culpa

Me libertando da prisão

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A ideia de escrever e postar é uma forma de não me sentir sozinha com as minhas loucuras. Porque quando eu escrevo, eu as tiro um pouco de mim e, quando eu as compartilho, encontro outras pessoas que se identificam com o meu funcionamento por também funcionarem assim.

A exposição me deixa vulnerável às críticas, eu sei, mas isso já não é tão assustador quanto antes porque estou acostumada ao bombardeio interno. São décadas de autocrítica impiedosa e isso me faz perguntar, por que, quando se trata de nós mesmos, somos sempre tão rigorosos em julgar e punir? Descobri que ninguém pode me ferir tanto quanto eu mesma.

Você também faz isso consigo? Você se critica por cada pequeno erro? Se julga por cada ação desastrosa? Se culpa por cada mero deslize?

Já há um tempo estou trabalhando a culpa em mim, porque, sinceramente, ela não serve pra nada. Me arrepender por um erro cometido, pedir perdão e me perdoar e estar atenta para não errar o mesmo erro de novo, isso sim tem alguma serventia para o meu crescimento. Mas o sentimento de culpa, esse só me prende e castiga, ele me impede de tentar melhorar, ele me subjuga e me mantém num ciclo de dor e autopunição sem fim.

Fico aqui me perguntando de onde vem a necessidade desse castigo. Em que momento aprendemos que precisamos nos culpar por tudo e, ainda pior, por que entendemos a culpa como algo bom e necessário?

Sério, pensa comigo. Lembre de algo que você tenha feito e que foi considerado errado, por você e pela sociedade. Lembre da culpa que você sentiu. Sinta de novo esse sentimento e me diga o que ele traz a você. Ele te faz querer ser alguém melhor? Ele te move em direção ao autoperdão? Ele te mostra que você é um ser humano passível de erros e que só dá o melhor que você tem pra dar em cada situação? Ou ele só te põe pra baixo?

A culpa prolongada imobiliza e impede o crescimento, ela nos faz adoecer, mental e fisicamente. Quando tiver um tempinho, busque por SENTIMENTO DE CULPA na internet e veja a quantidade de textos discorrendo sobre o assunto e afirmando como esse sentimento nos é nocivo.

Então, mesmo sabendo de todo o mal que nos causa, por que ainda enveredamos por esse caminho? Que parte nossa busca essa prisão?

É necessário um exercício no espelho, olhando pra dentro de si e procurando a origem da sua busca pela perfeição e pelo controle. Porque o sentimento de culpa guarda uma relação estreita com a necessidade de controlar, com o perfeccionismo, com o nosso ego, mas não me sinto habilitada para discorrer sobre assunto aqui.

A culpa, ou é melhor dizer arrependimento, pode ser boa até o ponto que nos faz avaliar nossos pensamentos e ações, nesse sentido ela pode ser útil, mas quando se torna algo prolongado e que toma conta de nós, ela nos adoece.

A culpa nos prende.

O autoperdão nos liberta.

O suicídio, o escrever e a permanência

O suicídio, o escrever e a permanência - doce cotidiano

Quando eu era adolescente, pensar em suicídio era algo recorrente. Eu me odiava tanto que eu não queria mais ser eu. Eu não me sentia pertencendo a esse corpo, a essa família e a essa vida. Mas, por mais vontade que eu tivesse de deixar de existir, duas coisas me ajudaram a continuar aqui.

A primeira foi porque eu não queria “repetir o ano”. A crença no espiritismo, na época, me fez desistir de me matar porque eu não queria sofrer no pós-morte, eu não queria voltar para aprender as mesmas lições que não tinha aprendido, eu só queria que o sofrimento acabasse.

A segunda, e mais importante, foi a escrita. Quando eu escrevia poesias meio sombrias eu me suicidava inúmeras vezes e, ao me matar no papel, a vontade de sumir diminuía um pouquinho.

Hoje, quando eu me recordo dessa fase e de todos os sentimentos que a envolveram, penso nos questionamentos que eu me fazia. Por que meu eu adolescente se odiava tanto? De onde vinha tanta culpa? Por que eu não me achava merecedora de amor? Nenhuma resposta que me dei, na época, pareceu ser satisfatória.

Eu tenho uma ideia do que estava por trás dos meus sentimentos, mas ainda não estou pronta para falar sobre isso publicamente porque existem algumas caixinhas internas que eu não abri, outras eu abri mas não quis olhar o conteúdo, e as que abri e olhei estou tentando me dar um tempo pra lidar com as coisas que consigo, uma de cada vez.

Depois de tanto tempo me dedicando ao autoconhecimento, os sentimentos daquela fase da minha vida mudaram, por isso ainda estou aqui. Mas, percebo que não foi bem uma mudança de sentimento, acredito que tenha sido uma nova maneira de enxergá-los.

Coisas que eram imensas há duas décadas atrás, hoje parecem pequenas. E acho que costuma ser assim, né? Certas questões perderam o peso depois que aprendi a lidar com elas, outras questões surgiram pedindo atenção e começou tudo outra vez, mas com um pouco mais de facilidade para lidar com meus monstros.

O suicídio deixou de ser um desejo há muito tempo e nunca mais voltou a me assombrar, nem nos piores momentos. Mas por um bom tempo foi um pedido de ajuda silencioso, porque eu não expressava essa vontade pra ninguém, não de forma clara, pelo menos. Não sei se alguém conseguia imaginar o que eu sentia e pensava, porque apesar da minha escrita reveladora, eu tinha muitos amigos e estava sempre sorrindo na escola. Já em casa, a situação era outra.

Felizmente, com o passar do tempo, adquiri muitas “ferramentas” que me ajudaram a lidar com tudo aquilo que me desestabilizava, com os sentimentos que me oprimiam e com as situações que me abalavam. Mas, e se não tivesse sido assim? E se eu não amasse a escrita? E se, na época, eu não acreditasse em umbral e reencarnação? Gosto de pensar que eu teria arranjado outros meios e outras desculpas para permanecer aqui.

Fui dormir com essa lembrança na cabeça, peguei o celular e anotei no meu bloco de notas para não esquecer. Não me recordo do que trouxe esse assunto à tona, mas não consegui parar de pensar nisso e, automaticamente, inúmeras questões se formaram em minha mente.

Quantas pessoas não gostam de si mesmas? Quantas se perguntam se vale a pena viver? Quantas estão procurando um meio de tirar a própria vida?

De onde vem o sentimento de não pertencimento e inadequação? De onde vem a falta de amor próprio? De onde vem a vontade que gera a ação? Porque existe um vão entre a vontade de se matar e o ato em si. O que constrói essa ponte e o que nos faz atravessá-la?

É algo espiritual? É algo emocional? É alguma reação química que acontece no nosso cérebro? O que nos faz “puxar o gatilho”?

Quantos pedidos de ajuda silenciosos nós não escutamos? Quantos sinais não percebemos? Quem tira a própria vida realmente quer morrer ou só quer parar de sentir/viver algo?

Eu só posso falar por mim. O que eu queria de verdade era parar de sentir o que eu sentia com tanta intensidade; acho que nunca quis morrer realmente, porque provavelmente eu teria arranjado um meio para isso. Sentir sempre foi algo bem difícil pra mim, difícil e exaustivo. Muitas vezes, ainda é. Por isso tenho meus períodos de introspecção e recolhimento como um meio de recarregar as baterias, que é quando eu me preparo para uma nova rodada de sentimentos intensos .

Ainda estou aprendendo a lidar comigo e com o meu lado mais sombrio e, às vezes, parece que esse é um aprendizado eterno. Mas, felizmente, existe a escrita. Escrever sempre foi meu melhor exercício, meu exorcismo, minha redenção, foi o que me manteve viva.

E você? Tem algo que seja a sua válvula de escape? Tem algo que te faça permanecer?

Sobre iluminar as minhas sombras

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Estava em busca da minha raiva, esse sentimento poderoso que mora dentro de mim e que estava escondido.

Eu sempre senti raiva, de tudo! E a minha forma de lidar com ela era meio primitiva, o sentimento vinha e eu o colocava pra fora, sem filtros. Com o tempo, comecei a me sentir mal com isso porque eu magoava pessoas que eu amava, e a solução encontrada foi sufocar a raiva. Escondê-la, reprimi-la, ignorá-la.

Por um tempo, pareceu dar super certo. E eu realmente acreditei nisso. Via-me como alguém que não nutria mais esse sentimento tão perturbador, acho até que me sentia superior por não deixar que um sentimento de vibração tão baixa me dominasse. Eu racionalizava as situações que poderiam despertar o monstro e, depois, as ignorava.

Então, acontecimentos que normalmente despertariam a minha raiva começaram a me deixar triste e deprimida. Sem ação, sem reação, sem movimento algum. E isso começou a me incomodar muito mais do que as antigas explosões. Porque deixar de sentir por um tempo pode até ter um efeito calmante, mas, se isso persiste, fica muito claro que é só um processo de fuga. E eu não queria mais viver fugindo de mim.

Porque o problema nunca foi a raiva ou qualquer outro sentimento considerado negativo. A questão não é só o que eu sinto, mas sim, o que eu faço com isso. A raiva pode ser um ótimo combustível para coisas boas e bonitas.

Dizem que a raiva é a tristeza colocada em movimento, que onde existe raiva, provavelmente, existe uma tristeza profunda que não foi olhada. A tristeza, por sua vez, pode vir de um sentimento de raiva que não foi expresso. Pra mim, pra minha história, isso faz total sentido. Esses dois sentimentos sempre estiveram conectados.

Não existe nada de errado em sentir raiva e tristeza. O que eu quero aprender é a acolher todo sentimento que brota em mim, olhar pra ele, não negar ou esconder sua existência. Quero entender de onde eles vêm e os seus porquês.

Percebo que toda vez que fico triste ou sinto raiva é porque estou “brigando internamente” com a realidade. Isso não quer dizer que devo simplesmente me conformar e aceitar as coisas como são; não agir quando sinto que preciso agir, não dizer quando sinto que preciso dizer. Mas, certas coisas são como são, não estão no meu controle e não há muito o que eu possa fazer. A única situação que tenho algum poder pra mudar é a minha. E isso já é difícil pra caramba.

Convivo comigo há quase 39 anos e ainda não me decifrei. Ainda estou aprendendo os porquês de fazer as coisas que faço, do jeito que faço, muitas vezes de forma destrutiva. Os porquês de repetir antigos comportamentos, seguindo velhões padrões comprovadamente catastróficos. Porque, tantas vezes, escolho a dor e não o amor, mesmo que faça isso inconscientemente naquele momento.

Meu momento agora é de união. Juntar esses muitos pedaços perdidos e renegados, todos os sentimentos que fazem e já fizeram parte de mim, acolhê-los, aceitá-los e assumir a minha responsabilidade em cada ação e em cada falta de ação, e fazer isso com amor. Abraçar a raiva que permiti, finalmente, que saísse de seu esconderijo; acolher a tristeza, a culpa e a vergonha que me fizeram companhia por tanto tempo; aceitar o medo constante que só tentava me proteger e, então, usar a luz que me habita para iluminar minhas sombras, todas elas e, um dia, conseguir amar cada pedacinho de mim.

Essa é minha missão. Ser quem eu vim pra ser. Inteira!