Resetando meus preconceitos – o que define meu valor?

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Mesmo sabendo que nenhum momento dura pra sempre, me pego com receio de continuar na mesma situação indefinidamente.

Meu período sabático já acabou, e não porque eu estou trabalhando de novo, mas porque agora me considero desempregada.

Foram três anos separados pra cuidar de mim, estudar o que tivesse vontade, viajar, me conhecer melhor e descobrir o que eu queria fazer dali pra frente.

E o que eu descobri?

Descobri que sei um pouco menos do que pensava saber e que por mais que eu descubra coisas novas sobre mim, ainda restarão muitas partes escondidas esperando para serem descobertas, descobri também que o meu propósito de vida talvez não seja a fonte do meu sustento e que, não importa quanto tempo passe e nem o quanto eu amadureça, ainda vou me sentir uma adolescente perdida em muitos momentos da minha vida.

Ao mesmo tempo em que soa como uma perspectiva desesperadora, também me dá um pouquinho de conforto porque ajuda a tirar o peso de ter que saber tudo sobre mim, de ter que ganhar dinheiro apenas fazendo aquilo que amo e de ter que ser um modelo de maturidade e segurança, porque eu definitivamente não sou.

No segundo semestre do ano que passou, senti um pouco do peso por não estar trabalhando, não porque estivéssemos com dificuldades financeiras, mas porque eu tive que lidar com alguns preconceitos meus. E eram apenas questões minhas mesmo, porque foi o meu parceiro que me incentivou a pedir demissão e que sempre me apoiou em todas as minhas decisões, as sãs e as mais desvairadas.

É como se a única contribuição que eu pudesse dar fosse financeira, porque eu teria menos valor por “apenas” contribuir com as atividades da casa. Fazer as compras, cozinhar, lavar roupa, estender e guardar, limpar a casa e manter tudo organizado … por mais que uma casa não funcione muito bem sem que todas essas coisas sejam feitas, elas me soavam (e ainda soam) como um trabalho sem mérito. E, racionalmente, eu sei que não deveria pensar assim.

Meu parceiro passa o dia todo fora, sai cedo para o trabalho e só volta tarde da noite ao sair da faculdade, nas madrugadas e nos finais de semana sempre tem milhares de trabalhos do curso para fazer, ele teria que ter um clone pra dar conta de tudo e ainda cuidar da casa e mantê-la funcionando.

O nosso acordo na época foi que eu cuidaria de tudo para que ele não precisasse se preocupar com essa questão. E, por mais incrível que me pareça, eu realmente gosto de fazer isso. Eu curto cuidar dele, eu curto preparar comidinhas saudáveis para ele levar, eu curto quando ele curte a minha comida, eu curto até dobrar as roupas e guardá-las no armário. Eu realmente faço isso com prazer, na maior parte do tempo (porque tem dias que eu só gostaria de ficar lendo e é isso que faço) e me considero uma boa dona de casa, não por fazer tudo perfeito, mas por fazer com amor. Se as donas de casa fossem remuneradas, talvez essa fosse a minha profissão.

Mas não é assim, cuidar da casa e de quem a gente ama não é considerado um trabalho que mereça remuneração e direitos garantidos, sob o ponto de vista das leis trabalhistas, então, no fim das contas, eu estou mesmo é desempregada.

E isso tem pesado de uma forma que eu não consigo entender. Eu chego a sentir vergonha quando tenho que responder qual a minha profissão e a palavra “desempregada” é dita. Talvez por pensar que eu perdi meu momento, ou por ter mandado vários currículos e não receber nenhuma resposta, ou por ter medo de descobrir que só tenho competência para trabalhar em banco e saber que essa não é mais uma opção pra mim (voltar para o banco seria a minha aposentadoria por invalidez).

Então, fico me analisando e buscando a origem desse medo e desse preconceito, e chego a pensar que continuo nessa situação para aprender a lidar com meus monstros. Sigo assim para reconhecer que nenhuma situação é permanente, para entender que todo trabalho honesto é digno, e que meu valor não está ligado a um número depositado mensalmente na minha conta bancária. Mas ainda é muito difícil, pra mim, desvincular o valor pessoal do valor financeiro!

Cheguei a pensar em fazer algo por conta, mas acho que já me conheço um pouco pra reconhecer que não sou esse tipo de pessoa. Eu mudo de ideia a todo instante, não me considero uma pessoa persistente e organizada pra conseguir produzir e gerenciar sozinha de modo satisfatório. Então, pra onde ir e o que fazer?

Na verdade, no momento não importa muito o onde ou o que, porque enquanto eu criar empecilhos com os meus medos e preconceitos, não me vejo saindo do lugar.

Estou tentando resetar minhas antigas crenças para criar um espaço em branco na esperança de preenchê-lo com algo novo, mais leve e sem autojulgamentos.

Rótulos são para produtos, não para pessoas

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Outra noite, eu sonhei que estava com o cabelo comprido. Consigo lembrar-me bem da sensação de desconforto, de ficar prendendo-o o tempo todo e de me sentir estranha, eu me perguntava o porquê de ter deixado meu cabelo crescer de novo e pensava em cortá-lo, doar os fios para alguma instituição e raspar a cabeça outra vez.

Esse sonho fez-me lembrar de outros, de anos atrás. Eu ainda tinha cabelos bem longos e sonhava que era careca e eu estava sempre feliz, só ficava triste ao acordar e perceber que aquele cabelão ainda estava lá.

Já raspo a cabeça há uns bons anos e nunca me senti tão livre e bonita! Mas, apesar de tanto tempo ter passado e eu já estar mais do que acostumada a esse visual, minha ausência de cabelos ainda causa estranhamento nas pessoas e continuo recebendo vários tipos de olhares nas ruas, principalmente o olhar de piedade, e eu até entendo. Não é muito comum vermos mulheres carecas andando por aí.

De acordo com algumas coisas que já ouvi e com as perguntas que respondi, minha falta de cabelo está ligada ao câncer; ao fato de eu ter sofrido algum trauma e não querer mostrar meu lado feminino e por isso fiquei careca; a minha possível homossexualidade e a minha religião inexistente. A minha vontade de ser quem sou nunca foi considerada. Afinal, por que uma mulher deseja não ter cabelos?

O diferente costuma despertar nossa curiosidade e a nossa necessidade de entender, enquadrar, rotular. E ok, nós fazemos isso com tudo e todos que parecem não se encaixar nas nossas definições de “normalidade”, a gente sente que precisa nomear essas diferenças que nos cercam e fazemos isso de acordo com o que é a NOSSA verdade. Sim, nossa! Minha, sua, dele; porque a verdade é a verdade de cada um, ela não é única e soberana.

Os rótulos vêm carregados dos mais diversos preconceitos e, ao rotular, enquadramos as pessoas em certas categorias. Enquanto as “prendemos” nesses grupos que nós mesmos definimos, esquecemo-nos que o ser humano é feito de milhares de possibilidades. Somos complexos demais para sermos rotulados. Não somos produtos estáticos em gôndolas.

Quando rotulamos, perdemos. E perdemos porque restringimos. O ser humano está em constante evolução e pode se transformar várias vezes durante um mesmo dia, mas mesmo sabendo disso, ainda nos surpreendemos.

Já reparou que quando alguém “ousa” sair da pequena caixinha onde o prendemos, nos chocamos? A gente fica confuso, se frustra, se decepciona, se sente enganado. Mas, que culpa o outro tem de ser quem é e não se contentar em viver preso aos rótulos que lhe demos? E, por acaso, nós gostamos dos rótulos que nos dão e vivemos de acordo com eles?

Acho que, por já fazer parte de um hábito, nem percebemos que estamos rotulando. É algo automático, não prestamos atenção e continuamos reproduzindo essa conduta. Eu só despertei para essa questão recentemente. Desde que mergulhei em mim nesse processo de autoconhecimento, comecei a observar certas atitudes minhas e me reconheci, muitas vezes ainda, como uma rotuladora.

Percebo que estar consciente me ajuda a enxergar meu comportamento e, muitas vezes, consigo notar que estou rotulando no momento exato do ato. Nessa hora posso reconhecer os preconceitos que existem em mim e que geram minhas atitudes e repenso minha forma de agir. Não é algo que consigo fazer sempre, mas estou aprendendo e, como todo aprendizado, requer força de vontade e persistência.

Isso é realmente algo que quero fazer, deixar de rotular os outros e me libertar dos rótulos autoimpostos também. Esse desejo de mudança vai de encontro à minha ideia de liberdade e do querer ser livre. E não tem como ser livre estando presa a julgamentos.