medo

Tirando algumas máscaras

Porque eu quero poder ser quem eu sou, eu preciso tirar algumas máscaras, tanto as físicas quanto as emocionais.

Quando eu me exponho aqui nesse espaço estou me mostrando vulnerável e sei que posso me magoar com os comentários e atitudes advindos dessa exposição. Aliás, esse foi um dos motivos que me fez parar de escrever por um tempo; o medo. Mas esse também foi um dos motivos que me fez voltar a escrever; eu estava cansada de fugir do que eu queria fazer e eu sabia que precisava enfrentar meu monstros e seguir em frente.

Estou nessa fase de tentar me livrar de tudo aquilo que me esconde e estou gostando muito disso.

Há algumas semanas atrás teve uma confraternização do trabalho do Ciro, num dia de muito sol, com tempo quente e abafado. Durante os onze anos de trabalho no banco eu nunca entrei na piscina em nenhuma dessas festas de fim de ano. Só alguns homens, as crianças e pouquíssimas “corajosas” mulheres (coisa muito rara) se refrescavam. Esse ano eu decidi dar um basta nesse meu comportamento castrador e me joguei.

Pode parecer algo bobo, eu sei, mas se você é mulher e em algum momento já sentiu receio de mostrar seu corpo, se você se escondeu e ainda se esconde e prefere ficar suando a se expor, talvez entenda a libertação que foi quando desfilei minhas celulites e flacidez. E mesmo me lembrando de todas as vezes em que não me permiti essa simples diversão de me refrescar num dia quente, não me culpei.

Não sei o que pensaram a meu respeito, não sei se julgaram meu corpo e, honestamente, estava pouco me lixando pra isso. Finalmente, um pouquinho da liberdade que eu tanto almejava pareceu surgir quando eu fiz o que eu estava com vontade, pensando somente em mim e no que eu queria fazer.

Outra máscara que comecei a retirar há um tempinho, foi a maquiagem; artifício que eu usava como um meio de proteção quando eu queria esconder minhas imperfeições de pele e que me dava uma falsa sensação de segurança pra botar minha cara no mundo. Essa função da maquiagem eu não quero mais “vestir”. Quando eu usar, e se eu usar, não será mais para me esconder, porque eu não quero mais sentir vergonha da minha aparência e de todas as marcas que fazem parte de mim.

Não sei se tem a ver com ficar mais velho, com atingir um ponto na sua vida em que você não quer mais fingir, se esconder, se fechar, não se permitir. Estou tão cansada de tentar interpretar alguém diferente de mim, porque soa falso e é extremamente exaustivo fingir pra si mesmo e pro mundo que você é alguém que não é.

Quero ser livre para viver de acordo com as minhas verdades e com tudo aquilo que faz sentido pra mim, seguindo o meu coração e não os meus medos, porque esse último já foi meu guia por muito tempo e não me fez mais feliz.

A ideia é encontrar e reconhecer cada uma dessas máscaras que criei para me proteger e, então, me libertar. É tentar não criar novas couraças e viver mais leve. É me jogar no mundo, mesmo com medo de me machucar. É ser eu mesma em cada salto no escuro, me despindo e me reencontrando em cada mergulho profundo pra dentro de mim.

Primeiro desafio de 2017

E então que, no finzinho de 2016, o Fuel ficou bem doente de uma hora pra outra. Fomos buscá-lo na minha sogra e o trouxemos para Campinas numa clínica veterinária que tem até UTI.

Fizeram alguns exames, também ultrassom, precisou de soro subcutâneo, vários medicamentos e, como perdeu sangue vivo e a contagem de plaquetas estava baixa, acharam melhor interná-lo. Foram duas noites no hospital, pudemos visitá-lo no sábado e o buscamos no domingo.

Na primeira madrugada de internação, acordei às 3 horas e não conseguia mais dormir, tinha receio que fossem ligar com uma má notícia. E eu sei que ficar acordada não impediria nada, não resolveria o problema, não o curaria de todos os males. Mas, eu não conseguia dormir. Sei que minha cabeça não ajuda, que me preocupo demais e antecipo um sofrimento que pode nem vir a chegar. Enquanto eu fico com o estômago apertado, mil pensamentos habitam a minha mente, descontroladamente.

Quando eu saio do momento presente e viajo para um futuro que só existe na minha imaginação fértil e dramática, eu sofro.

META PARA 2017 E PARA A VIDA: NÃO SOFRER PELO QUE NÃO EXISTE.

Mas agora, felizmente, ele já parece estar fora de perigo, será medicado em casa por mais trinta dias e fará exames de sangue semanais. Logo mais o levaremos de volta para minha sogra, lá ele tem espaço e uma companheirinha canina que está sentindo a falta dele.

O que me fez escrever sobre esses acontecimentos foi porque isso tudo me fez enxergar meus medos por uma outra perspectiva. Sempre pensei que meus medos me paralisassem e, até certo ponto, é isso mesmo. Dependendo da situação, não consigo agir. Mas, nem tudo o que me assusta me imobiliza.

Não vou dizer que quando vi aquele sangue todo não senti nada, pra ser honesta, eu senti enjoo. E não foi de nojo, foi o medo de perdê-lo. Mas, dessa vez, consegui fazer o que precisava ser feito, com o estômago embrulhado, com medo de sofrer por uma futura (talvez, possível) perda, mas não recuei nem paralisei.

E aí fiquei pensando, qual a diferença entre o medo que me faz recuar e o medo que me impele adiante? É a motivação por trás que os distingue? Quando envolve uma outra pessoa a minha tendência é agir? Não sei. Não sei mesmo.

Só sei que, nesse momento enquanto escrevo, ele está deitado no chão ao meu lado, dormindo. Então, me deito ao lado dele e ficamos assim, nesse aconchego que poderia durar horas sem que qualquer um de nós dois se cansasse; ele que adora um carinho, e eu que não me canso de acarinhá-lo.

A zona de conforto desconfortável

A zona de conforto desconfortável - doce cotidiano

Estou com mania de adiar. “Isso pode esperar pra quando eu voltar de viagem”, “é besteira resolver isso agora, o ano está quase acabando”, “ano que vem eu faço isso”. Vivo como se essa marcação de tempo realmente fosse importante, como se isso significasse algo. As datas são mera convenção, não é verdade?

Percebo que estou evitando sair da minha zona de conforto. Mesmo que esse “conforto” não esteja me fazendo tão bem, mesmo que eu saiba que está na hora de mudanças, eu adio. Por medo? Não sei, tenho tendência a me acomodar.

Já faz um bom tempo que eu e o Ciro falamos sobre mudar, sair do micro apartamento onde moramos e ir para uma casa. Mais espaço, quintal, um pouco de verde. Vira e mexe, entro em sites para procurar imóveis para locação, em Campinas e em Indaiatuba, pesquiso valores, separo vários links, visitamos várias casas e só.

No começo do ano, enquanto eu viajava, o Ciro encontrou a casa perfeita pra nós, do jeitinho que queríamos e num valor que poderíamos pagar. E eu surtei. Dei pra trás, desisti, amarelei … existem várias palavras para descrever o meu medo de sair do conhecido. E eu faço isso numa frequência maior do que gostaria de admitir.

Óbvio que não foi de todo ruim ficarmos no nosso antigo apê esse ano, facilitou a vida do Ciro já que ele trabalha perto de casa. Mas, percebo que estamos há tempo demais nesse conforto desconfortável.

Não temos espaço, pra nada. Só temos um banheiro e ele é minúsculo, nossa cozinha é tão pequena que preciso fazer malabarismos pra cozinhar e vivo me batendo nos móveis, a máquina de lavar fica quase encostada no fogão e isso me irrita, mal tenho espaço para chegar ao tanque, nossa sala e nosso quarto ficam atravancados de coisas, e por ser um espaço pequeno cheio de móveis, é difícil de limpar.

Foram muitos anos nesse apartamento, quase 5 anos sozinha e 4 anos e meio com o Ciro. Acho que já deu! Sinto que está na hora de mudar. Assim como acontece com as pessoas, cada lugar só dá o que tem pra dar, e esse apê cumpriu bem a sua função.

O que me pega de verdade não é o ato da mudança em si, com as caixas, o transporte e a organização; o que me dá um friozinho na barriga é a antecipação da preocupação com algo que não tenho como prever ou controlar. Fuel e Spock! Um cachorro que mora na minha sogra e o outro que mora nos meus pais. Tenho medo que eles não se deem bem, tenho medo de não saber como agir, tenho medo do desconhecido dessa futura relação.

Eu sei que estou perdendo tempo e energia pensando nisso, porque só saberei o que fazer quando algo acontecer e se acontecer. Essa masturbação mental ainda faz parte de mim e, mesmo com EFT ou com toda a racionalização possível, permito que esses pensamentos me assombrem.

Mas, ainda que eu crie situações para me manter onde estou, sinto que é hora de ir, mesmo com medo.

Onde mora a limitação?

ultrapasse

Existe limite de idade pra começar uma nova carreira?

Existe limite de idade pra encontrar um amor?

Existe limite de idade pro prazer?

Existe limite de idade pra novas descobertas e sentimentos?

Existe limite de idade para sermos quem somos?

38 pra 39 e mudando de rumo, de ideia e de perspectiva.

Eu acredito que, enquanto houver vida em nossos corpos, sempre existe a possibilidade para novos começos, e penso que isso vale para todas as áreas.

Poucas coisas são limitadas pela idade e, ainda assim, varia de pessoa pra pessoa. Não acho que exista uma regra universal e imutável com relação a isso, nem mesmo pra engravidar, porque independente de ser aconselhável ou não gerar um ser numa idade avançada, já vimos avós engravidando. O risco é relativo, o risco é risco em qualquer fase da vida.

E por que temos tanto medo de arriscar? O que que queremos evitar? Uma decepção, uma rejeição, uma frustração? A gente continua vivo depois disso, a gente escolhe ficar vivo e recomeça.

Me lembro da primeira vez que meu coração foi partido numa decepção amorosa. Eu sentia até dor física e, na época, achei que não existia dor pior. Depois disso meu coração foi partido mais algumas vezes, provavelmente devo ter partido outros corações pelo caminho e descobri que, independente do tempo que a dor permaneceu, ela já não foi tão insuportável, eu já sabia o que esperar dela. A gente vive sabendo que não tem como fugir da dor, mas a gente aprende que tem como lidar com ela.

A gente vai seguindo, cada um no seu caminho, cada um ouvindo seu coração e intuição, tentando dar o melhor que temos pra dar no momento, entendendo que nunca paramos de aprender, que é sempre tempo de mudar, recomeçar, experimentar. E é isso que eu quero fazer até meu último momento aqui, quero aprender, quero compartilhar, quero ter minha vida tocada pelo outro e quero poder tocar a vida de alguém também.

A gente sempre pode mudar de ideia e fazer de novo ou fazer o novo. A ideia é cortar, romper, rasgar cada fio que nos prende e limita, nem que seja um pouquinho por vez. Acho que quando a gente percebe que a limitação mora somente dentro da nossa cabeça fica mais fácil lidar com ela. Esse tem sido o meu aprendizado diário.

Abrindo as caixinhas do medo da rejeição

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De acordo com o dicionário online Michaelis, a palavra REJEIÇÃO é um substantivo feminino e seu significado é:

1.   Ato ou efeito de rejeitar; recusa, recusação.
2. Med – Reação do organismo que recebe o enxerto de órgão ou de tecidos, decorrente da incompatibilidade entre o organismo e o enxerto.

De acordo comigo, REJEIÇÃO é mais do que um simples substantivo feminino; é aquilo que me impede de me expor, é o que me impede de me entregar completamente nos meus relacionamentos amorosos, é o que me faz me esconder e não deixar meu verdadeiro eu se mostrar. É o medo que permeia vários aspectos da minha vida.

Talvez, minha ação frente ao medo da rejeição se aproxime do significado número 2 do dicionário. Meu corpo, mente e espírito entram em crise, porque a incompatibilidade entre minha necessidade de me abrir e me entregar e o medo da decorrência disso, a vontade de ser eu mesma e o medo de ser eu mesma, me fazem travar, estagnar e me esconder.

Eu sempre prendo a luz dentro de mim. Guardo meu poder pessoal numa caixinha bem pequena, e então coloco essa caixinha dentro de outra caixa, essa caixa dentro de outra, e outra e outra. Tranco e coloco cadeados, escondo nos cantos mais remotos bem dentro de mim e tento esquecer a sua existência.

A parte engraçada disso tudo é que isso não me impede de sofrer ou de ser rejeitada. Não existe esconderijo no mundo pra me proteger de sentir. E eu quero sentir!

Esse processo de sufocar e esconder meu EU é tão mais cansativo e dispendioso do que simplesmente enfrentar meus medos e SER. Então, por que faço isso?

Imagino que minha ação não seja racional porque isso sempre funcionou inconscientemente apenas como uma forma de me proteger. Desconhecendo os prejuízos que me causava, eu não questionava os porquês.

Agora, consciente desse mecanismo de defesa e proteção, entendendo que não há necessidade disso e percebendo que o medo de ser rejeitada não pode ser maior do que o corpo e a mente que o contém, crio possibilidades e me permito abrir as caixas que estavam trancadas e escondidas dentro de mim.

Esse é o meu processo de libertação, em que vou abrindo uma caixinha por vez e me reencontrando comigo. Nesse reencontro percebo o quanto eu sentia falta da minha luz e da minha alegria, percebo o quanto necessito de expansão e de espaço e entendo que o medo só quer o meu bem. Ao descobrir que não preciso mais dele, posso libertá-lo. E eu quero tanto fazer isso!

Foi um longo caminho até esse reconhecimento e eu sei que essa jornada não para. O autoconhecimento é um caminho sem fim, cheio de desafios e descobertas, mas que vale a pena ser trilhado sem atalhos.

O equilíbrio e a tempestade

o equilíbrio e a tempestade - doce cotidianoÀs vezes, a gente acha que já conhece quase tudo sobre a gente; como as nossas paixões, nossos medos, nossos gostos, nossos desejos e sonhos e, às vezes, nos percebemos como completos estranhos, quase não nos reconhecemos no espelho.

De vez em quando descubro algo novo sobre mim. Na verdade, não sei se é realmente novo ou se era somente algo escondido, não visitado, não explorado. Você também percebe isso sobre você? Será que isso é uma constante em nossas vidas? Esse surpreender-se consigo mesmo, esse perpétuo descobrir e redescobrir-se, essa renovação de ideias e pensamentos, essa vontade e anseio por mudanças. Alguém mais se sente assim?

Confesso que, muitas vezes, tudo o que eu queria era me contentar e me sentir satisfeita e penso até que já vivi e vivo vários períodos assim. Mas, são só momentos, e esses momentos são passageiros, logo depois vem a tempestade, e ela sempre vem.

Eu nunca tive medo de tempestades, os trovões nunca me assustaram, muito pelo contrário, desde cedo aprendi com a minha mãe a enxergar a sua beleza; curto o som do vento e da chuva forte de encontro à janela, me delicio com o maravilhoso cheiro que chega no ar antes das primeiras gotas caírem e me extasio ao presenciar uma tempestade de raios. Mesmo com as eventuais destruições, ainda assim acho bonito.

Não sei se tem a ver com o meu temperamento, talvez tenha – meu bisavô não me chamava de tempestade por acaso -, mas a calmaria só me agrada por um curto período de tempo, acho que minha mente aprendeu a funcionar na turbulência. Se isso é bom ou ruim, eu não sei, mas tenho funcionado assim. Talvez, a tempestade seja o meu equilíbrio.

O ponto de equilíbrio é relativo, né? Cada um tem o seu. Mas, por muito tempo me espelhei em outras pessoas na busca do que era o meu ponto do meio e, inevitavelmente, me frustrei.

Acho que por isso é tão importante o autoconhecimento, porque não existe nenhuma outra pessoa no mundo como você. Então, a receita para a sua felicidade não estará com ninguém mais a não ser você. Outras pessoas podem ajudar nessa busca, e a gente sempre encontra ótimas parcerias em nossa jornada, mas esse é um caminho que se trilha só. Demorei pra aprender isso e acho que ainda estou aprendendo.

Olhar pra dentro exige coragem. Sim, é uma viagem meio assustadora porque não sabemos bem o que podemos encontrar e quais serão as consequências disso. Ainda tenho medo de acabar ficando sozinha, de afastar as pessoas que amo, de não ser aceita com a minha sombra e, sobretudo, com a minha luz. Tenho receio de ser uma tempestade forte demais e destruir o que estiver em meu caminho.

Mas, penso que se eu aprendi a amar tempestades, com certeza existem outros doidos como eu.

A reconciliação e as estrelas cadentes

a reconciliação e as estrelas cadentes - doce cotidiano

Em novembro de 2015 eu escrevi sobre o passado nesse post aqui. Esse assunto é algo ainda recorrente na minha vida, e não é porque me apego a ele querendo que o tempo volte, nem porque não consigo esquecer os traumas antigos.

Ele é um tema importante porque, nessa viagem de autoconhecimento, eu percebi que repito certos comportamentos que são meio autodestrutivos. Descobri um padrão nas minhas ações, escolhas e pensamentos e, não querendo continuar nesse círculo vicioso, resolvi encarar o problema de frente.

Todos os dias gosto de ler a “Flor do dia” do Sri Prem Baba, no Facebook. Sempre tem algo que faz sentido pra mim e vejo uma luz se acender. Quantos insights ocorreram ao ler um simples parágrafo!

Na semana retrasada eu assisti uma palestra sobre relacionamento e, no meio de uma dinâmica, o passado bateu forte na minha porta.

Dois dias depois eu leio a flor do dia e sinto outra batida.

“Quando desenvolve a habilidade da auto-observação e da atenção plena, a sua memória desperta e você começa a lembrar de situações e imagens; você abre os porões do inconsciente e inicia uma limpeza. Limpar os porões significa liberar sentimentos guardados, fechar contas abertas (mágoas e ressentimentos) e se harmonizar com o passado, para finalmente poder sustentar a presença. Pois o que te tira da presença é o passado.”

Então, no dia seguinte, outra vez.

“Para ancorar a presença é preciso fechar as contas com o passado, o que significa poder olhar para trás e agradecer à cada pessoa que passou na sua vida. Onde existe ingratidão existe acusação; onde existe acusação, existe um coração fechado. Em outras palavras, existe uma ferida a ser tratada. Pois é essa ferida que te mantém preso ao passado. Com isso, eu lhe convido a fazer uma reflexão: se, nesse momento, a vida lhe convidasse a deixar o corpo, você estaria pronto? Se a resposta é não, procure identificar porquê. O que você estaria deixando para trás inacabado? Quais são as contas abertas que você estaria deixando? Somente quando puder fechar essas contas do passado, você poderá viver plenamente o presente.”

Algumas respostas para minhas perguntas estão lá atrás. Faço essa revisitação desarmada, não é uma caça às bruxas, não procuro culpados. A intenção é aprender, entender, soltar amarras, reconciliar.

Perdoar e libertar.

Por que faço o que faço hoje, da forma que faço?

De onde vem certos medos?

Algumas pessoas preferem deixar o passado intocado e esquecido e o que importa é só o agora.

Nesse ponto eu concordo, o agora é o que importa. Mas, tem sempre um mas pra mim, para que eu possa estar 100% presente no presente, de coração e alma, preciso fazer as pazes com o que já foi.

Pra mim é importante ter essa consciência, não tenho medo de mexer nesse vespeiro e encarar antigas dores, porque eu sei que é necessário e faz parte do meu processo de cura.

Desde que reiniciei minha jornada de autoconhecimento, há quase dois anos atrás, o Universo foi colocando pessoas especiais no meu caminho. Algumas delas surgiram tão inesperadamente que eu as comparo às estrelas cadentes que vi no céu de Piracanga. A gente tem que estar atento pra enxergar e, quando as vemos, nunca mais esquecemos da experiência. A elas, sou eternamente grata.

Essas pessoas iluminaram o meu caminho me ajudando a enxergar o que eu mantinha no escuro: meus medos, minhas mágoas, minhas dores …. me fazendo entrar num processo profundo e intenso de limpeza e me mostrando que essa é a hora de me reconciliar com a minha sombra.

Pro bem ou pro mal, o contato com o ser humano sempre nos ajuda a evoluir.

Enquanto vou fazendo as pazes com o que já foi, abro um espaço em mim para viver o que é.

O vício da explicação e o tempo

o vicio da explicação e o tempo

Estava pensando sobre a minha necessidade de me explicar o tempo todo. Explicar meus sonhos, meus pensamentos, minhas ações, minha falta de ação …. Explicar pra qualquer um. Meio que tentando me justificar por algo. Algo que não sei o que é.

Você se sente ou já se sentiu assim?

Pra mim, isso também se relaciona com a minha permissividade. Eu demorei pra perceber que era permissiva, principalmente porque fui uma adolescente rebelde. Mas, eu tinha essa rebeldia só dentro de casa, na segurança do amor dos meus pais e meus irmãos. Quando tinha que me posicionar fora de casa, eu me calava. Hoje consigo enxergar isso.

Meio que dá uma vergonha (olha aqui a preocupação com os outros de novo) de admitir isso. Nunca me defendi, nunca defendi causas que eu acreditava, pelo menos não abertamente. E acho que era por medo. Medo de sair de cima do muro, escolher um lado e, de repente, me descobrir sozinha.

Mas, por que esse medo de ficar sozinha?

Pra mim tem a ver com a minha baixa autoestima naquela época, o fato de não gostar de mim mesma e aquele sentimento eterno de inadequação. Eu não queria me sentir sozinha porque não gostava da minha companhia. Talvez, por isso, sempre engatei um namoro atrás do outro, nunca me permiti ficar só comigo, me curtir um pouco, me descobrir. Cara, faço isso desde que comecei a namorar, bota uns 20 anos nisso. Parece muito tempo, né?

Mas, não gosto muito de falar de TEMPO, pelo menos não ultimamente, porque junto vem aquela velha cobrança, autoimposta e imposta pela sociedade; como se existisse um período máximo para alcançarmos nossos sonhos, para sermos felizes, para encontrarmos nosso propósito.

Aquele relógio da cobrança nunca para, está sempre correndo e te lembrando que você ainda não fez nada realmente importante, que você não encontrou suas respostas, que você ainda não sabe se quer ser mãe, que você já tinha que saber de tudo isso há muito tempo.

Será? Será que eu já deveria saber disso? Quem define esse momento? Quem sabe o momento certo pra mim? Pra você?

A gente vai vivendo no piloto automático, fazendo o que esperam de nós, decidindo nosso futuro profissional quando somos jovens demais, esquecendo que sempre podemos mudar de escolhas, de ideias, de amores, de vida.

Estou acordando aquela adolescente rebelde, quero apresentá-la para a criança doce e meiga que eu fui e trazê-las de volta pra mim. Porque eu quero a doçura, quero a indignação que gera ação, quero a gentileza, a força, a coragem, o amor próprio, quero tudo o que fez e faz parte de mim.

Quero continuar buscando e não desistir, mesmo quando me disserem que é inútil e que não existe nada a buscar. Porque eu sei que dentro de mim isso existe, eu só não consegui acessar.

Ainda!

Deixando o passado em seu lugar – Seguindo em frente!

Deixando o passado em seu lugar

Passei tanto tempo brigando com o meu passado, me culpando por atitudes impensadas, investigando como eu poderia ter feito diferente, o que eu teria falado, como eu teria agido, e gastei tanto tempo e energia olhando pra trás que deixei de ver o que estava bem na minha frente.

Não tem como estar 100% no presente se minha mente não deixa o passado em paz.

Tudo o que eu fiz foi agir com as ferramentas que eu tinha na época e sei que dei o melhor que eu tinha pra dar.

Então, mesmo sabendo de tudo isso, por que ainda permito que velhos fantasmas assombrem o meu agora me impedindo de agir?

Você já percebeu quanto tempo a gente desperdiça e quantas oportunidades são perdidas porque temos medo de que traumas passados se repitam? Posso arriscar dizer que, na maioria esmagadora das vezes, esses “acontecimentos traumáticos” foram fatos que só ocorreram uma única vez e, ainda assim, ficamos com receio de que eles aconteçam de novo.

Semana passada, assistindo um Periscope da Lígia Fabreti, ela disse duas frases que me impactaram muito:

“A gente passa a vida nos protegendo de coisas que já aconteceram”.

E não é que é verdade? Cada vez que nos “protegemos” do passado deixamos de viver um tanto do presente.

O passado já foi, não tem nada que podemos fazer para mudá-lo. E eu não posso deixar de me perguntar: eu quero mesmo mudá-lo? Se eu pudesse voltar e alterar as coisas que me incomodam hoje, eu alteraria? Eu faria alguma coisa diferente?

“Se a gente fosse tentar apagar o nosso passado o nosso eu do presente não existiria”.

E, mesmo com as pequenas dores, as dúvidas, os medos e inseguranças, eu não quero ser nenhuma outra pessoa que não seja eu. A Silvia de hoje é o resultado de cada escolha, palavra e atitude tomada em todos esses anos. E eu aprendi a amar essa Silvia.

Então, quando eu olhar para o passado, que seja para agradecê-lo! Eu aprendo com ele e o deixo em seu lugar. Se surgir alguma ocasião em que eu possa fazer algo melhor e com mais sabedoria do que antes, eu farei! Se eu tiver a oportunidade de me redimir dos erros cometidos e dos quais eu me arrependo, eu pedirei perdão. E me perdoarei também!

O 1º assédio, o 2º, o 3º ….

O 1º assédio, o 2º, o 3º .... - Doce Cotidiano

Adiei escrever sobre esse tema porque sempre tive receio de me expor. Guardei as minhas “vergonhas” e medo na tentativa de esquecê-los. Mas, não importa o quanto eu evite falar sobre isso, não adianta virar o rosto e procurar outra vista, esse assunto continua lá e eu não me esqueço. Nenhuma mulher esquece!

Aqui eu me direciono à mulher porque ela sempre foi a maior vítima, mas também abraço os muitos meninos que sofreram o mesmo tipo de violência, física ou não.

Vou tentar expressar um pouco a minha dor, a minha vergonha, a minha indignação, a minha sensação de impotência e os medos que vieram junto. Não estou escrevendo com raiva, estou tentando administrá-la porque não quero outro sentimento me fazendo mal.

Começo dizendo que nunca fui estuprada.

Palavra forte, né? Algumas pessoas não gostam nem de pronunciá-la mas, infelizmente, essa palavra existe. Não é ignorando que ela perde a força, não é deixando de falar dela que ela some. Quisera eu que existisse uma mágica para fazer sumir essa palavra e toda a dor que ela traz.

Os assédios que eu sofri e ainda sofro foram outros. Desde sussurros no ouvido que só poderiam ser escutados por mim até mãos indesejadas em várias partes do meu corpo.

As mulheres, na sua maioria esmagadora, sabem o que é sentir essa violação. Então aproveito para pedir aos homens que vão ler esse desabafo, se vocês amam alguma mulher – mãe, irmã, namorada, filha, esposa, amiga -, imaginem o que elas sentem quando algo assim acontece com elas.

Em 99% das vezes que algo assim aconteceu comigo eu não tive reação. Sempre escutei que era melhor ficar quieta do que gritar, para a minha própria proteção. Talvez, se eu gritasse, o cara poderia fazer algo pior.

Hoje eu penso diferente!

O meu pior momento foi numa consulta médica. Eu tinha alguns nódulos mamários e como meu mastologista ficou preocupado, me recomendou uma cirurgia. Alguns exames pré-operatórios eram necessários então fui encaminhada para um laboratório. Eu tinha 21 anos.

Eu nunca pensei que seria o tipo de mulher que não consegue agir. Poderia jurar que se algo assim acontecesse eu iria gritar, eu faria um escândalo. Eu jurava que não ficaria quieta. Mas, quando aconteceu comigo, quando aquele velho ficou tocando os meus seios sem me examinar e enquanto eu era assediada, eu congelei. Eu não podia acreditar que aquilo estava acontecendo. Eu queria chorar, eu queria sumir, eu queria um canto seguro pra nunca mais sair dele.

Depois de tantos exames de toque a gente sabe quando algo está errado. Então, por que eu me calei?

Quantas outras mulheres foram assediadas por esse mesmo homem e não falaram nada? Quantas mulheres mais passarão pela mesma violência?

Já me mostraram o pau na rua, já apertaram a minha bunda no metrô, já roçaram nos meus seios e pressionaram o pau em mim no ônibus lotado, já me gritaram “gostosa”, “bucetuda”, “essa eu comia”, “ah se eu fosse homem!”, “quero te pegar de jeito” e tantas outras palavras, frases e absurdos que as mulheres ouvem diariamente.

Hoje, cada vez que tenho que passar por um grupo de homens na rua a minha vontade de atravessar é enorme. Fica sempre um receio de escutar o que eu não quero escutar, de sentir o que eu não quero sentir. O medo está sempre lá e eu convivo com ele!

O que eu queria mesmo, era poder abraçar todas as mulheres vítimas desse tipo de violência e de outras piores e dizer que não estamos sozinhas! Tem uma infinidade de pessoas – e aqui incluo muitos homens – que entende e respeita a nossa dor e também quer um mundo melhor.

Por menos violência e por mais segurança.

Por menos silêncio e por mais conversas sobre o assunto.

Por mais leis que nos protejam e, sobretudo, por mais amor e respeito para todas as mulheres.