Consistência x Desistência – Como sair do labirinto?

labirinto

Alguns meses antes de viajar para o Chile, eu tinha iniciado uma mudança de hábitos. Estava tentando me alimentar melhor, me exercitando quase diariamente e bebendo mais água do que bebia antes (uns 2 litros a mais). A ideia, como sempre, era levar essa mudança para a vida e fazer dela a minha nova rotina.

Mas, tem algo que ainda não é uma característica minha: CONSISTÊNCIA.

Infelizmente, eu sou daquele tipo de pessoa que tende a desistir perante às dificuldades e obstáculos diários.

Então, como estava viajando e passava a maior parte do tempo na rua, eu diminuí drasticamente a quantidade de água ingerida, não me alimentei tão bem quanto poderia e, logo depois de machucar meu dedão do pé na primeira semana, eu parei de me exercitar como antes. Fora as caminhadas pela cidade, eu não fiz mais nada.

Como resultado desses 26 dias eu ganhei uma pele super seca e envelhecida (eu parecia uns 10 anos mais velha), um cansaço irreconhecível (talvez tenha sido a soma da desidratação e da má alimentação), uma pancinha bem inchada e um humor oscilante.

É claro que, logo que eu cheguei, a primeira coisa que fiz foi voltar à antiga rotina. Mas, às vezes, me sinto como aquelas pessoas que fazem mil promessas para o novo ano, que dizem que começam tal coisa na segunda-feira e, logo que a empolgação inicial diminui, voltam para a vida de antes e se esquecem dos seus objetivos e sonhos.

Há anos eu começo e paro, recomeço e paro de novo. Entro num ciclo de autoboicote sem fim e fico me perguntando onde está a saída desse LABIRINTO. Talvez, seja mais difícil persistir e seguir em frente porque não tenho fortes motivações, talvez eu seja preguiçosa e acomodada, talvez eu tenha medo do resultado dessa mudança. E, mais uma vez, o medo volta a fazer parte da equação.

Por hora, procuro não ficar encanando com os porquês e tento incorporar essa vida saudável à minha rotina esperando que, um dia, tudo isso se torne algo natural e impensado, como o respirar.

Sentir é bom! Tristeza não é doença

tristeza não é doença - Doce Cotidiano

Por que não é mais permitido sofrer?

Por que o sofrimento foi considerado uma doença que deve ser tratada por psiquiatras com altas doses de medicamento? Por que, para fugir da dor, muitas vezes nos anestesiamos com drogas e bebidas?

Um coração partido, uma traição, a perda de alguém, uma grande decepção, qualquer sentimento que nos cause dor, sofrimento e lágrimas, é natural. Sofrer não é doença (estou desconsiderando depressão e outras patologias, ok).

Imagine uma criança que chora algumas noites porque teve um pesadelo. Você lhe receitaria ansiolíticos, antidepressivos ou remédios para induzir o sono? Espero que não! O que você talvez faça seja acalentar essa criança, dar-lhe amor, perguntar sobre o pesadelo, dizer que nada de mal vai lhe acontecer enquanto ela dorme, talvez durma com ela o restante da noite para protegê-la dos “monstros”.

Então, a gente cresce, e é claro que ainda teremos os nossos “monstros”. Ninguém passa uma vida sem sentir nada (bom, talvez os psicopatas), e sentir é bom, significa que estamos vivos e que ainda nos emocionamos. A dor é um ótimo sintoma. Imagine se ela não existisse!

A gente adoeceria até a morte sem ter a chance de perceber que estávamos doentes. Nossa mão continuaria queimando no fogo antes de percebermos que algo estava errado e retirá-la.

É claro que ninguém quer sofrer e, podendo escolher, definitivamente a gente evitaria situações que nos causam sofrimento. Mas, acredito que todas essas situações, que tendem a ser transformadoras, são essenciais para o nosso desenvolvimento e evolução.

Essa semana, assistindo um episódio de uma série que adoro – Grey’s Anatomy -, o cirurgião Owen Hunt, numa conversa com uma amiga que estava sofrendo (não vou me aprofundar porque corro o risco de dar spoiler), disse algo que eu acho que cabe muito bem aqui.

“Tudo isso que você está administrando. A ideia não é administrar nada.
A ideia é sentir. Tristeza, pesar, dor. É normal. Não é normal para você, porque nunca fez isso. Em vez de sentir a dor, você engole tudo e parte para as drogas. Em vez de atravessar a dor, você foge dela.
Em vez de lidar com a mágoa e a solidão e com medo que só existisse esse sentimento de vazio, eu fugi. Fugi e me alistei para outra temporada de exercícios.
Nós fugimos e medicamos.
Fazemos o que precisar para anestesiar a sensação, mas isso não é normal.
Nós temos que sentir. Temos que amar e odiar. E nos machucarmos, sentir pesar, quebrarmos, sermos destruídos.
E nos reconstruirmos para sermos destruídos de novo.
Isso é humano. Isso é humanidade.
Isso é estar vivo. Essa é a questão. Essa é a ideia. Não evite isso.”

Então, tenha amigos para te confortarem num momento de pesar, procure ajuda sempre que sentir que está difícil carregar o fardo sozinho, chore, grite, escreva, desabafe, mas SINTA! A gente precisa sentir, a gente foi feito para sentir. E, enquanto estivermos vivos, vamos sentir. Não há nada de errado nisso!

Medo da luz

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Sim, eu sei. Eu sumi!

A ideia inicial era escrever durante a viagem, era não abandonar o blog. Mas, não consegui.

Apesar de estar em um lugar inspirador, que povoa a minha mente de ideias e possibilidades, eu travei. E, mesmo querendo ser consistente, mesmo querendo mudar e não ser aquela pessoa que desiste frente às dificuldades, eu fui a mesma Silvia de sempre e me acomodei.

Não gosto de admitir que eu tenho permitido que antigos medos voltem a me perturbar deixando tudo um tanto mais difícil. Não é medo de me expor e já não sei se é o medo de não ser boa. Também não é o medo de falhar, o pior medo sempre foi o de ser bem sucedida. Acho que está tudo meio confuso por aqui.

Então, eu abraço a minha criança interna que, por tanto tempo, teve medo do escuro, e a abraço um pouco mais forte porque percebo que hoje ela tem medo da luz.

Sim, a luz me assusta. A minha luz me assusta. Estou tão acostumada a lidar com a minha sombra que acabei esquecendo que existe o outro lado em mim.

A doçura que tentei sufocar com a minha rebeldia. A sensibilidade que sempre enxerguei como fraqueza. A positividade que permiti ser minada pela negatividade que sempre nos cerca. O amor que eu carrego e que me neguei a dar.

Hoje eu quero sair desse canto escuro que já não combina mais comigo. Quero voltar às cores que tirei do meu armário. Quero reencontrar aquela menina cheia de sonhos, de vontades e desejos, e quero dar a mão a ela para que, juntas, possamos caminhar em direção à luz.

Pedindo demissão

Pedir demissão era uma ideia que ia e vinha.

Quando tudo estava um caos, quando a saúde gritava por atenção, quando eu mais chorava do que sorria, a ideia de me demitir vinha com tudo.

Mas então, entrava numa fase de dormência. Os amigos aliviavam a rotina maçante, eu me empolgava com algo novo, me distraía com novos objetivos e me enganava mais um pouco.

“Eu só trabalho 30 horas por semana. Tanta gente se mata por mais horas e ganha menos do que eu! Eu não tenho o direito de reclamar, não tenho direito de ser infeliz. Estou num emprego estável, enquanto tanta gente é demitida diariamente. Tenho acesso a plano de saúde, recebo Participação nos Lucros, só preciso aguentar mais algumas décadas até a aposentadoria. Eu posso ser realmente feliz depois. Nem todo mundo pode trabalhar com o que ama!”

Era a mesma ladainha de sempre. Você conhece essa história? A gente fica mentindo pra si mesmo e repete a mentira para os outros, porque se a gente admitir que existe algo que queremos mudar e não mudamos, e se adiamos e arranjamos desculpas, talvez tenhamos que admitir o nosso medo. E, apesar de saber que todo mundo tem medo de alguma coisa e se sente inseguro em muitos momentos da vida, esse saber não diminui o medo nem a insegurança.

Então, o que eu fiz?

Bom, apesar de ser uma pessoa que sempre foi impulsiva, no quesito “fazer as coisas para o meu bem”, sou o oposto. Ruminei essa ideia por muito tempo. Recebi total apoio do meu namorado que dizia que me “bancaria” até eu me encontrar (serei eternamente grata por isso, anjo), mas ainda assim eu não podia me imaginar saindo de lá. Sei lá o que passava pela minha cabeça. Às vezes, eu pensava que pedir demissão era sinal de covardia, era admitir uma fraqueza, era confessar que eu estava perdida e sem objetivos.

Em outras vezes, eu pensava que a demissão seria a minha libertação. Eu abriria os grilhões e sairia da prisão autoimposta, eu seria LIVRE.

Mas, o que me fez criar a coragem pra sair?

Pedindo demissão

Cheguei no meu limite, físico e psicológico. Gastava uma boa parte do meu salário para cuidar da saúde. Saúde que eu deteriorava fazendo o trabalho que me matava. Tudo isso faz sentido? Era um círculo vicioso de dor.

Então, no ano passado, alguns dia antes de sair de férias, eu já não conseguia trabalhar. Meus braços não funcionavam, minha coluna travou. Faltei 3 dias. Fiquei me tratando para poder aguentar as horas de voo até Tallinn.

Eu já estava tão de saco cheio, tão arrasada e com tanta dor, que nem peguei atestado. Fiquei com falta mesmo. Eu queria mais era que tudo fosse à merda.

Então chegou o período de férias e fiquei 20 dias no paraíso. Conheci um país lindíssimo e pude matar a saudade dos meus irmãos. Irmãos que são uma fonte de inspiração pra mim, porque são felizes fazendo um trabalho que gostam. Está vendo como é possível? Tem muita gente por aí que faz o que gosta. Por que não poderia ser assim comigo também?

Convivendo de perto com eles e conversando sobre a minha vida, eu comecei a ficar meio deprê por pensar em voltar para aquela situação infeliz.

Depois da Estônia, eu e meu namorado ficamos alguns dias num Spa. Os bancos ainda estavam em greve e eu estava feliz porque teria mais alguns dias em casa antes de ter que voltar a trabalhar. Então, no último dia de férias, a greve acabou e eu chorei.

Chorei de soluçar, desesperadamente. Chorei porque me vi perdida. Chorei porque sentia que o inferno iria recomeçar. Chorei porque me vi morrendo naquele emprego que me deixava miserável dia a dia.

O meu corpo e minha mente gritavam para eu PARAR.

Então, ainda com a cara inchada de choro, numa conversa com o namorado ele me disse “por que você não pede demissão?”. A gente diminuiria os gastos, apertaria um pouco os cintos, e viveríamos só com o salário dele até eu me encontrar. Por um momento eu fiquei em dúvida, mas foi um momento bem curto. No mesmo dia, na volta para casa, entrei no banco e pedi demissão.

Por ter pensado no futuro logo que fui empregada eu contribuí com o fundo de previdência para os empregados do banco. Essa contribuição de 11 anos foi o que me deu um pouco mais de coragem de sair. Acho que ter uma reserva é encorajador na hora de pular do barco. A não ser que o barco começasse a pegar fogo, aí meu amigo, eu pularia dele mesmo sem colete salva-vidas.

Não teve um único dia em que eu tenha me arrependido.

É claro que eu poderia ter saído bem antes, pelo meu bem físico e mental, isso teria sido o mais indicado. Mas, cada um tem o seu tempo de amadurecimento, e a minha coragem precisou desse tempo extra para se fortalecer.

Felizmente, deixei de me culpar por isso.

Autoestima baixa e os meus relacionamentos

Autoestima baixa e os meus relacionamentos

Eu só consigo falar sobre algo se colocar um pouco de mim no meu texto. Como eu poderia falar de amor e relacionamentos se eu nunca tivesse vivido isso? Ficaria muito teórico e genérico, não é verdade?

Então eu vou contar um pouco da minha história. Comecei a namorar na adolescência e, desde então, tive 5 namorados mais sérios e, um deles já namorei 2 vezes em períodos diferentes e até cheguei a me casar e me divorciar desse mesmo namorado. Uau, que confusão!

Apesar de não me desgostar quando me olho no espelho e até me achar bonita na maior parte do tempo, no passado não foi assim. Uma autoestima baixíssima me acompanhou durante boa parte da minha infância, durou toda a adolescência e persistiu até o início da vida adulta.

Esse complexo de inferioridade era disfarçado por um comportamento expansivo e brincalhão, eu enfatizava e satirizava os meus defeitos, eu ria deles com os outros antes que rissem de mim pelas costas.

Não vou entrar na questão dos porquês desses sentimentos, não acho que isso seja relevante agora (podemos falar sobre isso depois). O importante é saber que isso fez parte da minha história, faz parte de quem eu sou hoje e das escolhas e atitudes que tomo diariamente.

Por muito tempo eu fiquei no escuro. Eu não conseguia enxergar a conexão das minhas atitudes com a minha autopercepção. Eu não entendia que a autoestima baixa me fazia boicotar meus relacionamentos, e isso acontecia porque eu não me achava merecedora de receber amor e carinho. E esse autoboicote acontecia toda vez que eu criava problemas antes inexistentes, principalmente pelo fato de me sentir sempre insegura e, com isso, cobrar do outro atitudes para alimentar a minha autoconfiança. Quem consegue suprir todas as carências do outro? Ninguém!

Demorou muito tempo, muito tempo mesmo, para eu perceber um padrão destrutivo nos meus relacionamentos. E não estou aqui me lamentando pelo o que fiz ou deixei de fazer no passado, porque eu não lamento. Na verdade, sou grata por cada tiquinho da minha história, por cada passo que dei, “errado” ou não, porque isso foi o que me trouxe aqui.

Mas, naquela época, isso causou mágoas, em mim e no outro. É claro que, se eu soubesse o que sei hoje e tivesse mais maturidade emocional, as coisas teriam sido diferentes e menos sofridas. Mas esse processo, em mim, levou o tempo que tinha que levar.

E o que eu posso fazer hoje para que não cometa os mesmos erros do passado? Como posso impedir que os meus momentos de insegurança afetem o meu relacionamento?

Acho que reconhecer o “problema” é o primeiro passo. Como diz a Paula Abreu, devemos jogar luz na escuridão. Trazer à consciência tudo o que eu escondo, reconhecendo meus medos e minhas inseguranças, facilita e muito esse processo. Cada vez que eu consigo perceber que determinado pensamento ou atitude é movido pelo autoboicote – antes ou durante o acontecimento -, só o fato de reconhecê-lo já o enfraquece um pouco e fica mais fácil lidar com ele.

E você, como lida com a autossabotagem?