Perdendo o medo de caminhar sozinha

Esse é o post de quarta que ficou pra quinta porque a inspiração só veio hoje depois de um Sundae saboreado ontem à tarde. O papo sobre fazer as coisas independente de ter companhia ou não, rendeu!

perdendo o medo de caminhar sozinha - Doce Cotidiano

Do alto dos meus quase 40 anos admito que sempre fui cagona pra fazer muitas coisas sozinha.

Admiro tremendamente meu namorado que nunca deixou de fazer nada que estava afim só porque não tinha uma companhia. Como ele mesmo sempre disse, a companhia dele é ótima! Nunca perdeu um show, um filme no cinema, corrida de F1 … se ele estivesse afim e pudesse ir, ele ia.

Já eu, deixei de me divertir inúmeras vezes, por vergonha, por medo, sei lá! A primeira vez que fui sozinha numa sessão de cinema foi pra assistir o filme Comer, Rezar, Amar. Eu já tinha lido o livro e estava louca pra ver o resultado na telona, como meu namorado da época não estava no clima, eu fui. Estava me sentindo toda independente e corajosa e, alguns segundos depois, minha avó e minha tia entram no cinema e sentam do meu lado. Coincidência pura, mas ainda assim senti que tinha vencido uma dificuldade.

Ainda não voltei ao cinema desacompanhada. Está na minha lista de coisas a fazer por mim!

Logo depois do meu divórcio, há uns anos atrás, eu queria relaxar e ficar um pouco comigo mesma então decidi passar uma semana num Spa. Como seria minha primeira viagem solo fui para um lugar que eu já conhecia só pra não ter tanta novidade acontecendo de uma vez. Posso dizer com toda a certeza que essa viagem foi uma das melhores coisas que já fiz.

Conheci mulheres incríveis com idades e histórias tão diferentes da minha! Pessoas que eu não teria oportunidade de encontrar se não fosse naquela ocasião, naquele lugar, naquele exato momento. Foi uma experiência libertadora!

A coragem pra continuar curtindo a minha companhia foi crescendo, de bebê virou criança e agora acho que começou a entrar na adolescência.

No fim do ano tenho uma viagem programada, será a primeira viagem internacional que faço sozinha. Tudo bem que terei conhecidos ao chegar no meu destino, não será só eu e Deus, mas ficarei quase 24 horas só com a minha companhia e o meu inglês tupiniquim. As 7 horas de espera no aeroporto de Paris me assustam um tiquinho, mas acho que um bom livro pode amenizar a solidão.

Estou aprendendo a comemorar as pequenas vitórias e essa viagem é uma delas. Nunca que eu faria algo assim há uns meses atrás, eu inventaria milhares de desculpas e me convenceria de cada uma delas antes de comprar a passagem.

Sei que isso pode chocar uma galera que me conhece, muitas pessoas não imaginam que eu sou assim. Só quem me conhece intimamente sabe dos meus medos, das minhas inseguranças e das dificuldades que tenho pra me relacionar comigo.

Os medos e inseguranças estão presentes em todos os seres humanos e em algum momento da vida todo mundo já sentiu algo assim. Não é exclusividade minha nem sua, nós não estamos sozinhos nessa!

A questão é, como superar tudo isso? Como seguir sem deixar que esses obstáculos nos impeçam de viver a vida plenamente?

Quero me propor pequenos desafios para fazer as coisas que sempre tive vontade e não fiz. E quero compartilhar isso com vocês, assim gero um compromisso público comigo e fica mais difícil de descumprir e, de quebra, ainda ganho incentivo para seguir em frente.

Acho que o cinema é o primeiro da lista!

Pedindo demissão

Pedir demissão era uma ideia que ia e vinha.

Quando tudo estava um caos, quando a saúde gritava por atenção, quando eu mais chorava do que sorria, a ideia de me demitir vinha com tudo.

Mas então, entrava numa fase de dormência. Os amigos aliviavam a rotina maçante, eu me empolgava com algo novo, me distraía com novos objetivos e me enganava mais um pouco.

“Eu só trabalho 30 horas por semana. Tanta gente se mata por mais horas e ganha menos do que eu! Eu não tenho o direito de reclamar, não tenho direito de ser infeliz. Estou num emprego estável, enquanto tanta gente é demitida diariamente. Tenho acesso a plano de saúde, recebo Participação nos Lucros, só preciso aguentar mais algumas décadas até a aposentadoria. Eu posso ser realmente feliz depois. Nem todo mundo pode trabalhar com o que ama!”

Era a mesma ladainha de sempre. Você conhece essa história? A gente fica mentindo pra si mesmo e repete a mentira para os outros, porque se a gente admitir que existe algo que queremos mudar e não mudamos, e se adiamos e arranjamos desculpas, talvez tenhamos que admitir o nosso medo. E, apesar de saber que todo mundo tem medo de alguma coisa e se sente inseguro em muitos momentos da vida, esse saber não diminui o medo nem a insegurança.

Então, o que eu fiz?

Bom, apesar de ser uma pessoa que sempre foi impulsiva, no quesito “fazer as coisas para o meu bem”, sou o oposto. Ruminei essa ideia por muito tempo. Recebi total apoio do meu namorado que dizia que me “bancaria” até eu me encontrar (serei eternamente grata por isso, anjo), mas ainda assim eu não podia me imaginar saindo de lá. Sei lá o que passava pela minha cabeça. Às vezes, eu pensava que pedir demissão era sinal de covardia, era admitir uma fraqueza, era confessar que eu estava perdida e sem objetivos.

Em outras vezes, eu pensava que a demissão seria a minha libertação. Eu abriria os grilhões e sairia da prisão autoimposta, eu seria LIVRE.

Mas, o que me fez criar a coragem pra sair?

Pedindo demissão

Cheguei no meu limite, físico e psicológico. Gastava uma boa parte do meu salário para cuidar da saúde. Saúde que eu deteriorava fazendo o trabalho que me matava. Tudo isso faz sentido? Era um círculo vicioso de dor.

Então, no ano passado, alguns dia antes de sair de férias, eu já não conseguia trabalhar. Meus braços não funcionavam, minha coluna travou. Faltei 3 dias. Fiquei me tratando para poder aguentar as horas de voo até Tallinn.

Eu já estava tão de saco cheio, tão arrasada e com tanta dor, que nem peguei atestado. Fiquei com falta mesmo. Eu queria mais era que tudo fosse à merda.

Então chegou o período de férias e fiquei 20 dias no paraíso. Conheci um país lindíssimo e pude matar a saudade dos meus irmãos. Irmãos que são uma fonte de inspiração pra mim, porque são felizes fazendo um trabalho que gostam. Está vendo como é possível? Tem muita gente por aí que faz o que gosta. Por que não poderia ser assim comigo também?

Convivendo de perto com eles e conversando sobre a minha vida, eu comecei a ficar meio deprê por pensar em voltar para aquela situação infeliz.

Depois da Estônia, eu e meu namorado ficamos alguns dias num Spa. Os bancos ainda estavam em greve e eu estava feliz porque teria mais alguns dias em casa antes de ter que voltar a trabalhar. Então, no último dia de férias, a greve acabou e eu chorei.

Chorei de soluçar, desesperadamente. Chorei porque me vi perdida. Chorei porque sentia que o inferno iria recomeçar. Chorei porque me vi morrendo naquele emprego que me deixava miserável dia a dia.

O meu corpo e minha mente gritavam para eu PARAR.

Então, ainda com a cara inchada de choro, numa conversa com o namorado ele me disse “por que você não pede demissão?”. A gente diminuiria os gastos, apertaria um pouco os cintos, e viveríamos só com o salário dele até eu me encontrar. Por um momento eu fiquei em dúvida, mas foi um momento bem curto. No mesmo dia, na volta para casa, entrei no banco e pedi demissão.

Por ter pensado no futuro logo que fui empregada eu contribuí com o fundo de previdência para os empregados do banco. Essa contribuição de 11 anos foi o que me deu um pouco mais de coragem de sair. Acho que ter uma reserva é encorajador na hora de pular do barco. A não ser que o barco começasse a pegar fogo, aí meu amigo, eu pularia dele mesmo sem colete salva-vidas.

Não teve um único dia em que eu tenha me arrependido.

É claro que eu poderia ter saído bem antes, pelo meu bem físico e mental, isso teria sido o mais indicado. Mas, cada um tem o seu tempo de amadurecimento, e a minha coragem precisou desse tempo extra para se fortalecer.

Felizmente, deixei de me culpar por isso.