sofrimento

Primeiro desafio de 2017

E então que, no finzinho de 2016, o Fuel ficou bem doente de uma hora pra outra. Fomos buscá-lo na minha sogra e o trouxemos para Campinas numa clínica veterinária que tem até UTI.

Fizeram alguns exames, também ultrassom, precisou de soro subcutâneo, vários medicamentos e, como perdeu sangue vivo e a contagem de plaquetas estava baixa, acharam melhor interná-lo. Foram duas noites no hospital, pudemos visitá-lo no sábado e o buscamos no domingo.

Na primeira madrugada de internação, acordei às 3 horas e não conseguia mais dormir, tinha receio que fossem ligar com uma má notícia. E eu sei que ficar acordada não impediria nada, não resolveria o problema, não o curaria de todos os males. Mas, eu não conseguia dormir. Sei que minha cabeça não ajuda, que me preocupo demais e antecipo um sofrimento que pode nem vir a chegar. Enquanto eu fico com o estômago apertado, mil pensamentos habitam a minha mente, descontroladamente.

Quando eu saio do momento presente e viajo para um futuro que só existe na minha imaginação fértil e dramática, eu sofro.

META PARA 2017 E PARA A VIDA: NÃO SOFRER PELO QUE NÃO EXISTE.

Mas agora, felizmente, ele já parece estar fora de perigo, será medicado em casa por mais trinta dias e fará exames de sangue semanais. Logo mais o levaremos de volta para minha sogra, lá ele tem espaço e uma companheirinha canina que está sentindo a falta dele.

O que me fez escrever sobre esses acontecimentos foi porque isso tudo me fez enxergar meus medos por uma outra perspectiva. Sempre pensei que meus medos me paralisassem e, até certo ponto, é isso mesmo. Dependendo da situação, não consigo agir. Mas, nem tudo o que me assusta me imobiliza.

Não vou dizer que quando vi aquele sangue todo não senti nada, pra ser honesta, eu senti enjoo. E não foi de nojo, foi o medo de perdê-lo. Mas, dessa vez, consegui fazer o que precisava ser feito, com o estômago embrulhado, com medo de sofrer por uma futura (talvez, possível) perda, mas não recuei nem paralisei.

E aí fiquei pensando, qual a diferença entre o medo que me faz recuar e o medo que me impele adiante? É a motivação por trás que os distingue? Quando envolve uma outra pessoa a minha tendência é agir? Não sei. Não sei mesmo.

Só sei que, nesse momento enquanto escrevo, ele está deitado no chão ao meu lado, dormindo. Então, me deito ao lado dele e ficamos assim, nesse aconchego que poderia durar horas sem que qualquer um de nós dois se cansasse; ele que adora um carinho, e eu que não me canso de acarinhá-lo.

Sentir é bom! Tristeza não é doença

tristeza não é doença - Doce Cotidiano

Por que não é mais permitido sofrer?

Por que o sofrimento foi considerado uma doença que deve ser tratada por psiquiatras com altas doses de medicamento? Por que, para fugir da dor, muitas vezes nos anestesiamos com drogas e bebidas?

Um coração partido, uma traição, a perda de alguém, uma grande decepção, qualquer sentimento que nos cause dor, sofrimento e lágrimas, é natural. Sofrer não é doença (estou desconsiderando depressão e outras patologias, ok).

Imagine uma criança que chora algumas noites porque teve um pesadelo. Você lhe receitaria ansiolíticos, antidepressivos ou remédios para induzir o sono? Espero que não! O que você talvez faça seja acalentar essa criança, dar-lhe amor, perguntar sobre o pesadelo, dizer que nada de mal vai lhe acontecer enquanto ela dorme, talvez durma com ela o restante da noite para protegê-la dos “monstros”.

Então, a gente cresce, e é claro que ainda teremos os nossos “monstros”. Ninguém passa uma vida sem sentir nada (bom, talvez os psicopatas), e sentir é bom, significa que estamos vivos e que ainda nos emocionamos. A dor é um ótimo sintoma. Imagine se ela não existisse!

A gente adoeceria até a morte sem ter a chance de perceber que estávamos doentes. Nossa mão continuaria queimando no fogo antes de percebermos que algo estava errado e retirá-la.

É claro que ninguém quer sofrer e, podendo escolher, definitivamente a gente evitaria situações que nos causam sofrimento. Mas, acredito que todas essas situações, que tendem a ser transformadoras, são essenciais para o nosso desenvolvimento e evolução.

Essa semana, assistindo um episódio de uma série que adoro – Grey’s Anatomy -, o cirurgião Owen Hunt, numa conversa com uma amiga que estava sofrendo (não vou me aprofundar porque corro o risco de dar spoiler), disse algo que eu acho que cabe muito bem aqui.

“Tudo isso que você está administrando. A ideia não é administrar nada.
A ideia é sentir. Tristeza, pesar, dor. É normal. Não é normal para você, porque nunca fez isso. Em vez de sentir a dor, você engole tudo e parte para as drogas. Em vez de atravessar a dor, você foge dela.
Em vez de lidar com a mágoa e a solidão e com medo que só existisse esse sentimento de vazio, eu fugi. Fugi e me alistei para outra temporada de exercícios.
Nós fugimos e medicamos.
Fazemos o que precisar para anestesiar a sensação, mas isso não é normal.
Nós temos que sentir. Temos que amar e odiar. E nos machucarmos, sentir pesar, quebrarmos, sermos destruídos.
E nos reconstruirmos para sermos destruídos de novo.
Isso é humano. Isso é humanidade.
Isso é estar vivo. Essa é a questão. Essa é a ideia. Não evite isso.”

Então, tenha amigos para te confortarem num momento de pesar, procure ajuda sempre que sentir que está difícil carregar o fardo sozinho, chore, grite, escreva, desabafe, mas SINTA! A gente precisa sentir, a gente foi feito para sentir. E, enquanto estivermos vivos, vamos sentir. Não há nada de errado nisso!