propósito

Uma carta e uma década depois

zai26hwyrpy-giulia-bertelli

Em fevereiro de 2006 eu escrevi uma carta pra mim para ser aberta um tempo depois, mas me esqueci. Dia 5 de maio de 2010 eu a encontrei enquanto arrumava as minhas coisas. Eu digitei seu conteúdo e joguei o papel fora.

Essa semana, xeretando o HD externo que nunca uso, eu encontrei o arquivo.

Compartilho com vocês, na íntegra, sem exclusões.

Indaiatuba, 14 de fevereiro de 2006

Eu poderia começar de tantas formas, mas nunca sei como começar.
Tem tantas coisas que eu gostaria que você soubesse sobre mim, aqueles segredos que eu não revelo nem pra mim mesma. As coisas mais absurdas que já fiz, as insanidades que já pensei. Mas tenho medo. Medo de ser julgada, julgada e condenada. Mas, na verdade, eu sou o meu maior carrasco.
Eu não me permito errar, não me permito falhar e, muitas vezes, não me permito sentir.
Tudo em mim é tão intenso que me assusta, por isso me escondo na proteção, por isso me fecho pra mim mesma.
Não consigo nem responder o que eu quero fazer da minha vida.
Faço planos na irrealidade porque a realidade da vida me assombra.
É isso mesmo? Às vezes a vida parece uma estranha brincadeira.
Estudamos, aprendemos coisas novas a todo momento, crescemos, trabalhamos, nos relacionamos, férias de vez em quando, um passeio, algumas discussões, fazemos as pazes, conhecemos gente nova, nos apaixonamos, nos enganamos, comemos, dormimos, cagamos, peidamos, tomamos banho, conversamos, fazemos compras, nos decepcionamos, choramos, rimos, criamos, desejamos, esperamos… A vida é isso? Mas qual o sentido de tudo? Às vezes me parece tão banal, tão sem propósito.
A rotina me mata a cada dia, mas eu preciso dela, necessito de uma certa segurança e estabilidade, mesmo sabendo que não são reais, que tudo não passa de ilusão.
É tudo uma experiência? Mas quais são os resultados esperados?
Tenho medo de estar vivendo em vão. A minha vida parece tão sem propósito, sem importância.
Tudo bem, para as pessoas que me amam eu tenho importância. Mas que diferença isso faz no mundo? Parece uma vida tão descartável que qualquer um poderia vivê-la no meu lugar.
O que eu sinto se torna confuso pra mim. Como ir atrás do que quero se não sei o que eu quero?
Às vezes, gostaria que alguém pudesse responder as minhas perguntas.
Mas, enfim, o que é o melhor pra mim?
Um mar de pensamentos inunda a minha mente, um turbilhão de sentimentos me perturba; os mais controversos.
Já não sei para onde ir ou como agir. Por que não encarar de frente? De novo, por medo. O medo é um retrocesso, não só me paralisa, mas me faz voltar para trás. Como se mudanças não tivessem ocorrido em mim nesse meio tempo.
Eu gosto de viver, mas não sei direito como se faz isso. Parece que eu nunca vivi antes. Existe um treinamento que não seja a própria vida?
Num dia tenho plena convicção do que quero, na semana seguinte já não sei mais meu nome. Acho que poderia me chamar Inconstância. Belo nome! Nunca uma palavra descreveu tão bem um ser humano.
Eu sou, mas não sei ser.
Eu procuro com que intenção? Não sei se o que me move é carência, dependência … sei lá.
Minhas certezas são muito poucas, e antes eu tinha tantas!
Há tanto para dizer, há tanto para fazer. Mas não posso e nem sei começar pelo início. Porque minha memória não tem sequência, o que eu vivo hoje se mistura com o que vivi, e às vezes não posso discernir a realidade da fantasia.
Recordo da minha maldade, da extrema sensibilidade, das dificuldades, dos pavores, dos receios, das angústias, tantas tentativas, tantas desistências. Tantos começos, poucos meios, menos fins.
Eu amo e odeio, eu choro e dou risada, eu falo e pouco calo, eu atribulo e não pacifico, eu intensifico, eu não espero e disparo, eu temo e paro, eu quero e não quero, eu vou e às vezes volto, eu amo mas não me solto, eu penso e não posso. E é tanto que me desespero.
Estou sempre ligada em alta voltagem, e quando cai a força vou para o fundo do poço, mas sempre retorno à superfície. Sou forte e frágil, não sou calma, sou intempestiva, sou tempestade, não trago a bonança. Às vezes, esqueço da minha criança. Amo minha cachorra como jamais amei outro ser. E, dessa vez, mesmo sem ser como eu quero, não me desespero.
Meu instinto maternal me assusta.
Percebi que estou enrolando para não chegar onde realmente devo. Tenho medo de ser sincera comigo. Não sei até onde quero ir com isso.
Escrevo para tentar esvaziar um pouco a minha mente e tentar dormir em paz!

Mais de 10 anos se passaram e, ao reler a carta, percebi algumas coisas.

Essa busca por mim é muito antiga, talvez já esteja comigo desde o período fetal. A necessidade de saber quem eu sou e o meu papel nesse mundo me levou por uma jornada cheia de altos e baixos. Já estive no cume rodeada de luz e já fui a mosca no cocô do cavalo do bandido, às vezes tudo isso num só dia.

Não vou dizer que a angústia presente naquele momento não existe mais, porque eu estaria mentindo, mas notei que ela diminuiu consideravelmente.

Percebo que sempre associei essa busca por propósito com a descoberta de uma carreira profissional e me sentia frustrada por não trabalhar com algo que eu gostasse e me identificasse.

Mas hoje, pra mim, o meu propósito de vida é muito mais do que isso.

Trabalhar com o que se ama deve ser muito bom, talvez um dia eu vivencie essa experiência. Mas, meu propósito não precisa estar necessariamente ligado com o trabalho que eu farei para ganhar dinheiro, me sustentar e realizar alguns sonhos. Talvez, esse trabalho seja apenas um meio, e não um fim.

Porque existe o lado de fora e o lado de dentro, e esse “dentro” é o que sempre me fez questionar, quem eu sou e o que vim fazer aqui.

Por muito tempo eu priorizei uma ilusória linha de chegada, onde eu encontraria as respostas para as minhas perguntas e elas me dariam a sensação de completude. Mas, eu já sou completa e só estou aqui para relembrar.

Esse relembrar é a minha jornada, mesmo sem saber o destino final.

O que está fora também está dentro

Segunda-feira eu voltei do Rio de Janeiro depois de um fim de semana super intenso e cheio de aprendizado no evento LSA – Life Style Academy, criado pela escritora e Coach de Alta Performance Paula Abreu (a mesma que criou o PESV – Programa Escolha Sua Vida que eu fiz esse ano).

Foram 3 dias completamente preenchidos de palestras com profissionais incríveis de diversas áreas, uma plateia com 500 pessoas buscando uma vida com mais PROPÓSITO, uma troca de energia muito boa, muitos abraços, risos e lágrimas, introspecção e descobertas.

Pude abraçar pessoas maravilhosas que eu só conhecia no mundo virtual e foi tão bom saber que elas realmente existem! Conheci pessoas com quem me identifiquei quase que instantaneamente, abrindo meu coração para o novo.

Me senti eu mesma e isso foi libertador. Acho que eu não me sentia assim há muito tempo.

Confesso que eu tinha criado expectativas antes de ir, mas não me decepcionei. Na verdade, eu me surpreendi. Fiquei surpresa porque o que mais me impactou foi o que eu menos imaginei.

Quem me conhece sabe que sou extremamente sensível, tudo me emociona e me toca, tudo mesmo, eu costumo dizer que o meu coração tem uma ligação direta com a minha glândula lacrimal – eu choro com quase tudo. Minha emoção se expressa por lágrimas. E tudo bem! Já entendi e aceitei que sou assim.

Consequentemente, como me emocionei várias vezes nesses 3 dias, eu chorei várias vezes também. E tudo bem de novo, porque depois da cirurgia meus olhos vivem secos e me incomodando, então foi bom hidratá-los um pouco hehe.

Bom, voltando ao que eu queria dizer … Eu passei anos fugindo da espiritualidade, isso porque eu não conseguia diferenciá-la das religiões. E, como não sigo nenhuma religião, por diversos motivos que não vou entrar em detalhes hoje, eu criei uma certa barreira com isso.

Eu acredito que não preciso de uma religião para me conectar com Deus/Universo/Eu Superior, tudo o que eu preciso sempre esteve dentro de mim, tudo o que precisamos está dentro de nós. Cada um segue aquilo que mais lhe tocar a alma e fizer sentido. Então, eu descobri que não preciso de uma religião para vibrar o amor.

Quase todas as palestras me tocaram profundamente, mas 2 delas foram um chamado ao meu coração. E as duas tinham a ver com ESPIRITUALIDADE. Sabe quando você sente que tudo o que foi falado é direcionado a você? Como se o palestrante te conhecesse e estivesse falando exclusivamente para você? Eu me senti assim. E foi mágico!

Percebi que preciso me reconectar com o Eu Superior que me habita, para fortalecer a minha energia e proteção, para direcionar com mais foco todo esse amor e sensibilidade que faz parte de mim e que, muitas vezes, transborda sem eu saber como agir.

Entendi que vim para essa vida para dar, muito mais do que para receber, e redescobri que a minha missão é ajudar outras pessoas, que assim como eu, não se sentem livres para serem quem são. A partir do momento que sou eu mesma e que sigo a minha verdade, eu possibilito que o outro se liberte também. E libertação é algo extremamente poderoso!

Afinal, o nosso propósito principal é sermos quem somos! Então, o negócio é tirar cada máscara que um dia vesti para pertencer, é me despir da armadura que me afasta de mim e da minha luz, é mostrar a minha vulnerabilidade para me conectar mais profundamente com o outro. EU SOU, e isso basta!