O reencontro com o feminino

Photo by Becca Tapert on Unsplash

Recentemente fui bombardeada – no bom sentido – pelo feminino, tanto em workshops para mulheres como em conversas com as mais variadas pessoas. E isso me fez pensar e questionar tantas atitudes e escolhas, antigas e atuais.

Minha relação com o feminino sempre foi conturbada, e não estou falando da minha relação com outras mulheres, mas sim de algo interno. O “ser mulher” era algo que me remetia à vulnerabilidade, e como eu entendia vulnerabilidade como fraqueza, me sentia frágil na minha condição feminina.

Me lembro de uma necessidade de não querer ser vista e desejada pelos homens, a não ser que fosse pelo carinha que eu estivesse interessada na época. E, na tentativa frustrada de tentar me esconder e me fazer invisível, eu fui brigando internamente com todas as mudanças que ocorriam no meu corpo e na minha mente.

Não sei dizer quando tudo isso começou, mas talvez exista uma causa externa da qual eu não me lembro com clareza. Nos últimos anos alguns pensamentos relativos à minha infância começaram a surgir, como flashes, mas não posso chamá-los de memórias porque eu não sei se são reais já que até hoje fica tudo meio nebuloso. Às vezes, é mais como uma sensação e algo desperta no fundo da minha mente, para logo em seguida desaparecer.

A questão é que, desde cedo, comecei a brigar com minha feminilidade e com o que ela representava pra mim. Ser mulher me colocava fraca e vulnerável à força dos homens e aos seus desejos pelo meu corpo. Mas, como esconder o meu corpo? Por mais que quisesse desaparecer, eu não conseguia.

Me senti violada inúmeras vezes, nas palavras que me sussurraram nas ruas e nas mãos que me tocaram sem a minha permissão. E, sabendo que aquilo também acontecia com quase todas as mulheres que eu conhecia, esse desejo de ser invisível só aumentava.

Foram décadas nessa briga interna com o que ser mulher representava pra mim e eu levei um bom tempo pra entender que vulnerabilidade e fraqueza eram coisas diferentes. Aliás, demorei pra entender que era preciso muita força para expor a própria vulnerabilidade.

Foi só no encontro com outras mulheres que eu iniciei meu reencontro comigo, e no reconhecimento da força que nelas reside eu pude vislumbrar um pouco da força que vive em mim. E então, eu comecei a fazer as pazes com o meu útero, com o meu corpo e suas mudanças hormonais e físicas, com a minha menstruação e até com a cólica que dói horrores. Comecei a entender meu ciclo e sua interferência no meu humor, na minha pele, nos meus cheiros e desejos. Redescobri a bruxa que sempre me habitou e reassumi a responsabilidade pela minha saúde na tentativa de me cuidar da forma mais natural possível, e comecei a estudar sobre os óleos essenciais e suas funcionalidades e sobre a alimentação feita de forma mais intuitiva e consciente.

É engraçado, sabe. Eu cresci ouvindo que a relação entre mulheres era pautada na rivalidade, mas o que tenho percebido, cada vez mais, não tem nada a ver com isso. O que eu encontrei foi essa linda irmandade que tem me ajudado demais a me entender melhor e a olhar para todas as outras mulheres com um outro olhar; o da compaixão, da empatia, da admiração, do entendimento e de uma conexão que me possibilita enveredar pelo caminho do não-julgamento.

Quando eu me vejo em outras mulheres e quando vejo um pouco delas em mim – as mulheres do meu passado, as que já se foram e as que permanecem aqui; as mulheres do meu presente, que me inspiram ao me dar bons exemplos -, sinto essa força do feminino crescendo dentro de mim e posso aprender a deixar de brigar com quem eu sou e com o que não posso mudar. Porque apesar de ter começado a trilhar esse caminho quase agora – eu levei 40 anos para chegar até aqui -, acho que nunca é tarde para uma reconciliação interna.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

dezesseis − 10 =