Me fazendo de vítima

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“Fingimos ser frágeis e coitados para que o outro faça tudo do jeito que queremos, ou para nos eximirmos da responsabilidade de buscar a própria felicidade. Estando no papel de masoquista, nos colocamos como vítimas indefesas da maldade do outro, sem assumir responsabilidade pela nossa própria miséria.” AMAR E SER LIVRE, Sri Prem Baba

Ah, a vítima! Esse papel é tão familiar. Não é uma posição da qual eu me orgulhe, mas é algo que fez parte de mim por muito tempo e, de vez em quando, ainda faz. Esse foi o meu modo de agir, sempre esperando que os outros resolvessem as minhas questões e entregando a responsabilidade da minha vida nas mãos de terceiros.

A vítima surgia, principalmente, dentro do meu núcleo familiar. Percebo que entrei nesse papel de ser incapaz e frágil, acho que querendo ser protegida. Não sei dizer quando isso começou, mas sei que é um processo antigo. A minha rebeldia adolescente foi isso, uma maneira desesperada de buscar atenção; e eu conseguia, mesmo que fosse de forma negativa.

Entenda que, pra mim, nada disso aconteceu de forma consciente. Eu não ficava maquinando como agir e o que fazer, eu simplesmente fazia.

Depois desses anos olhando pra mim e me conhecendo um pouco mais, depois de ter iluminado algumas das minhas sombras e de ter desenterrado alguns traumas e bloqueios passados, consigo ver que a criança que eu fui tinha um sentimento muito forte de não pertencimento.

Todos nós, em algum momento da vida – e não importa se recebemos amor e se tivemos uma infância mágica – passamos por situações desafiadoras e interpretamos esses fatos de uma maneira bem individual, baseados nas nossas experiências passadas, no nosso grau de sensibilidade, nas nossas crenças, na forma como enxergamos o mundo e a nós mesmos.

Tenho quatro irmãos, fomos criados pelos mesmos pais, com as mesmas regras e hábitos (principalmente os três filhos mais velhos, grupo do qual faço parte) e somos completamente diferentes. Entendemos as coisas e acontecimentos de maneiras diversas, temos lembranças e sentimentos diferentes com relação a um mesmo acontecimento, nossos temperamentos não são iguais, nossa forma de encarar a vida também é individual. Isso, possivelmente, reflete que cada um sente as coisas de um jeito; algo que foi tranquilo pra um, pode ter sido um evento traumático pra outro.

Hoje revisito esse lugar para entender meus comportamentos atuais e me sinto um pouco mais próxima de acolher e ressignificar minhas atitudes antigas. Porque é apenas isso que posso fazer com o meu passado; olhá-lo e ressignificá-lo.

Isso não quer dizer que nunca mais viverei esse papel de vítima, não quer dizer que nunca mais cometerei erros e que tudo será diferente daqui pra frente. Eu ainda estou aprendendo e o aprendizado continua pela vida afora com ensinamentos diferentes à medida que “passamos de ano”, e é uma jornada que nunca acaba. Eu só estou um pouco mais atenta a alguns aspectos do meu comportamento, reconhecendo a minha responsabilidade em todas as minhas escolhas e suas consequências.

Às vezes, é dolorido. Nem sempre estou disposta a reconhecer certas partes como minhas.

Porque quando a vítima surge, eu quero me entregar a ela porque parece ser mais fácil seguir por esse caminho; a autorresponsabilidade me faz entrar em contato com as sombras que mantive intocadas dentro de mim e nem sempre estou pronta para abraçar os meus monstros. Às vezes, só quero voltar a ser protegida, e tenho vontade de entregar toda essa responsabilidade nas mãos de alguém e esperar que esse outro me faça feliz e supra todas as minhas necessidades. Mesmo sabendo que é impossível ser feliz assim, tem dias que só gostaria de voltar a adormecer. Porque dói, tem dias que dói muito.

Mas, com dor ou sem dor, viver na realidade ainda é muito mais interessante do que viver na ilusão criada por nossas máscaras.

Por isso, quando percebo e reconheço esse papel que interpretei por tanto tempo, aceito que fiz o que sabia fazer e que dei o melhor que tinha pra dar na época. E não é o que todos fazemos? Nós damos o que temos pra dar. E está tudo bem!

E então, ao adquirirmos mais consciência sobre nós mesmos, ao percebermos as nossas ações frente às variadas situações, ao entrarmos em contato com nossos sentimentos, com as nossas sombras e com o que mantivemos escondido, chega o momento de assumirmos a responsabilidade por nossos sentimentos, escolhas e atitudes. E, mesmo que isso pareça um pouco assustador a princípio, se entender como o único responsável por sua vida e por sua felicidade, pode ser libertador.