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O suicídio, o escrever e a permanência

O suicídio, o escrever e a permanência - doce cotidiano

Quando eu era adolescente, pensar em suicídio era algo recorrente. Eu me odiava tanto que eu não queria mais ser eu. Eu não me sentia pertencendo a esse corpo, a essa família e a essa vida. Mas, por mais vontade que eu tivesse de deixar de existir, duas coisas me ajudaram a continuar aqui.

A primeira foi porque eu não queria “repetir o ano”. A crença no espiritismo, na época, me fez desistir de me matar porque eu não queria sofrer no pós-morte, eu não queria voltar para aprender as mesmas lições que não tinha aprendido, eu só queria que o sofrimento acabasse.

A segunda, e mais importante, foi a escrita. Quando eu escrevia poesias meio sombrias eu me suicidava inúmeras vezes e, ao me matar no papel, a vontade de sumir diminuía um pouquinho.

Hoje, quando eu me recordo dessa fase e de todos os sentimentos que a envolveram, penso nos questionamentos que eu me fazia. Por que meu eu adolescente se odiava tanto? De onde vinha tanta culpa? Por que eu não me achava merecedora de amor? Nenhuma resposta que me dei, na época, pareceu ser satisfatória.

Eu tenho uma ideia do que estava por trás dos meus sentimentos, mas ainda não estou pronta para falar sobre isso publicamente porque existem algumas caixinhas internas que eu não abri, outras eu abri mas não quis olhar o conteúdo, e as que abri e olhei estou tentando me dar um tempo pra lidar com as coisas que consigo, uma de cada vez.

Depois de tanto tempo me dedicando ao autoconhecimento, os sentimentos daquela fase da minha vida mudaram, por isso ainda estou aqui. Mas, percebo que não foi bem uma mudança de sentimento, acredito que tenha sido uma nova maneira de enxergá-los.

Coisas que eram imensas há duas décadas atrás, hoje parecem pequenas. E acho que costuma ser assim, né? Certas questões perderam o peso depois que aprendi a lidar com elas, outras questões surgiram pedindo atenção e começou tudo outra vez, mas com um pouco mais de facilidade para lidar com meus monstros.

O suicídio deixou de ser um desejo há muito tempo e nunca mais voltou a me assombrar, nem nos piores momentos. Mas por um bom tempo foi um pedido de ajuda silencioso, porque eu não expressava essa vontade pra ninguém, não de forma clara, pelo menos. Não sei se alguém conseguia imaginar o que eu sentia e pensava, porque apesar da minha escrita reveladora, eu tinha muitos amigos e estava sempre sorrindo na escola. Já em casa, a situação era outra.

Felizmente, com o passar do tempo, adquiri muitas “ferramentas” que me ajudaram a lidar com tudo aquilo que me desestabilizava, com os sentimentos que me oprimiam e com as situações que me abalavam. Mas, e se não tivesse sido assim? E se eu não amasse a escrita? E se, na época, eu não acreditasse em umbral e reencarnação? Gosto de pensar que eu teria arranjado outros meios e outras desculpas para permanecer aqui.

Fui dormir com essa lembrança na cabeça, peguei o celular e anotei no meu bloco de notas para não esquecer. Não me recordo do que trouxe esse assunto à tona, mas não consegui parar de pensar nisso e, automaticamente, inúmeras questões se formaram em minha mente.

Quantas pessoas não gostam de si mesmas? Quantas se perguntam se vale a pena viver? Quantas estão procurando um meio de tirar a própria vida?

De onde vem o sentimento de não pertencimento e inadequação? De onde vem a falta de amor próprio? De onde vem a vontade que gera a ação? Porque existe um vão entre a vontade de se matar e o ato em si. O que constrói essa ponte e o que nos faz atravessá-la?

É algo espiritual? É algo emocional? É alguma reação química que acontece no nosso cérebro? O que nos faz “puxar o gatilho”?

Quantos pedidos de ajuda silenciosos nós não escutamos? Quantos sinais não percebemos? Quem tira a própria vida realmente quer morrer ou só quer parar de sentir/viver algo?

Eu só posso falar por mim. O que eu queria de verdade era parar de sentir o que eu sentia com tanta intensidade; acho que nunca quis morrer realmente, porque provavelmente eu teria arranjado um meio para isso. Sentir sempre foi algo bem difícil pra mim, difícil e exaustivo. Muitas vezes, ainda é. Por isso tenho meus períodos de introspecção e recolhimento como um meio de recarregar as baterias, que é quando eu me preparo para uma nova rodada de sentimentos intensos .

Ainda estou aprendendo a lidar comigo e com o meu lado mais sombrio e, às vezes, parece que esse é um aprendizado eterno. Mas, felizmente, existe a escrita. Escrever sempre foi meu melhor exercício, meu exorcismo, minha redenção, foi o que me manteve viva.

E você? Tem algo que seja a sua válvula de escape? Tem algo que te faça permanecer?

Sobre a escrita e a cura

Sobre a escrita e a cura - doce cotidiano

Sabe aqueles dias em que você precisa desabafar para organizar seus pensamentos e sentimentos?

Quando você sente que seu peito está oprimido e você não sabe se vai conseguir lidar com essa sensação?

Quando você está confuso e perdido e nada parece fazer sentido e você só queria sumir pra não ter que encarar o que está trancado dentro de você?

Quando você pensa que não vai mais suportar ser você e viver nessa angústia?

Para todas essas situações, terapia é sempre uma boa alternativa. Às vezes, tudo o que precisamos é da escuta de um profissional qualificado e em quem possamos confiar. Aliás, se você está se sentindo assim na maior parte do tempo, recomendo fortemente que procure ajuda.

Aliado a isso, uma das coisas que mais me ajudou no decorrer da minha vida, foi a escrita. Sei que já falei inúmeras vezes sobre o poder “curativo” do escrever, mas é porque comprovei por experiência própria o bem que esse simples ato proporciona.

Você não precisa se considerar um bom escritor, os erros de português não contam nessa atividade, você não será julgado ou avaliado; você só precisa de um papel e caneta (sim, papel e caneta; sou dessa geração e acho que os efeitos são melhores assim). E, mais importante de tudo, se permitir e ser honesto com você.

No início é meio difícil, você pode se sentir envergonhado por registrar sentimentos e pensamentos que você não gostaria de admitir que sente e pensa, você pode se sentir meio travado e não saber bem como fazer, mas o importante é começar.

Quanto mais você escrever, mais fácil fica. Dar “voz” aos sentimentos é como qualquer outro exercício, a gente precisa de prática. E, praticando, você conseguirá acessar, mais e mais, os cantos mais escondidos dentro de si.

Às vezes, o simples ato de reconhecer um sentimento e marcá-lo no papel já tem um efeito libertador e você pode sentir que um peso enorme foi tirado de cima do peito. Outras vezes, você precisará ler e reler o que foi escrito, se colocando como alguém de fora que está lendo a carta de um amigo querido que precisa de ajuda.

Você já percebeu como é muito mais fácil ser empático, ter compaixão e entender o problema quando é o dos outros? Quando é com a gente, podemos ser duros demais. Por isso, ao ler o que você escreveu, tente sair um pouco do seu papel e se transporte para o lugar desse Outro; já tive muitos insights assim. Algumas respostas e soluções ficam mais fáceis de serem vistas a certa distância.

Colocar seus sentimentos para fora, falando ou escrevendo, tem efeito de cura. Mas, pra mim, a escrita tem um benefício a mais, porque ela possibilita a leitura e releitura e você não precisa contar somente com a sua memória para relembrar o que foi “dito”.

Dê uma chance a essa atividade e depois me conta o que achou.

As pequenas bênçãos que não vemos

Outro dia encontrei uma lista que eu fiz há uns bons anos. Eu ainda trabalhava no banco, estava extremamente infeliz, deprimida e sem perspectivas. Nessa lista eu escrevi algumas ideias para continuar viva. Sim, escrevi exatamente assim: “ideias para continuar viva”! Eu sei, é muito drama, mas é como eu estava me sentindo na época.

Essas ideias eram pequenas coisas que eu gostaria de fazer no apartamento – ele é muito antigo e várias coisas me incomodavam -, como pintar o rejunte do banheiro, mudar a cor das paredes do apartamento, pintar a varanda que estava sem cor desde que eu me mudei, trocar o armário da pia da cozinha, instalar mais tomadas nas paredes, mudar as almofadas, comprar um suporte para colocar os sapatos ao chegar em casa … pequenas coisas para deixar o apartamento mais aconchegante.

Sabe o que eu percebi ao reler a lista? Que, no decorrer dos meses e anos, 100% de tudo o que queria estava feito e eu não tinha me dado conta.

Fiquei pensando, quantas vezes pedimos e sonhamos com algo e, ao conseguirmos, não percebemos que realizamos nossos desejos antigos.

Será que é ingratidão ou é só falta de atenção mesmo?

A gente se dá conta e agradece por todas as oportunidades, acontecimentos e felicidades? A gente percebe cada pequena bênção disfarçada? Há um ano eu escrevi sobre isso e, alguns meses depois, esqueci de tudo e voltei a viver no piloto automático.

Acho que está na hora de voltar com o antigo hábito de fazer um diário de gratidão. Antes de dormir, eu devo escrever pelo menos três coisas pelas quais sou grata no meu dia e, mesmo nos piores dias, vou perceber que ainda existe motivo para agradecer; nem que seja a comida na geladeira, um teto sobre a minha cabeça e uma cama confortável pra dormir.

Reencontrando o que me faz bem

Uau, já faz um bom tempo que não apareço por aqui.

Às vezes, a gente se perde um pouco da gente e não consegue se achar, né? E a gente pode se perder tanto que aquilo que seria óbvio fica um tanto nebuloso.

Eu, que escrevi uma monografia sobre a escrita como forma de cura terapêutica na Fonoaudiologia; Eu, que escrevo desde sempre pra ressignificar meus pensamentos e sentimentos; Eu, que passei a adolescência escrevendo quase como uma forma de sobrevivência … Sim, EU, eu me esqueci disso por um tempo e deixei de escrever.

Sei lá o que acontece com a gente que nos afasta de quem somos, do que é importante, do que faz sentido, do que toca o coração.

Parece que depois desse período de mergulho intenso em mim eu precisei de um novo ar. Subi pra tomar fôlego e me distraí com a nova vista. Perdi o foco, fiquei boiando e deixei a correnteza me levar pra onde ela quisesse. Abri os olhos e me vi meio perdida.

Estou assim nesse momento, tentando reconhecer algo dessa paisagem, tentando voltar pra casa, tentando voltar pra mim.

Voltei a meditar, ainda não tão regularmente quanto quero e preciso.

Voltei a escrever nos meus cadernos, mas não conseguia compartilhar nada com ninguém.

Sabe quando você sente que é a única pessoa que está pra trás? E eu sei que tem uma galera gigantesca que está nesse mesmo barco, sentindo que está afundando e sem saber o que fazer. Pulo do barco? Uso um balde pra tirar essa água toda que está entrando? Grito por socorro? Rezo por uma salvação externa?

Infelizmente, somos muitos. Ou, felizmente? Podemos juntar forças pra sairmos dessa juntos?

Eu fiquei um tempo sem querer dividir esse sentimento, talvez por não querer admitir que ainda me sinto assim, mesmo depois desse período maravilhoso fora do trabalho que eu odiava, mesmo depois das viagens e dos lugares incríveis que conheci, mesmo depois das experiências transformadoras que vivi, ainda não sei o que quero fazer.

Sei que nenhum passo dado é um desperdício, tudo o que fiz até agora está me levando pra um lugar. Eu ainda não sei que lugar é esse (e não estou falando de um lugar físico necessariamente), mas sei que se continuar caminhando e seguindo minha intuição, eu chego lá.

Por enquanto, vou voltar a fazer o que gosto e o que me salva, escrever.

Escrever pra tentar alinhar meus pensamentos, pra elaborar sentimentos, pra me lembrar do que gosto, pra estabilizar um pouco essa montanha russa interminável.