Tirando algumas máscaras

Porque eu quero poder ser quem eu sou, eu preciso tirar algumas máscaras, tanto as físicas quanto as emocionais.

Quando eu me exponho aqui nesse espaço estou me mostrando vulnerável e sei que posso me magoar com os comentários e atitudes advindos dessa exposição. Aliás, esse foi um dos motivos que me fez parar de escrever por um tempo; o medo. Mas esse também foi um dos motivos que me fez voltar a escrever; eu estava cansada de fugir do que eu queria fazer e eu sabia que precisava enfrentar meu monstros e seguir em frente.

Estou nessa fase de tentar me livrar de tudo aquilo que me esconde e estou gostando muito disso.

Há algumas semanas atrás teve uma confraternização do trabalho do Ciro, num dia de muito sol, com tempo quente e abafado. Durante os onze anos de trabalho no banco eu nunca entrei na piscina em nenhuma dessas festas de fim de ano. Só alguns homens, as crianças e pouquíssimas “corajosas” mulheres (coisa muito rara) se refrescavam. Esse ano eu decidi dar um basta nesse meu comportamento castrador e me joguei.

Pode parecer algo bobo, eu sei, mas se você é mulher e em algum momento já sentiu receio de mostrar seu corpo, se você se escondeu e ainda se esconde e prefere ficar suando a se expor, talvez entenda a libertação que foi quando desfilei minhas celulites e flacidez. E mesmo me lembrando de todas as vezes em que não me permiti essa simples diversão de me refrescar num dia quente, não me culpei.

Não sei o que pensaram a meu respeito, não sei se julgaram meu corpo e, honestamente, estava pouco me lixando pra isso. Finalmente, um pouquinho da liberdade que eu tanto almejava pareceu surgir quando eu fiz o que eu estava com vontade, pensando somente em mim e no que eu queria fazer.

Outra máscara que comecei a retirar há um tempinho, foi a maquiagem; artifício que eu usava como um meio de proteção quando eu queria esconder minhas imperfeições de pele e que me dava uma falsa sensação de segurança pra botar minha cara no mundo. Essa função da maquiagem eu não quero mais “vestir”. Quando eu usar, e se eu usar, não será mais para me esconder, porque eu não quero mais sentir vergonha da minha aparência e de todas as marcas que fazem parte de mim.

Não sei se tem a ver com ficar mais velho, com atingir um ponto na sua vida em que você não quer mais fingir, se esconder, se fechar, não se permitir. Estou tão cansada de tentar interpretar alguém diferente de mim, porque soa falso e é extremamente exaustivo fingir pra si mesmo e pro mundo que você é alguém que não é.

Quero ser livre para viver de acordo com as minhas verdades e com tudo aquilo que faz sentido pra mim, seguindo o meu coração e não os meus medos, porque esse último já foi meu guia por muito tempo e não me fez mais feliz.

A ideia é encontrar e reconhecer cada uma dessas máscaras que criei para me proteger e, então, me libertar. É tentar não criar novas couraças e viver mais leve. É me jogar no mundo, mesmo com medo de me machucar. É ser eu mesma em cada salto no escuro, me despindo e me reencontrando em cada mergulho profundo pra dentro de mim.

Para onde estou indo?

“Quando você anda de carro à noite, o farol do carro não ilumina o caminho inteiro – por que você faz questão de saber de absolutamente tudo o que vai acontecer? Simplesmente faça o seu melhor hoje e sempre e nunca se esqueça de consultar seu coração em cada bifurcação do caminho.”

Lendo um dos textos da Flávia Melissa no Instagram, senti esse parágrafo “conversar” comigo. Eu já tinha lido algo semelhante que a Paula Abreu escreveu sobre não precisarmos saber, com certeza, aonde nossos passos irão nos levar, mas que o importante é começar a caminhar, e isso fez ainda mais sentido para o meu momento presente.

Tenho uma tendência muito forte a viver, por longos períodos, de maneira letárgica. Não faço nada, não produzo nada, enrolo o máximo possível. Então, quando acordo desse marasmo, fico elétrica e quero tudo pra ontem. Fico angustiada por estar andando no escuro e porque minha visão só alcança uns poucos metros adiante. Pra onde estou indo?

Às vezes, e só às vezes, eu gostaria de saber de antemão os resultados esperados para cada ação, mais ou menos assim: “se eu fizer um conjunto de coisas, por tantas horas e por determinado período de tempo, poderei esperar um resultado X.” Dessa forma eu não perderia tempo e não teria que enfrentar surpresas negativas.

Ok, eu sei que se as coisas funcionassem assim não teria graça, afinal, quando viveríamos os desafios que nos trazem oportunidades de crescimento pessoal? Quando aprenderíamos a lidar com as frustrações e decepções? E aprender a lidar com esses sentimentos considerados negativos é o que nos deixa fortes e resilientes.

É que tenho a sensação de estar perdendo tempo. Não é sempre que me sinto assim, mas acontece numa frequência maior do que gosto de experenciar. Parece que estou no caminho errado, fazendo a coisa errada. Mas então, me recordo da Byron Katie e seu livro Ame a Realidade e desencano um pouco.

Talvez essa dúvida toda faça sentido lá na frente, talvez eu não saiba as respostas porque ainda não é o momento de saber. Talvez, um dia, eu consiga ser ainda mais grata por todo esse turbilhão de sentimentos, todas essas dúvidas e receios, porque eu entenderei que foram eles que me levaram até lá e me transformaram na pessoa que serei.

Comunicação Não-Violenta

Por não acreditar na violência como forma de resolver as coisas e por nunca ter me envolvido em brigas com agressão física, eu não me considerava uma pessoa violenta, até enxergar a violência dentro de mim.

Ela se expressa, na maioria das vezes, através da fala; quando quero impor minhas verdades e quando discordo de alguém meus argumentos são expressos de uma forma agressiva – 99% das vezes faço isso com as pessoas mais próximas e a quem mais amo. Percebi isso há uns meses atrás. Eu já sabia que me comunicava assim, mas acho que não tinha me escutado de verdade até então. Não foi legal descobrir que guardo isso dentro de mim; não foi legal, mas foi.

Foi bom porque consegui enxergar meu comportamento agressivo no segundo seguinte à minha fala, pude me desculpar e entender que ainda tenho muito a aprender.

Minha irmã me emprestou o livro Comunicação Não-Violenta, do Marshall B. Rosenberg, e já nas primeiras páginas pude ver o quanto eu precisava disso e não sabia. Percebi que, desde pequena, a minha violência só era expressa através das palavras, talvez por eu achar que já que não estava batendo em ninguém, estava tudo bem. E sabemos que não é bem assim, não é verdade? Palavras machucam e também causam danos, muitas vezes até mais extensos e duradouros do que a ferida física.

E por muito tempo e por tempo demais, essa foi uma das minhas maiores capacidades: destruir através da palavra. Meu discurso violento sempre foi minha autodefesa, e eu me defendia atacando. Fiz isso “muito bem”, até me dar conta de que estava me destruindo também, até perceber que eu recebia a mesma mágoa que eu destilava, até enxergar a violência que me habitava e eu desconhecia.

No prefácio do livro Comunicação Não-Violenta, Arun Gandhi – neto de Gandhi -, escreveu alguns parágrafos que mexeram muito comigo e me fizeram enxergar a violência com outros olhos. Vou compartilhar algumas palavras que me ajudaram a refletir.

“Uma das muitas coisas que aprendi com meu avô foi a compreender a profundidade e a amplitude da não-violência e a reconhecer que somos todos violentos e precisamos efetuar uma mudança qualitativa em nossas atitudes. Com frequência, não reconhecemos nossa violência porque somos ignorantes a respeito dela. Presumimos que não somos violentos porque nossa visão da violência é aquela de brigar, matar, espancar e guerrear – o tipo de coisa que os indivíduos comuns não fazem.”

Era justamente o que eu pensava; eu não batia nos meus irmãos, eu não agredia ninguém fisicamente, então, eu não era uma pessoa violenta.

Você consegue admitir pra si mesmo que você pratica a violência, mesmo que não seja de forma física? É difícil, né?

Porque existem duas formas de violência, a ativa e a passiva. Na ativa eu emprego a força física, a agressão; na passiva, o sofrimento causado é mais de natureza emocional. Arun Gandhi diz que a violência passiva é mais insidiosa do que a física, porque ela gera raiva na vítima, e essa vítima acaba por responder violentamente à agressão. É um ciclo de violência e dor sem fim, porque, como ele disse, “é a violência passiva que alimenta a fornalha da violência física.”

Meu aprendizado tem sido na minha forma de me comunicar, especialmente quando estou cansada ou estressada e quando estou conversando sobre um assunto que me desestabiliza ou me comove. São nessas situações que preciso ficar ainda mais atenta. Pra mim, a não-violência é um exercício quase diário.

Atualização do diário alimentar

Em setembro do ano passado eu anotei tudo o que eu comi. Fiz um diário bem atento e não deixei nada de fora. A ideia era reduzir, ao máximo, a ingestão de glúten, de açúcar e de alimentos industrializados e super processados.

Pois bem, fiz isso e minha saúde agradeceu.

Mas parei de anotar e, ao fazer isso, acho que deixei de prestar tanta atenção ao que eu consumia. Comi mais glúten e mais açúcar e, como resultado, as alergias na pele voltaram. Honestamente, não tem como eu provar essa associação de uma forma segura, mas acho que as respostas que o meu corpo me dá precisam ser levadas em consideração.

Por que será que quando anoto, eu me alimento melhor? É por não querer admitir, nem pro meu bloco de notas, que vou comer coisas que sei que me fazem mal e por isso não as como? É por que fico mais consciente? É claro que não tem como ficar anotando tudo o que eu como para o resto da vida e eu nem quero fazer isso. Mas percebi que o ato de escutar os meus desejos é o que faz a diferença, porque quando presto atenção neles posso me questionar de onde vem a vontade de fazer algo que sei que me causará mal.

O meu corpo responde tão rapidamente que, em poucos minutos, já estou com vários sintomas decorrentes das minhas escolhas. Eu começo a passar mal enquanto eu ainda estou comendo (sério, é quase tão rápido assim) e sempre achei que isso fosse um incômodo, mas hoje eu entendo como uma coisa boa, porque meu corpo está se comunicando comigo o tempo todo e eu comecei a escutar. Nem sempre eu dou o que ele precisa e pede, confesso, mas estou aprendendo.

Não vou dizer que nunca mais comerei os alimentos que meu corpo recusa, sinceramente não posso me prometer algo que não me vejo cumprindo. Mas acho que dá pra reduzir, e muito, a ingestão deles.

Com toda essa mudança alimentar aqui em casa, ficou mais fácil percebermos os sinais que nossa saúde nos dá. Acredito que exista uma inteligência no nosso corpo que independe da nossa consciência. Vou tentar me explicar.

O Ciro disse que eu o estraguei desde que começamos a morar juntos há uns quatro anos atrás. Antes ele podia comer e beber o que fosse que não sentia nada, agora, quando ingere alimentos muito gordurosos ele passa mal quase instantaneamente. Acho que o nosso corpo se acostuma com o que é mais saudável e ele pede por isso, quando o forçamos a digerir algumas “bombas” ele reclama.

Se você passar uma semana se alimentando bem, sem frituras, açúcar, alimentos processados, glúten, carnes, leite e derivados, apenas comendo de forma mais natural possível e ingerindo água em boa quantidade, notará que se sentirá mais leve, mais limpo. Não é um período prolongado, então acho que não será tão desesperador fazer esse teste. De vez em quando eu gosto de fazer isso eliminando o glúten, o açúcar e os industrializados, eu desincho que é uma beleza e as alergias somem.

Mas, sendo muito honesta aqui, não sei se um dia serei aquele tipo de pessoa que só se alimenta de forma 100% saudável, batatas fritas são irrecusáveis pra mim. Mas eu busco aquele ponto do meio, o meu equilíbrio, que é só meu e tão pessoal, assim como o seu é só seu.

O desejado é muito relativo, assim como a proporção peso x saúde, não existe uma receita única e exclusivamente correta que funcionará pra todos. Você pode experimentar e testar até descobrir o que é melhor pra você, porque o seu corpo já sabe as quantidades e os alimentos que precisa, basta aprender a ouvi-lo.

É fácil? Não necessariamente. Mas é uma escolha diária que tem me trazido vários benefícios.

Quando quero mudar o mundo

Quando quero mudar o mundo - doce cotidiano

Por muito tempo, talvez por arrogância ou inocência, achei que poderia mudar o mundo. E, por não ser bem sucedida nessa empreitada, me senti fracassada, desanimada, desesperançosa.

Uma mudança de foco já teria sido suficiente pra amenizar esse peso da busca pelo impossível. Porque, na verdade, eu posso sim ajudar a mudar o mundo, e eu faço isso quando eu mudo a mim.

Mudar a si mesmo já é algo bem difícil; requer vontade, paciência e autocompaixão. Tentar mudar o outro, não só é impossível como gerará frustração, além de ser algo bem egoísta. Nessa tentativa fica subentendido que eu sei o que é melhor, que eu sei o que é certo, que a minha visão de mundo é a correta e que o outro deve viver de acordo com as minhas regras e verdades.

E por que eu estou escrevendo sobre isso? Porque eu sou essa pessoa que se acha dona da razão e da verdade, porque eu sou a pessoa que quer convencer os outros do que é certo, porque eu sou a “cagadora de regras”. Hipocrisia total, certo? Porque eu mesma vivo mudando de ideias, meus conceitos de certo e errado já mudaram muito com o tempo e acho que mudarão ainda mais enquanto eu viver. Se, na maior parte do tempo, eu não sei o que é realmente bom pra mim, se ainda estou aprendendo a me conhecer, se não sei quais são os meus limites e quais devo ultrapassar, como posso querer saber o que é melhor para o outro e como posso ditar o jeito que ele deveria agir?

Eu, que sempre me achei tão flexível e aberta, reconheci uma rigidez em mim que eu não sabia que existia. Mas, beleza, vivendo e aprendendo. Dizem que o primeiro passo para a mudança é reconhecer que você é/tem aquilo que você quer mudar. Reconheço minha rigidez, minha arrogância e prepotência, aceito que essas características fizeram parte de mim por um bom tempo e tiveram sua serventia, entendo que ainda tenho um caminho pela frente e que essa jornada nunca acaba e agradeço por, finalmente, ter aberto meus olhos para enxergar isso em mim.

Aprendi que a minha contribuição para um mundo melhor vem por meio da minha mudança interna, afinal, a gente só consegue dar aquilo que a gente tem. Como disse Sri Prem Baba:

”Muitos querem contribuir para a paz da Terra, mas não sabem como encontrar a paz dentro da própria família. Então, enquanto não há o que oferecer, não caia na armadilha de querer salvar o mundo, trate de salvar a si mesmo. Trate de olhar para a injustiça que te habita. Olhe para a violência, para o desrespeito e para a dor que te habitam. Esse é o primeiro e mais importante passo para iluminar este mundo.”