazes, conhecemos gente nova, nos apaixonamos, nos enganamos, comemos, dormimos, cagamos, peidamos, tomamos banho, conversamos, fazemos compras, nos decepcionamos, choramos, rimos, criamos, desejamos, esperamos… A vida é isso? Mas qual o sentido de tudo? Às vezes me parece tão banal, tão sem propósito.
A rotina me mata a cada dia, mas eu preciso dela, necessito de uma certa segurança e estabilidade, mesmo sabendo que não são reais, que tudo não passa de ilusão.
É tudo uma experiência? Mas quais são os resultados esperados?
Tenho medo de estar vivendo em vão. A minha vida parece tão sem propósito, sem importância.
Tudo bem, para as pessoas que me amam eu tenho importância. Mas que diferença isso faz no mundo? Parece uma vida tão descartável que qualquer um poderia vivê-la no meu lugar.
O que eu sinto se torna confuso pra mim. Como ir atrás do que quero se não sei o que eu quero?
Às vezes, gostaria que alguém pudesse responder as minhas perguntas.
Mas, enfim, o que é o melhor pra mim?
Um mar de pensamentos inunda a minha mente, um turbilhão de sentimentos me perturba; os mais controversos.
Já não sei para onde ir ou como agir. Por que não encarar de frente? De novo, por medo. O medo é um retrocesso, não só me paralisa, mas me faz voltar para trás. Como se mudanças não tivessem ocorrido em mim nesse meio tempo.
Eu gosto de viver, mas não sei direito como se faz isso. Parece que eu nunca vivi antes. Existe um treinamento que não seja a própria vida?
Num dia tenho plena convicção do que quero, na semana seguinte já não sei mais meu nome. Acho que poderia me chamar Inconstância. Belo nome! Nunca uma palavra descreveu tão bem um ser humano.
Eu sou, mas não sei ser.
Eu procuro com que intenção? Não sei se o que me move é carência, dependência … sei lá.
Minhas certezas são muito poucas, e antes eu tinha tantas!
Há tanto para dizer, há tanto para fazer. Mas não posso e nem sei começar pelo início. Porque minha memória não tem sequência, o que eu vivo hoje se mistura com o que vivi, e às vezes não posso discernir a realidade da fantasia.
Recordo da minha maldade, da extrema sensibilidade, das dificuldades, dos pavores, dos receios, das angústias, tantas tentativas, tantas desistências. Tantos começos, poucos meios, menos fins.
Eu amo e odeio, eu choro e dou risada, eu falo e pouco calo, eu atribulo e não pacifico, eu intensifico, eu não espero e disparo, eu temo e paro, eu quero e não quero, eu vou e às vezes volto, eu amo mas não me solto, eu penso e não posso. E é tanto que me desespero.
Estou sempre ligada em alta voltagem, e quando cai a força vou para o fundo do poço, mas sempre retorno à superfície. Sou forte e frágil, não sou calma, sou intempestiva, sou tempestade, não trago a bonança. Às vezes, esqueço da minha criança. Amo minha cachorra como jamais amei outro ser. E, dessa vez, mesmo sem ser como eu quero, não me desespero.
Meu instinto maternal me assusta.
Percebi que estou enrolando para não chegar onde realmente devo. Tenho medo de ser sincera comigo. Não sei até onde quero ir com isso.
Escrevo para tentar esvaziar um pouco a minha mente e tentar dormir em paz!

Mais de 10 anos se passaram e, ao reler a carta, percebi algumas coisas.

Essa busca por mim é muito antiga, talvez já esteja comigo desde o período fetal. A necessidade de saber quem eu sou e o meu papel nesse mundo me levou por uma jornada cheia de altos e baixos. Já estive no cume rodeada de luz e já fui a mosca no cocô do cavalo do bandido, às vezes tudo isso num só dia.

Não vou dizer que a angústia presente naquele momento não existe mais, porque eu estaria mentindo, mas notei que ela diminuiu consideravelmente.

Percebo que sempre associei essa busca por propósito com a descoberta de uma carreira profissional e me sentia frustrada por não trabalhar com algo que eu gostasse e me identificasse.

Mas hoje, pra mim, o meu propósito de vida é muito mais do que isso.

Trabalhar com o que se ama deve ser muito bom, talvez um dia eu vivencie essa experiência. Mas, meu propósito não precisa estar necessariamente ligado com o trabalho que eu farei para ganhar dinheiro, me sustentar e realizar alguns sonhos. Talvez, esse trabalho seja apenas um meio, e não um fim.

Porque existe o lado de fora e o lado de dentro, e esse “dentro” é o que sempre me fez questionar, quem eu sou e o que vim fazer aqui.

Por muito tempo eu priorizei uma ilusória linha de chegada, onde eu encontraria as respostas para as minhas perguntas e elas me dariam a sensação de completude. Mas, eu já sou completa e só estou aqui para relembrar.

Esse relembrar é a minha jornada, mesmo sem saber o destino final.