O medo e a merda

Me lembro de estar deitada no chão do banheiro, sem conseguir me mexer ou falar, ouvindo minha mãe falando comigo como se ela estivesse muito distante, sua voz abafada e perdida dentro de mim.

Entendo que eu estou deitada sobre uma poça da minha própria merda, líquida e incontrolável, e que continua a escorrer de mim, sem que eu possa segurar ou sentir.

Chegam meu pai e meu marido e eu só consigo pensar que meu pai vai me ver nua e que eu não o quero ali.

Eu sou uma boneca de pano sem controle, mole e quase sem vida.

Me despem e me colocam sentada numa cadeira plástica embaixo do chuveiro com a água escorrendo pelo meu corpo enquanto a diarreia escorre de mim.

Ainda estou lá apesar de não conseguir falar. Ouço a preocupação na voz da minha mãe: olha como ela está branca, se ela estivesse sozinha em casa quem iria encontrá-la?, ela não pode mais morar sozinha, ela parece estar morrendo.

E eu só consigo pensar: eu não quero voltar a morar com vocês, eu estou bem. Mas as palavras não conseguem encontrar o caminho da minha mente até a minha boca e morrem antes que possam sair.

Acho que estou indo embora e começo a gostar da sensação. Acaba-se o medo e a dúvida e com isso não preciso decidir e agir. Eu sou uma covarde! Começo a me perder e afundar dentro de mim e tudo o que me aborrece se torna secundário. Se eu soubesse como era bom, eu teria morrido antes.

Querem me levar para o hospital, mas eu ainda me perco no monte de água suja que insiste em escorrer de dentro de mim, sem que eu possa me opor, sem que eu consiga segurar. Talvez me reste alguma dignidade porque me forço a dizer: não vou pro hospital toda cagada.

Quando me torno vazia e não resta mais nada a sair, me vestem e me levam.

Na sala de espera, minha mãe e meu marido começam a discutir para decidir quem ficará comigo caso eu precise ser internada. Ele diz: eu fico. Ela rebate: não, eu que fico, você vai acabar dormindo e ela precisa de alguém acordada ao lado dela, e então me perguntam quem eu quero que fique, e eu só consigo dizer: pai, fica você?, mas quem entra comigo é a minha mãe.

Finalmente sou atendida e iniciam a medicação. Não me recordo de muita coisa, talvez eu tenha dormido.

Me dão alta, me colocam numa cadeira de rodas e, no caminho para o carro, me sinto partindo outra vez. Talvez eu só estivesse desmaiando, mas me lembro de pensar: que bom, estou morrendo.

Sabe, eu não queria realmente morrer, eu só queria acabar com a culpa, o medo, a indecisão e a covardia. Eu só queria resolver os meus problemas sem ter que resolvê-los. Eu só queria me divorciar sem ter que pedir o divórcio. Eu só queria viver a minha vida sem o medo de ser julgada.

A diarreia incontrolável diz o que eu não consigo dizer. Toda a sujeira que me habita e tudo o que eu carrego de medo e de culpa quer sair e encontra um caminho e eu já não posso negar.

Perceber que desejei morrer para não ter que agir me fez agir, porque, no fundo, eu não queria morrer. Eu só queria ser livre. Dois dias depois eu pedi o divórcio, da forma mais corajosa que a minha bruta covardia permitia, por e-mail.

Resetando meus preconceitos – o que define meu valor?

Photo by Kelly Sikkema on Unsplash

Mesmo sabendo que nenhum momento dura pra sempre, me pego com receio de continuar na mesma situação indefinidamente.

Meu período sabático já acabou, e não porque eu estou trabalhando de novo, mas porque agora me considero desempregada.

Foram três anos separados pra cuidar de mim, estudar o que tivesse vontade, viajar, me conhecer melhor e descobrir o que eu queria fazer dali pra frente.

E o que eu descobri?

Descobri que sei um pouco menos do que pensava saber e que por mais que eu descubra coisas novas sobre mim, ainda restarão muitas partes escondidas esperando para serem descobertas, descobri também que o meu propósito de vida talvez não seja a fonte do meu sustento e que, não importa quanto tempo passe e nem o quanto eu amadureça, ainda vou me sentir uma adolescente perdida em muitos momentos da minha vida.

Ao mesmo tempo em que soa como uma perspectiva desesperadora, também me dá um pouquinho de conforto porque ajuda a tirar o peso de ter que saber tudo sobre mim, de ter que ganhar dinheiro apenas fazendo aquilo que amo e de ter que ser um modelo de maturidade e segurança, porque eu definitivamente não sou.

No segundo semestre do ano que passou, senti um pouco do peso por não estar trabalhando, não porque estivéssemos com dificuldades financeiras, mas porque eu tive que lidar com alguns preconceitos meus. E eram apenas questões minhas mesmo, porque foi o meu parceiro que me incentivou a pedir demissão e que sempre me apoiou em todas as minhas decisões, as sãs e as mais desvairadas.

É como se a única contribuição que eu pudesse dar fosse financeira, porque eu teria menos valor por “apenas” contribuir com as atividades da casa. Fazer as compras, cozinhar, lavar roupa, estender e guardar, limpar a casa e manter tudo organizado … por mais que uma casa não funcione muito bem sem que todas essas coisas sejam feitas, elas me soavam (e ainda soam) como um trabalho sem mérito. E, racionalmente, eu sei que não deveria pensar assim.

Meu parceiro passa o dia todo fora, sai cedo para o trabalho e só volta tarde da noite ao sair da faculdade, nas madrugadas e nos finais de semana sempre tem milhares de trabalhos do curso para fazer, ele teria que ter um clone pra dar conta de tudo e ainda cuidar da casa e mantê-la funcionando.

O nosso acordo na época foi que eu cuidaria de tudo para que ele não precisasse se preocupar com essa questão. E, por mais incrível que me pareça, eu realmente gosto de fazer isso. Eu curto cuidar dele, eu curto preparar comidinhas saudáveis para ele levar, eu curto quando ele curte a minha comida, eu curto até dobrar as roupas e guardá-las no armário. Eu realmente faço isso com prazer, na maior parte do tempo (porque tem dias que eu só gostaria de ficar lendo e é isso que faço) e me considero uma boa dona de casa, não por fazer tudo perfeito, mas por fazer com amor. Se as donas de casa fossem remuneradas, talvez essa fosse a minha profissão.

Mas não é assim, cuidar da casa e de quem a gente ama não é considerado um trabalho que mereça remuneração e direitos garantidos, sob o ponto de vista das leis trabalhistas, então, no fim das contas, eu estou mesmo é desempregada.

E isso tem pesado de uma forma que eu não consigo entender. Eu chego a sentir vergonha quando tenho que responder qual a minha profissão e a palavra “desempregada” é dita. Talvez por pensar que eu perdi meu momento, ou por ter mandado vários currículos e não receber nenhuma resposta, ou por ter medo de descobrir que só tenho competência para trabalhar em banco e saber que essa não é mais uma opção pra mim (voltar para o banco seria a minha aposentadoria por invalidez).

Então, fico me analisando e buscando a origem desse medo e desse preconceito, e chego a pensar que continuo nessa situação para aprender a lidar com meus monstros. Sigo assim para reconhecer que nenhuma situação é permanente, para entender que todo trabalho honesto é digno, e que meu valor não está ligado a um número depositado mensalmente na minha conta bancária. Mas ainda é muito difícil, pra mim, desvincular o valor pessoal do valor financeiro!

Cheguei a pensar em fazer algo por conta, mas acho que já me conheço um pouco pra reconhecer que não sou esse tipo de pessoa. Eu mudo de ideia a todo instante, não me considero uma pessoa persistente e organizada pra conseguir produzir e gerenciar sozinha de modo satisfatório. Então, pra onde ir e o que fazer?

Na verdade, no momento não importa muito o onde ou o que, porque enquanto eu criar empecilhos com os meus medos e preconceitos, não me vejo saindo do lugar.

Estou tentando resetar minhas antigas crenças para criar um espaço em branco na esperança de preenchê-lo com algo novo, mais leve e sem autojulgamentos.

Tirando algumas máscaras

Porque eu quero poder ser quem eu sou, eu preciso tirar algumas máscaras, tanto as físicas quanto as emocionais.

Quando eu me exponho aqui nesse espaço estou me mostrando vulnerável e sei que posso me magoar com os comentários e atitudes advindos dessa exposição. Aliás, esse foi um dos motivos que me fez parar de escrever por um tempo; o medo. Mas esse também foi um dos motivos que me fez voltar a escrever; eu estava cansada de fugir do que eu queria fazer e eu sabia que precisava enfrentar meu monstros e seguir em frente.

Estou nessa fase de tentar me livrar de tudo aquilo que me esconde e estou gostando muito disso.

Há algumas semanas atrás teve uma confraternização do trabalho do Ciro, num dia de muito sol, com tempo quente e abafado. Durante os onze anos de trabalho no banco eu nunca entrei na piscina em nenhuma dessas festas de fim de ano. Só alguns homens, as crianças e pouquíssimas “corajosas” mulheres (coisa muito rara) se refrescavam. Esse ano eu decidi dar um basta nesse meu comportamento castrador e me joguei.

Pode parecer algo bobo, eu sei, mas se você é mulher e em algum momento já sentiu receio de mostrar seu corpo, se você se escondeu e ainda se esconde e prefere ficar suando a se expor, talvez entenda a libertação que foi quando desfilei minhas celulites e flacidez. E mesmo me lembrando de todas as vezes em que não me permiti essa simples diversão de me refrescar num dia quente, não me culpei.

Não sei o que pensaram a meu respeito, não sei se julgaram meu corpo e, honestamente, estava pouco me lixando pra isso. Finalmente, um pouquinho da liberdade que eu tanto almejava pareceu surgir quando eu fiz o que eu estava com vontade, pensando somente em mim e no que eu queria fazer.

Outra máscara que comecei a retirar há um tempinho, foi a maquiagem; artifício que eu usava como um meio de proteção quando eu queria esconder minhas imperfeições de pele e que me dava uma falsa sensação de segurança pra botar minha cara no mundo. Essa função da maquiagem eu não quero mais “vestir”. Quando eu usar, e se eu usar, não será mais para me esconder, porque eu não quero mais sentir vergonha da minha aparência e de todas as marcas que fazem parte de mim.

Não sei se tem a ver com ficar mais velho, com atingir um ponto na sua vida em que você não quer mais fingir, se esconder, se fechar, não se permitir. Estou tão cansada de tentar interpretar alguém diferente de mim, porque soa falso e é extremamente exaustivo fingir pra si mesmo e pro mundo que você é alguém que não é.

Quero ser livre para viver de acordo com as minhas verdades e com tudo aquilo que faz sentido pra mim, seguindo o meu coração e não os meus medos, porque esse último já foi meu guia por muito tempo e não me fez mais feliz.

A ideia é encontrar e reconhecer cada uma dessas máscaras que criei para me proteger e, então, me libertar. É tentar não criar novas couraças e viver mais leve. É me jogar no mundo, mesmo com medo de me machucar. É ser eu mesma em cada salto no escuro, me despindo e me reencontrando em cada mergulho profundo pra dentro de mim.

Primeiro desafio de 2017

E então que, no finzinho de 2016, o Fuel ficou bem doente de uma hora pra outra. Fomos buscá-lo na minha sogra e o trouxemos para Campinas numa clínica veterinária que tem até UTI.

Fizeram alguns exames, também ultrassom, precisou de soro subcutâneo, vários medicamentos e, como perdeu sangue vivo e a contagem de plaquetas estava baixa, acharam melhor interná-lo. Foram duas noites no hospital, pudemos visitá-lo no sábado e o buscamos no domingo.

Na primeira madrugada de internação, acordei às 3 horas e não conseguia mais dormir, tinha receio que fossem ligar com uma má notícia. E eu sei que ficar acordada não impediria nada, não resolveria o problema, não o curaria de todos os males. Mas, eu não conseguia dormir. Sei que minha cabeça não ajuda, que me preocupo demais e antecipo um sofrimento que pode nem vir a chegar. Enquanto eu fico com o estômago apertado, mil pensamentos habitam a minha mente, descontroladamente.

Quando eu saio do momento presente e viajo para um futuro que só existe na minha imaginação fértil e dramática, eu sofro.

META PARA 2017 E PARA A VIDA: NÃO SOFRER PELO QUE NÃO EXISTE.

Mas agora, felizmente, ele já parece estar fora de perigo, será medicado em casa por mais trinta dias e fará exames de sangue semanais. Logo mais o levaremos de volta para minha sogra, lá ele tem espaço e uma companheirinha canina que está sentindo a falta dele.

O que me fez escrever sobre esses acontecimentos foi porque isso tudo me fez enxergar meus medos por uma outra perspectiva. Sempre pensei que meus medos me paralisassem e, até certo ponto, é isso mesmo. Dependendo da situação, não consigo agir. Mas, nem tudo o que me assusta me imobiliza.

Não vou dizer que quando vi aquele sangue todo não senti nada, pra ser honesta, eu senti enjoo. E não foi de nojo, foi o medo de perdê-lo. Mas, dessa vez, consegui fazer o que precisava ser feito, com o estômago embrulhado, com medo de sofrer por uma futura (talvez, possível) perda, mas não recuei nem paralisei.

E aí fiquei pensando, qual a diferença entre o medo que me faz recuar e o medo que me impele adiante? É a motivação por trás que os distingue? Quando envolve uma outra pessoa a minha tendência é agir? Não sei. Não sei mesmo.

Só sei que, nesse momento enquanto escrevo, ele está deitado no chão ao meu lado, dormindo. Então, me deito ao lado dele e ficamos assim, nesse aconchego que poderia durar horas sem que qualquer um de nós dois se cansasse; ele que adora um carinho, e eu que não me canso de acarinhá-lo.

A zona de conforto desconfortável

A zona de conforto desconfortável - doce cotidiano

Estou com mania de adiar. “Isso pode esperar pra quando eu voltar de viagem”, “é besteira resolver isso agora, o ano está quase acabando”, “ano que vem eu faço isso”. Vivo como se essa marcação de tempo realmente fosse importante, como se isso significasse algo. As datas são mera convenção, não é verdade?

Percebo que estou evitando sair da minha zona de conforto. Mesmo que esse “conforto” não esteja me fazendo tão bem, mesmo que eu saiba que está na hora de mudanças, eu adio. Por medo? Não sei, tenho tendência a me acomodar.

Já faz um bom tempo que eu e o Ciro falamos sobre mudar, sair do micro apartamento onde moramos e ir para uma casa. Mais espaço, quintal, um pouco de verde. Vira e mexe, entro em sites para procurar imóveis para locação, em Campinas e em Indaiatuba, pesquiso valores, separo vários links, visitamos várias casas e só.

No começo do ano, enquanto eu viajava, o Ciro encontrou a casa perfeita pra nós, do jeitinho que queríamos e num valor que poderíamos pagar. E eu surtei. Dei pra trás, desisti, amarelei … existem várias palavras para descrever o meu medo de sair do conhecido. E eu faço isso numa frequência maior do que gostaria de admitir.

Óbvio que não foi de todo ruim ficarmos no nosso antigo apê esse ano, facilitou a vida do Ciro já que ele trabalha perto de casa. Mas, percebo que estamos há tempo demais nesse conforto desconfortável.

Não temos espaço, pra nada. Só temos um banheiro e ele é minúsculo, nossa cozinha é tão pequena que preciso fazer malabarismos pra cozinhar e vivo me batendo nos móveis, a máquina de lavar fica quase encostada no fogão e isso me irrita, mal tenho espaço para chegar ao tanque, nossa sala e nosso quarto ficam atravancados de coisas, e por ser um espaço pequeno cheio de móveis, é difícil de limpar.

Foram muitos anos nesse apartamento, quase 5 anos sozinha e 4 anos e meio com o Ciro. Acho que já deu! Sinto que está na hora de mudar. Assim como acontece com as pessoas, cada lugar só dá o que tem pra dar, e esse apê cumpriu bem a sua função.

O que me pega de verdade não é o ato da mudança em si, com as caixas, o transporte e a organização; o que me dá um friozinho na barriga é a antecipação da preocupação com algo que não tenho como prever ou controlar. Fuel e Spock! Um cachorro que mora na minha sogra e o outro que mora nos meus pais. Tenho medo que eles não se deem bem, tenho medo de não saber como agir, tenho medo do desconhecido dessa futura relação.

Eu sei que estou perdendo tempo e energia pensando nisso, porque só saberei o que fazer quando algo acontecer e se acontecer. Essa masturbação mental ainda faz parte de mim e, mesmo com EFT ou com toda a racionalização possível, permito que esses pensamentos me assombrem.

Mas, ainda que eu crie situações para me manter onde estou, sinto que é hora de ir, mesmo com medo.