Me libertando da prisão

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A ideia de escrever e postar é uma forma de não me sentir sozinha com as minhas loucuras. Porque quando eu escrevo, eu as tiro um pouco de mim e, quando eu as compartilho, encontro outras pessoas que se identificam com o meu funcionamento por também funcionarem assim.

A exposição me deixa vulnerável às críticas, eu sei, mas isso já não é tão assustador quanto antes porque estou acostumada ao bombardeio interno. São décadas de autocrítica impiedosa e isso me faz perguntar, por que, quando se trata de nós mesmos, somos sempre tão rigorosos em julgar e punir? Descobri que ninguém pode me ferir tanto quanto eu mesma.

Você também faz isso consigo? Você se critica por cada pequeno erro? Se julga por cada ação desastrosa? Se culpa por cada mero deslize?

Já há um tempo estou trabalhando a culpa em mim, porque, sinceramente, ela não serve pra nada. Me arrepender por um erro cometido, pedir perdão e me perdoar e estar atenta para não errar o mesmo erro de novo, isso sim tem alguma serventia para o meu crescimento. Mas o sentimento de culpa, esse só me prende e castiga, ele me impede de tentar melhorar, ele me subjuga e me mantém num ciclo de dor e autopunição sem fim.

Fico aqui me perguntando de onde vem a necessidade desse castigo. Em que momento aprendemos que precisamos nos culpar por tudo e, ainda pior, por que entendemos a culpa como algo bom e necessário?

Sério, pensa comigo. Lembre de algo que você tenha feito e que foi considerado errado, por você e pela sociedade. Lembre da culpa que você sentiu. Sinta de novo esse sentimento e me diga o que ele traz a você. Ele te faz querer ser alguém melhor? Ele te move em direção ao autoperdão? Ele te mostra que você é um ser humano passível de erros e que só dá o melhor que você tem pra dar em cada situação? Ou ele só te põe pra baixo?

A culpa prolongada imobiliza e impede o crescimento, ela nos faz adoecer, mental e fisicamente. Quando tiver um tempinho, busque por SENTIMENTO DE CULPA na internet e veja a quantidade de textos discorrendo sobre o assunto e afirmando como esse sentimento nos é nocivo.

Então, mesmo sabendo de todo o mal que nos causa, por que ainda enveredamos por esse caminho? Que parte nossa busca essa prisão?

É necessário um exercício no espelho, olhando pra dentro de si e procurando a origem da sua busca pela perfeição e pelo controle. Porque o sentimento de culpa guarda uma relação estreita com a necessidade de controlar, com o perfeccionismo, com o nosso ego, mas não me sinto habilitada para discorrer sobre assunto aqui.

A culpa, ou é melhor dizer arrependimento, pode ser boa até o ponto que nos faz avaliar nossos pensamentos e ações, nesse sentido ela pode ser útil, mas quando se torna algo prolongado e que toma conta de nós, ela nos adoece.

A culpa nos prende.

O autoperdão nos liberta.

Os cheiros, as lembranças e a saudade da vó

Eu tenho um tanto de focinho de cachorro quando se trata do meu nariz e, fora esse faro tão característico, somado a isso vem a minha memória olfativa.

Certos cheiros me levam de volta a vários lugares do meu passado, me fazendo lembrar de situações, pessoas e eventos, trazendo sentimentos, imagens e recordações esquecidas.

Com um aroma posso lembrar de alguém, da roupa que essa pessoa estava usando quando eu senti esse cheiro, do que eu senti ao abraçá-la, da conversa que tivemos e por aí vai.

Hoje, em meio a diversão de testar receitas veganas que peguei na internet, um dos processos trouxe um cheiro forte de saudade. Foi a primeira vez que lidei com fermento biológico seco e, ao fazer a “esponja” para incorporar à farinha, senti o cheirinho que sentia na minha infância quando via minha avó fazendo pães, massas e todas as coisas maravilhosas que só ela sabia fazer.

Um simples aroma me fez viajar no tempo, me levando de volta à cozinha da casa onde morei no bairro Alto do Mandaqui, em São Paulo, quando criança.

Minha avó tinha vários dons, mas dois deles foram os mais marcantes pra mim: seu dedo verde (tudo o que ela tocava florescia) e sua mão para cozinhar. De todas as coisas mais gostosas que já experimentei, a grande maioria foi feita por ela.

Nas pequenas coisas do dia a dia as melhores lembranças são construídas e muitas vezes não nos damos conta, e então, décadas se passam e um pequeno acontecimento traz tudo à memória outra vez.

Os cheiros são muito importantes pra mim, eles contam uma história.

Tentando deixar a rigidez de lado

Estava aqui pensando no quanto tenho de rigidez dentro de mim, no quanto posso ser inflexível com os meus pensamentos e na minha forma de encarar a vida, no quanto tento impor minha verdade para o meu parceiro, principalmente, e na minha dificuldade de não julgar/respeitar a verdade do outro.

Admitir pra mim mesma essas características das quais não me orgulho faz parte da minha jornada de autoconhecimento. Reconhecer as minhas imperfeições, que são tantas, e tentar lidar com elas da melhor forma possível tem sido um belo desafio.

Cada um tem suas crenças ou a falta delas, e cada um vive de acordo com o que acha certo ou de acordo com o que os outros acham certo e, baseado nisso, fazem suas escolhas.

As minhas crenças foram mudando com o tempo, mas certas coisas permaneceram imutáveis em mim.

Eu acredito que exista muito mais do que podemos ver e compreender, neste e em outros mundos. Acredito que o Universo é grande demais para que nos coloquemos como o centro dele, como sendo a única forma de vida inteligente que nele habita.

Acredito que a morte terrena seja só uma passagem e que esse ciclo de vida neste plano é só uma pequena parte de tudo o que já vivi e ainda vou viver.

Acredito que estamos todos interligados energeticamente – seres humanos, animais e natureza – e que o mal feito a um afeta a todos.

Acredito que encarnei aqui como parte do meu processo evolutivo espiritual e que esse ciclo ainda se repetirá incontáveis vezes, neste ou em outro planeta.

Acredito na ação e na reação, mesmo que a reação não seja imediata.

Acredito na luz e na sombra, no bem e no mal, e que são as minhas atitudes, pensamentos e escolhas que me levarão para perto de um ou de outro. Mas sei que ambos fazem parte de mim.

Acredito que o mal pode ser contagioso, assim como o bem também é. Eu realmente acredito que gentileza gera gentileza.

Acredito na natureza. Na sua beleza, no seu poder de regeneração e cura, na sua energia pura e na sua sabedoria infinita.

Acredito no Amor, mesmo que eu ainda não saiba amar.

Essas são algumas de minhas crenças e de acordo com elas tento viver a minha verdade.

Tenho me questionado bastante ultimamente. Esse olhar atento é uma vigília às minhas atitudes e pensamentos e me faz perceber que os aprendizados são diários e que escorrego vezes sem fim.

Me percebo como um bebê aprendendo a andar, tentando se levantar, caindo, perdendo o equilíbrio, engatinhando e persistindo. Eu levanto, caminho um pouco, me desequilibro e caio, levanto de novo, caminho mais um pouco e lá vou eu pro chão outra vez.

Acho que isso faz parte do crescimento, né? Tudo o que está vivo passa por um processo evolutivo e tudo muda com o tempo, mesmo aquelas pessoas que dizem não mudar nunca.

Então o que me resta é me tornar o mais maleável possível para não quebrar sob fortes vendavais e tempestades. Meu corpo sempre teve a sua maleabilidade inata, meu desafio maior é com a minha mente.

Mudar: morrer e renascer dentro de mim!

Mudar: morrer e renascer dentro de mim! - doce cotidiano

Estava aqui pensando no tanto de mudanças que podem acontecer num curto espaço de tempo e no quanto nossas vidas podem mudar a partir de pequenas escolhas e atitudes diferentes das de antes.

Há seis meses atrás eu estava morando em Campinas, no centro cinza da cidade, num apartamento já pequeno para nós dois, sofrendo horrores no calor, tanto dentro quanto fora de casa. Eu não tinha muita vontade de sair caminhando por aí e minhas saídas se restringiam a alguma atividade específica, como fazer compras ou ir à consultas médicas.

Eu desejava ser voluntária num asilo, mas o fato de ser distante de casa e precisar pegar duas conduções me desanimava muito, então eu não fazia nada. Meus planos só ficavam no campo mental. Nada de ação!

As pessoas que eu conhecia na cidade eram ex colegas de trabalho e funcionários dos comércios que eu frequentava.

Eu passava a maior parte do tempo sozinha entocada no apartamento e achava que estava tudo bem em ser assim.

E então, enquanto eu visitava meus irmãos na Estônia no começo do ano, soube que mudaria pra Curitiba e tudo aconteceu enquanto eu ainda estava lá. Quando voltei pro Brasil, percebi que a realidade que eu havia vivido nos últimos anos não mais existiria. Meu apartamento já não era mais meu e meus objetos estavam morando em caixas na casa do meus pais, aguardando a minha chegada.

Essa mudança foi muito mais do que uma mudança de estado/cidade porque algo aconteceu dentro de mim. Uma parte minha que estava adormecida, despertou.

Meu novo apartamento, extremamente gelado, me fez sair de casa e, ao sair caminhando sem rumo pelo bairro, fui encontrando um novo caminho.

Descobri um asilo na rua de baixo de casa e vou lá duas vezes por semana.

Outros dois dias da semana eu vou num Centro Espírita que também não é muito distante do meu apartamento. Aproveito minha disposição pra caminhar e vou a pé. Além das pessoas incríveis que encontrei e que me receberam tão bem, o reencontro com a doutrina está me fazendo olhar pra mim e para as minhas atitudes com um pouco mais de atenção.

É engraçado pensar que fui encontrar meu lar tão longe de casa!

Não sei o dia de amanhã, ninguém sabe não é mesmo, por isso não posso afirmar quanto tempo ainda ficaremos por aqui. Mas enquanto aqui estou, vou formando meu lar com antigos e novos afetos, para poder carregar comigo bem dentro de mim para onde eu for, no lugar onde tudo mora, onde tudo vive, onde tudo cresce, morre e renasce, quantas vezes preciso for.

Os desejos que se realizam e o saber pedir

Os últimos acontecimentos me mostraram duas coisas muito importantes:

1. Desejos se realizam

2. Você precisa ser claro ao desejar hahaha

Essa mudança pra Curitiba tem sido um aprendizado constante e, se eu me permitir perceber as pequenas e grandes coisas e não focar somente nos desafios que eu ainda chamo de problemas (mas estou tentando mudar e encarar o desafio pelo o que ele é: uma oportunidade de crescimento), perceberei que quase tudo o que eu havia desejado por anos e anos se realizou.

Eu sempre gostei do frio, o calor me deixava irritada e alérgica.

Eu queria morar num bairro bem verde e cheio de árvores, porque o centro de Campinas era bem cinza.

Eu queria, um dia, poder morar no sul.

Eu queria morar num lugar onde eu me sentisse em casa ao andar nas ruas.

Eu queria poder fazer minhas compras a pé.

Eu queria uma cozinha maior, um banheiro maior e mais claro, mais um quarto em casa, uma sacada e uma vista.

Eu sempre quis morar num lugar em que a temperatura me permitisse usar aqueles cobertores fofos no sofá.

Cada um desses desejos se realizou, sem exceção.

Mas quando os probleminhas começaram a surgir nesse apartamento eu meio que me esqueci de que estava vivendo a realização de um sonho.

Eu queria morar numa cidade fria, não num apartamento frio. Não bate sol e, por ser antigo, não tem aquecimento a gás. A água é super gelada e o chuveiro não aquece o suficiente por ser 110V (coisa de prédio velho demais). Às vezes, é mais frio dentro do que fora de casa.

Não pudemos contratar a empresa de internet que queríamos porque a fiação não passava pelos dutos que são estreitos demais.

Problemas de estrutura, problemas com as esquadrias, problemas de vazamentos, problemas com vaga de garagem …. Problemas, problemas, problemas! E, como era uma coisa acontecendo atrás da outra, eu só foquei nisso por um tempo.

E por estar tão focada no que eu não gostava e não queria, deixei de ver a beleza das Araucárias e dos Cedros nas ruas do meu bairro.

Deixei de reparar nas montanhas ao fundo da paisagem que é possível ver das janelas de casa.

Deixei de apreciar o frio que sempre gostei.

Agora, enquanto escrevo na sala, o aquecedor portátil está ligado, estou usando 2 calças de lã, meias fofas e 2 blusas e, ainda assim, não consigo me aquecer. Nem em Tallinn passei esse frio dentro do apartamento. Mas, quer saber, uma hora ou outra eu me acostumo e, felizmente, esse apartamento é alugado e poderemos sair dele no ano que vem. E, agora, depois de tudo isso, já sei o que desejar e procurar para o próximo apartamento.

E o que eu quero mesmo, a cada vez que olhar pela janela e que sair pra caminhar, é me lembrar que todos os meus desejos foram realizados e que eu tenho muito a agradecer. Esse lugar é tão lindo e me faz sentir em casa e acho que isso é o mais importante.

Tentando mudar o foco

Uau, quanto tempo sem aparecer por aqui. Mas, pelo menos dessa vez, eu não fiquei sem escrever, só deixei de postar. É que tantas coisas aconteceram nesses últimos meses que eu precisei de um tempo pra processar, tanto os acontecimentos quanto os sentimentos decorrentes.

Às vezes a gente só precisa de um tempo pra si, né.

Bom, com tudo o que aconteceu, acho que o maior aprendizado, aquilo que eu não posso esquecer, é a colocar as coisas em PERSPECTIVA. De vez em quando eu preciso voltar ao passado recente e recordar dos momentos vividos para que eu possa olhar meu momento presente de outra forma.

Não é segredo que sou imatura emocionalmente, que me deixo levar facilmente pelos sentimentos e que isso gera muito estresse desnecessário na minha vida. Eu estou bem consciente disso, mesmo nos momentos que minha criança birrenta interna surge, eu estou plenamente consciente de mim, mas nem por isso estou no controle. Ainda me deixo guiar pela sombra.

Então, como preciso viver e reviver certas coisas para aprender, como preciso de lembretes diários para recordar e fazer melhores escolhas, fiz uma lista do que acho mais importante.

  • Deixar de encarar os desafios como problemas
  • Não colocar peso no que poderia ser mais leve
  • Olhar meus medos de frente e questioná-los
  • Lembrar que sempre há algo pelo o que ser grato, mesmo quando nos sentimos na merda
  • Entender que cada um tem a sua jornada e que eu não posso viver a dor de ninguém, mas posso ajudar
  • Lembrar que o “peso” que me é dado eu posso carregar, mas não preciso aumentar o fardo com pensamentos e atitudes negativas
  • Não ter pressa, respeitar meu ritmo de aprendizado e viver um dia de cada vez
  • Na completa escuridão, acender algum ponto de luz, nem que essa luz esteja do lado de dentro
  • Olhar para o outro ajuda a mudar o foco
  • Uma fralda cheia de merda pode ser um grande presente.

Com certeza tem muitas outras coisas que deveriam entrar nessa lista e eu me esqueci, mas como estou tentando diminuir o ritmo da minha mente e me cobrar menos, por enquanto está tudo certo.

Tirando algumas máscaras

Porque eu quero poder ser quem eu sou, eu preciso tirar algumas máscaras, tanto as físicas quanto as emocionais.

Quando eu me exponho aqui nesse espaço estou me mostrando vulnerável e sei que posso me magoar com os comentários e atitudes advindos dessa exposição. Aliás, esse foi um dos motivos que me fez parar de escrever por um tempo; o medo. Mas esse também foi um dos motivos que me fez voltar a escrever; eu estava cansada de fugir do que eu queria fazer e eu sabia que precisava enfrentar meu monstros e seguir em frente.

Estou nessa fase de tentar me livrar de tudo aquilo que me esconde e estou gostando muito disso.

Há algumas semanas atrás teve uma confraternização do trabalho do Ciro, num dia de muito sol, com tempo quente e abafado. Durante os onze anos de trabalho no banco eu nunca entrei na piscina em nenhuma dessas festas de fim de ano. Só alguns homens, as crianças e pouquíssimas “corajosas” mulheres (coisa muito rara) se refrescavam. Esse ano eu decidi dar um basta nesse meu comportamento castrador e me joguei.

Pode parecer algo bobo, eu sei, mas se você é mulher e em algum momento já sentiu receio de mostrar seu corpo, se você se escondeu e ainda se esconde e prefere ficar suando a se expor, talvez entenda a libertação que foi quando desfilei minhas celulites e flacidez. E mesmo me lembrando de todas as vezes em que não me permiti essa simples diversão de me refrescar num dia quente, não me culpei.

Não sei o que pensaram a meu respeito, não sei se julgaram meu corpo e, honestamente, estava pouco me lixando pra isso. Finalmente, um pouquinho da liberdade que eu tanto almejava pareceu surgir quando eu fiz o que eu estava com vontade, pensando somente em mim e no que eu queria fazer.

Outra máscara que comecei a retirar há um tempinho, foi a maquiagem; artifício que eu usava como um meio de proteção quando eu queria esconder minhas imperfeições de pele e que me dava uma falsa sensação de segurança pra botar minha cara no mundo. Essa função da maquiagem eu não quero mais “vestir”. Quando eu usar, e se eu usar, não será mais para me esconder, porque eu não quero mais sentir vergonha da minha aparência e de todas as marcas que fazem parte de mim.

Não sei se tem a ver com ficar mais velho, com atingir um ponto na sua vida em que você não quer mais fingir, se esconder, se fechar, não se permitir. Estou tão cansada de tentar interpretar alguém diferente de mim, porque soa falso e é extremamente exaustivo fingir pra si mesmo e pro mundo que você é alguém que não é.

Quero ser livre para viver de acordo com as minhas verdades e com tudo aquilo que faz sentido pra mim, seguindo o meu coração e não os meus medos, porque esse último já foi meu guia por muito tempo e não me fez mais feliz.

A ideia é encontrar e reconhecer cada uma dessas máscaras que criei para me proteger e, então, me libertar. É tentar não criar novas couraças e viver mais leve. É me jogar no mundo, mesmo com medo de me machucar. É ser eu mesma em cada salto no escuro, me despindo e me reencontrando em cada mergulho profundo pra dentro de mim.

Para onde estou indo?

“Quando você anda de carro à noite, o farol do carro não ilumina o caminho inteiro – por que você faz questão de saber de absolutamente tudo o que vai acontecer? Simplesmente faça o seu melhor hoje e sempre e nunca se esqueça de consultar seu coração em cada bifurcação do caminho.”

Lendo um dos textos da Flávia Melissa no Instagram, senti esse parágrafo “conversar” comigo. Eu já tinha lido algo semelhante que a Paula Abreu escreveu sobre não precisarmos saber, com certeza, aonde nossos passos irão nos levar, mas que o importante é começar a caminhar, e isso fez ainda mais sentido para o meu momento presente.

Tenho uma tendência muito forte a viver, por longos períodos, de maneira letárgica. Não faço nada, não produzo nada, enrolo o máximo possível. Então, quando acordo desse marasmo, fico elétrica e quero tudo pra ontem. Fico angustiada por estar andando no escuro e porque minha visão só alcança uns poucos metros adiante. Pra onde estou indo?

Às vezes, e só às vezes, eu gostaria de saber de antemão os resultados esperados para cada ação, mais ou menos assim: “se eu fizer um conjunto de coisas, por tantas horas e por determinado período de tempo, poderei esperar um resultado X.” Dessa forma eu não perderia tempo e não teria que enfrentar surpresas negativas.

Ok, eu sei que se as coisas funcionassem assim não teria graça, afinal, quando viveríamos os desafios que nos trazem oportunidades de crescimento pessoal? Quando aprenderíamos a lidar com as frustrações e decepções? E aprender a lidar com esses sentimentos considerados negativos é o que nos deixa fortes e resilientes.

É que tenho a sensação de estar perdendo tempo. Não é sempre que me sinto assim, mas acontece numa frequência maior do que gosto de experenciar. Parece que estou no caminho errado, fazendo a coisa errada. Mas então, me recordo da Byron Katie e seu livro Ame a Realidade e desencano um pouco.

Talvez essa dúvida toda faça sentido lá na frente, talvez eu não saiba as respostas porque ainda não é o momento de saber. Talvez, um dia, eu consiga ser ainda mais grata por todo esse turbilhão de sentimentos, todas essas dúvidas e receios, porque eu entenderei que foram eles que me levaram até lá e me transformaram na pessoa que serei.

Comunicação Não-Violenta

Por não acreditar na violência como forma de resolver as coisas e por nunca ter me envolvido em brigas com agressão física, eu não me considerava uma pessoa violenta, até enxergar a violência dentro de mim.

Ela se expressa, na maioria das vezes, através da fala; quando quero impor minhas verdades e quando discordo de alguém meus argumentos são expressos de uma forma agressiva – 99% das vezes faço isso com as pessoas mais próximas e a quem mais amo. Percebi isso há uns meses atrás. Eu já sabia que me comunicava assim, mas acho que não tinha me escutado de verdade até então. Não foi legal descobrir que guardo isso dentro de mim; não foi legal, mas foi.

Foi bom porque consegui enxergar meu comportamento agressivo no segundo seguinte à minha fala, pude me desculpar e entender que ainda tenho muito a aprender.

Minha irmã me emprestou o livro Comunicação Não-Violenta, do Marshall B. Rosenberg, e já nas primeiras páginas pude ver o quanto eu precisava disso e não sabia. Percebi que, desde pequena, a minha violência só era expressa através das palavras, talvez por eu achar que já que não estava batendo em ninguém, estava tudo bem. E sabemos que não é bem assim, não é verdade? Palavras machucam e também causam danos, muitas vezes até mais extensos e duradouros do que a ferida física.

E por muito tempo e por tempo demais, essa foi uma das minhas maiores capacidades: destruir através da palavra. Meu discurso violento sempre foi minha autodefesa, e eu me defendia atacando. Fiz isso “muito bem”, até me dar conta de que estava me destruindo também, até perceber que eu recebia a mesma mágoa que eu destilava, até enxergar a violência que me habitava e eu desconhecia.

No prefácio do livro Comunicação Não-Violenta, Arun Gandhi – neto de Gandhi -, escreveu alguns parágrafos que mexeram muito comigo e me fizeram enxergar a violência com outros olhos. Vou compartilhar algumas palavras que me ajudaram a refletir.

“Uma das muitas coisas que aprendi com meu avô foi a compreender a profundidade e a amplitude da não-violência e a reconhecer que somos todos violentos e precisamos efetuar uma mudança qualitativa em nossas atitudes. Com frequência, não reconhecemos nossa violência porque somos ignorantes a respeito dela. Presumimos que não somos violentos porque nossa visão da violência é aquela de brigar, matar, espancar e guerrear – o tipo de coisa que os indivíduos comuns não fazem.”

Era justamente o que eu pensava; eu não batia nos meus irmãos, eu não agredia ninguém fisicamente, então, eu não era uma pessoa violenta.

Você consegue admitir pra si mesmo que você pratica a violência, mesmo que não seja de forma física? É difícil, né?

Porque existem duas formas de violência, a ativa e a passiva. Na ativa eu emprego a força física, a agressão; na passiva, o sofrimento causado é mais de natureza emocional. Arun Gandhi diz que a violência passiva é mais insidiosa do que a física, porque ela gera raiva na vítima, e essa vítima acaba por responder violentamente à agressão. É um ciclo de violência e dor sem fim, porque, como ele disse, “é a violência passiva que alimenta a fornalha da violência física.”

Meu aprendizado tem sido na minha forma de me comunicar, especialmente quando estou cansada ou estressada e quando estou conversando sobre um assunto que me desestabiliza ou me comove. São nessas situações que preciso ficar ainda mais atenta. Pra mim, a não-violência é um exercício quase diário.

Atualização do diário alimentar

Em setembro do ano passado eu anotei tudo o que eu comi. Fiz um diário bem atento e não deixei nada de fora. A ideia era reduzir, ao máximo, a ingestão de glúten, de açúcar e de alimentos industrializados e super processados.

Pois bem, fiz isso e minha saúde agradeceu.

Mas parei de anotar e, ao fazer isso, acho que deixei de prestar tanta atenção ao que eu consumia. Comi mais glúten e mais açúcar e, como resultado, as alergias na pele voltaram. Honestamente, não tem como eu provar essa associação de uma forma segura, mas acho que as respostas que o meu corpo me dá precisam ser levadas em consideração.

Por que será que quando anoto, eu me alimento melhor? É por não querer admitir, nem pro meu bloco de notas, que vou comer coisas que sei que me fazem mal e por isso não as como? É por que fico mais consciente? É claro que não tem como ficar anotando tudo o que eu como para o resto da vida e eu nem quero fazer isso. Mas percebi que o ato de escutar os meus desejos é o que faz a diferença, porque quando presto atenção neles posso me questionar de onde vem a vontade de fazer algo que sei que me causará mal.

O meu corpo responde tão rapidamente que, em poucos minutos, já estou com vários sintomas decorrentes das minhas escolhas. Eu começo a passar mal enquanto eu ainda estou comendo (sério, é quase tão rápido assim) e sempre achei que isso fosse um incômodo, mas hoje eu entendo como uma coisa boa, porque meu corpo está se comunicando comigo o tempo todo e eu comecei a escutar. Nem sempre eu dou o que ele precisa e pede, confesso, mas estou aprendendo.

Não vou dizer que nunca mais comerei os alimentos que meu corpo recusa, sinceramente não posso me prometer algo que não me vejo cumprindo. Mas acho que dá pra reduzir, e muito, a ingestão deles.

Com toda essa mudança alimentar aqui em casa, ficou mais fácil percebermos os sinais que nossa saúde nos dá. Acredito que exista uma inteligência no nosso corpo que independe da nossa consciência. Vou tentar me explicar.

O Ciro disse que eu o estraguei desde que começamos a morar juntos há uns quatro anos atrás. Antes ele podia comer e beber o que fosse que não sentia nada, agora, quando ingere alimentos muito gordurosos ele passa mal quase instantaneamente. Acho que o nosso corpo se acostuma com o que é mais saudável e ele pede por isso, quando o forçamos a digerir algumas “bombas” ele reclama.

Se você passar uma semana se alimentando bem, sem frituras, açúcar, alimentos processados, glúten, carnes, leite e derivados, apenas comendo de forma mais natural possível e ingerindo água em boa quantidade, notará que se sentirá mais leve, mais limpo. Não é um período prolongado, então acho que não será tão desesperador fazer esse teste. De vez em quando eu gosto de fazer isso eliminando o glúten, o açúcar e os industrializados, eu desincho que é uma beleza e as alergias somem.

Mas, sendo muito honesta aqui, não sei se um dia serei aquele tipo de pessoa que só se alimenta de forma 100% saudável, batatas fritas são irrecusáveis pra mim. Mas eu busco aquele ponto do meio, o meu equilíbrio, que é só meu e tão pessoal, assim como o seu é só seu.

O desejado é muito relativo, assim como a proporção peso x saúde, não existe uma receita única e exclusivamente correta que funcionará pra todos. Você pode experimentar e testar até descobrir o que é melhor pra você, porque o seu corpo já sabe as quantidades e os alimentos que precisa, basta aprender a ouvi-lo.

É fácil? Não necessariamente. Mas é uma escolha diária que tem me trazido vários benefícios.