Diários

A saudade do invisível

Photo by Stephen Leonardi on Unsplash

Hoje acordei com um sentimento que soa como saudade, mas é uma saudade de algo que não sei o que é. Talvez seja de algum lugar ou de algum acontecimento (às vezes tenho a sensação que sinto falta de algo que nunca vi, ou de algum lugar que nunca fui), eu realmente não sei.

Começou de forma sutil enquanto eu estava no supermercado percorrendo os corredores de objetos de decoração, mas não cheguei a me lembrar de nada específico, foi mais como uma sensação. Depois, voltando a pé pra casa, andando sob a sombra das árvores e sentindo uma brisa fresca, essa sensação aumentou e eu quase pude visualizar algo.

Dessa vez, não cheguei a ficar triste, foi mais como sentir que eu pertencia a outro lugar.

Você já sentiu algo semelhante?

Vez ou outra acontece isso comigo e fico algumas horas, às vezes alguns dias, sentindo essa saudade e, por mais que me esforce, não consigo saber do que. É como se múltiplos véus turvassem minha visão interna me impedindo de recordar. Eu deveria recordar?

É só ilusão? Pode ser saudade de algo que vivi ou vi em outras vidas? Pode ser saudade do plano espiritual de onde vim? Pode ser um monte de coisas e também pode não ser nada. Pode ser apenas eu, repleta de sentimentos como sempre, toda confusa com o meu turbilhão interno.

Os cheiros, as lembranças e a saudade da vó

Eu tenho um tanto de focinho de cachorro quando se trata do meu nariz e, fora esse faro tão característico, somado a isso vem a minha memória olfativa.

Certos cheiros me levam de volta a vários lugares do meu passado, me fazendo lembrar de situações, pessoas e eventos, trazendo sentimentos, imagens e recordações esquecidas.

Com um aroma posso lembrar de alguém, da roupa que essa pessoa estava usando quando eu senti esse cheiro, do que eu senti ao abraçá-la, da conversa que tivemos e por aí vai.

Hoje, em meio a diversão de testar receitas veganas que peguei na internet, um dos processos trouxe um cheiro forte de saudade. Foi a primeira vez que lidei com fermento biológico seco e, ao fazer a “esponja” para incorporar à farinha, senti o cheirinho que sentia na minha infância quando via minha avó fazendo pães, massas e todas as coisas maravilhosas que só ela sabia fazer.

Um simples aroma me fez viajar no tempo, me levando de volta à cozinha da casa onde morei no bairro Alto do Mandaqui, em São Paulo, quando criança.

Minha avó tinha vários dons, mas dois deles foram os mais marcantes pra mim: seu dedo verde (tudo o que ela tocava florescia) e sua mão para cozinhar. De todas as coisas mais gostosas que já experimentei, a grande maioria foi feita por ela.

Nas pequenas coisas do dia a dia as melhores lembranças são construídas e muitas vezes não nos damos conta, e então, décadas se passam e um pequeno acontecimento traz tudo à memória outra vez.

Os cheiros são muito importantes pra mim, eles contam uma história.

Os desejos que se realizam e o saber pedir

Os últimos acontecimentos me mostraram duas coisas muito importantes:

1. Desejos se realizam

2. Você precisa ser claro ao desejar hahaha

Essa mudança pra Curitiba tem sido um aprendizado constante e, se eu me permitir perceber as pequenas e grandes coisas e não focar somente nos desafios que eu ainda chamo de problemas (mas estou tentando mudar e encarar o desafio pelo o que ele é: uma oportunidade de crescimento), perceberei que quase tudo o que eu havia desejado por anos e anos se realizou.

Eu sempre gostei do frio, o calor me deixava irritada e alérgica.

Eu queria morar num bairro bem verde e cheio de árvores, porque o centro de Campinas era bem cinza.

Eu queria, um dia, poder morar no sul.

Eu queria morar num lugar onde eu me sentisse em casa ao andar nas ruas.

Eu queria poder fazer minhas compras a pé.

Eu queria uma cozinha maior, um banheiro maior e mais claro, mais um quarto em casa, uma sacada e uma vista.

Eu sempre quis morar num lugar em que a temperatura me permitisse usar aqueles cobertores fofos no sofá.

Cada um desses desejos se realizou, sem exceção.

Mas quando os probleminhas começaram a surgir nesse apartamento eu meio que me esqueci de que estava vivendo a realização de um sonho.

Eu queria morar numa cidade fria, não num apartamento frio. Não bate sol e, por ser antigo, não tem aquecimento a gás. A água é super gelada e o chuveiro não aquece o suficiente por ser 110V (coisa de prédio velho demais). Às vezes, é mais frio dentro do que fora de casa.

Não pudemos contratar a empresa de internet que queríamos porque a fiação não passava pelos dutos que são estreitos demais.

Problemas de estrutura, problemas com as esquadrias, problemas de vazamentos, problemas com vaga de garagem …. Problemas, problemas, problemas! E, como era uma coisa acontecendo atrás da outra, eu só foquei nisso por um tempo.

E por estar tão focada no que eu não gostava e não queria, deixei de ver a beleza das Araucárias e dos Cedros nas ruas do meu bairro.

Deixei de reparar nas montanhas ao fundo da paisagem que é possível ver das janelas de casa.

Deixei de apreciar o frio que sempre gostei.

Agora, enquanto escrevo na sala, o aquecedor portátil está ligado, estou usando 2 calças de lã, meias fofas e 2 blusas e, ainda assim, não consigo me aquecer. Nem em Tallinn passei esse frio dentro do apartamento. Mas, quer saber, uma hora ou outra eu me acostumo e, felizmente, esse apartamento é alugado e poderemos sair dele no ano que vem. E, agora, depois de tudo isso, já sei o que desejar e procurar para o próximo apartamento.

E o que eu quero mesmo, a cada vez que olhar pela janela e que sair pra caminhar, é me lembrar que todos os meus desejos foram realizados e que eu tenho muito a agradecer. Esse lugar é tão lindo e me faz sentir em casa e acho que isso é o mais importante.

Tirando algumas máscaras

Porque eu quero poder ser quem eu sou, eu preciso tirar algumas máscaras, tanto as físicas quanto as emocionais.

Quando eu me exponho aqui nesse espaço estou me mostrando vulnerável e sei que posso me magoar com os comentários e atitudes advindos dessa exposição. Aliás, esse foi um dos motivos que me fez parar de escrever por um tempo; o medo. Mas esse também foi um dos motivos que me fez voltar a escrever; eu estava cansada de fugir do que eu queria fazer e eu sabia que precisava enfrentar meu monstros e seguir em frente.

Estou nessa fase de tentar me livrar de tudo aquilo que me esconde e estou gostando muito disso.

Há algumas semanas atrás teve uma confraternização do trabalho do Ciro, num dia de muito sol, com tempo quente e abafado. Durante os onze anos de trabalho no banco eu nunca entrei na piscina em nenhuma dessas festas de fim de ano. Só alguns homens, as crianças e pouquíssimas “corajosas” mulheres (coisa muito rara) se refrescavam. Esse ano eu decidi dar um basta nesse meu comportamento castrador e me joguei.

Pode parecer algo bobo, eu sei, mas se você é mulher e em algum momento já sentiu receio de mostrar seu corpo, se você se escondeu e ainda se esconde e prefere ficar suando a se expor, talvez entenda a libertação que foi quando desfilei minhas celulites e flacidez. E mesmo me lembrando de todas as vezes em que não me permiti essa simples diversão de me refrescar num dia quente, não me culpei.

Não sei o que pensaram a meu respeito, não sei se julgaram meu corpo e, honestamente, estava pouco me lixando pra isso. Finalmente, um pouquinho da liberdade que eu tanto almejava pareceu surgir quando eu fiz o que eu estava com vontade, pensando somente em mim e no que eu queria fazer.

Outra máscara que comecei a retirar há um tempinho, foi a maquiagem; artifício que eu usava como um meio de proteção quando eu queria esconder minhas imperfeições de pele e que me dava uma falsa sensação de segurança pra botar minha cara no mundo. Essa função da maquiagem eu não quero mais “vestir”. Quando eu usar, e se eu usar, não será mais para me esconder, porque eu não quero mais sentir vergonha da minha aparência e de todas as marcas que fazem parte de mim.

Não sei se tem a ver com ficar mais velho, com atingir um ponto na sua vida em que você não quer mais fingir, se esconder, se fechar, não se permitir. Estou tão cansada de tentar interpretar alguém diferente de mim, porque soa falso e é extremamente exaustivo fingir pra si mesmo e pro mundo que você é alguém que não é.

Quero ser livre para viver de acordo com as minhas verdades e com tudo aquilo que faz sentido pra mim, seguindo o meu coração e não os meus medos, porque esse último já foi meu guia por muito tempo e não me fez mais feliz.

A ideia é encontrar e reconhecer cada uma dessas máscaras que criei para me proteger e, então, me libertar. É tentar não criar novas couraças e viver mais leve. É me jogar no mundo, mesmo com medo de me machucar. É ser eu mesma em cada salto no escuro, me despindo e me reencontrando em cada mergulho profundo pra dentro de mim.

Atualização do diário alimentar

Em setembro do ano passado eu anotei tudo o que eu comi. Fiz um diário bem atento e não deixei nada de fora. A ideia era reduzir, ao máximo, a ingestão de glúten, de açúcar e de alimentos industrializados e super processados.

Pois bem, fiz isso e minha saúde agradeceu.

Mas parei de anotar e, ao fazer isso, acho que deixei de prestar tanta atenção ao que eu consumia. Comi mais glúten e mais açúcar e, como resultado, as alergias na pele voltaram. Honestamente, não tem como eu provar essa associação de uma forma segura, mas acho que as respostas que o meu corpo me dá precisam ser levadas em consideração.

Por que será que quando anoto, eu me alimento melhor? É por não querer admitir, nem pro meu bloco de notas, que vou comer coisas que sei que me fazem mal e por isso não as como? É por que fico mais consciente? É claro que não tem como ficar anotando tudo o que eu como para o resto da vida e eu nem quero fazer isso. Mas percebi que o ato de escutar os meus desejos é o que faz a diferença, porque quando presto atenção neles posso me questionar de onde vem a vontade de fazer algo que sei que me causará mal.

O meu corpo responde tão rapidamente que, em poucos minutos, já estou com vários sintomas decorrentes das minhas escolhas. Eu começo a passar mal enquanto eu ainda estou comendo (sério, é quase tão rápido assim) e sempre achei que isso fosse um incômodo, mas hoje eu entendo como uma coisa boa, porque meu corpo está se comunicando comigo o tempo todo e eu comecei a escutar. Nem sempre eu dou o que ele precisa e pede, confesso, mas estou aprendendo.

Não vou dizer que nunca mais comerei os alimentos que meu corpo recusa, sinceramente não posso me prometer algo que não me vejo cumprindo. Mas acho que dá pra reduzir, e muito, a ingestão deles.

Com toda essa mudança alimentar aqui em casa, ficou mais fácil percebermos os sinais que nossa saúde nos dá. Acredito que exista uma inteligência no nosso corpo que independe da nossa consciência. Vou tentar me explicar.

O Ciro disse que eu o estraguei desde que começamos a morar juntos há uns quatro anos atrás. Antes ele podia comer e beber o que fosse que não sentia nada, agora, quando ingere alimentos muito gordurosos ele passa mal quase instantaneamente. Acho que o nosso corpo se acostuma com o que é mais saudável e ele pede por isso, quando o forçamos a digerir algumas “bombas” ele reclama.

Se você passar uma semana se alimentando bem, sem frituras, açúcar, alimentos processados, glúten, carnes, leite e derivados, apenas comendo de forma mais natural possível e ingerindo água em boa quantidade, notará que se sentirá mais leve, mais limpo. Não é um período prolongado, então acho que não será tão desesperador fazer esse teste. De vez em quando eu gosto de fazer isso eliminando o glúten, o açúcar e os industrializados, eu desincho que é uma beleza e as alergias somem.

Mas, sendo muito honesta aqui, não sei se um dia serei aquele tipo de pessoa que só se alimenta de forma 100% saudável, batatas fritas são irrecusáveis pra mim. Mas eu busco aquele ponto do meio, o meu equilíbrio, que é só meu e tão pessoal, assim como o seu é só seu.

O desejado é muito relativo, assim como a proporção peso x saúde, não existe uma receita única e exclusivamente correta que funcionará pra todos. Você pode experimentar e testar até descobrir o que é melhor pra você, porque o seu corpo já sabe as quantidades e os alimentos que precisa, basta aprender a ouvi-lo.

É fácil? Não necessariamente. Mas é uma escolha diária que tem me trazido vários benefícios.

Alguns livros dessa jornada

Minha casa sempre foi repleta de livros, de todos os tipos, graças à minha mãe. Eu ganhei meu primeiro conto de fadas aos três anos de idade – ainda tenho esse livro – e, desde que aprendi a ler, meu universo ganhou mais cor e mais vida com a paixão pela leitura.

Eu amava quando éramos obrigadas a ler os livros pedidos na escola. Minha mãe mal comprava e eu já os devorava, como uma esfomeada, numa gana por viajar naquelas páginas e descobrir novos mundos e sentimentos. A literatura sempre foi meu grande prazer e é assim até hoje.

Já deixei de comer simplesmente porque estava tão absorta lendo que eu me esquecia de almoçar ou jantar. Não existe outra coisa no mundo que prenda minha atenção e meus sentidos dessa forma tão intensa, não como um bom livro.

Além de um bom romance, livros policiais, suspense e ficção científica, também curto muito estudar através da leitura. Tenho mais facilidade em absorver uma informação quando a leio do que quando a escuto.

Hoje quero compartilhar seis livros que tiveram, e ainda tem, um papel muito importante nessa minha viagem do autoconhecimento.

AME A REALIDADE, da Byron Katie

ESCOLHA SUA VIDA, da Paula Abreu

LIMITE ZERO, Joe Vitale e Ihaleakala Hew Len, PhD (Sobre Ho’oponopono)

AMAR E SER LIVRE, Sri Prem Baba

COMUNICAÇÃO NÃO-VIOLENTA, Marshall B. Rosenberg

O PODER DO AGORA, Eckhart Tolle

Eu já tive bastante preconceito com os livros considerados de autoajuda, tinha até vergonha de comprá-los em livrarias físicas porque não queria que me vissem como “fracassada” ou desesperada. Uma baita babaquice, eu sei.

Hoje enxergo esses livros de uma outra forma, porque eu vejo esses autores como seres humanos que também passaram por dificuldades, que também estão em busca de si mesmos, que descobriram uma forma diferente de lidar com suas questões e resolveram compartilhar suas jornadas e descobertas através da escrita.

Seja como um instrumento de aprendizado ou como lazer, a leitura é sempre um excelente hábito. Recomendo!

Ah, aceito dicas de livros.

Primeiro desafio de 2017

E então que, no finzinho de 2016, o Fuel ficou bem doente de uma hora pra outra. Fomos buscá-lo na minha sogra e o trouxemos para Campinas numa clínica veterinária que tem até UTI.

Fizeram alguns exames, também ultrassom, precisou de soro subcutâneo, vários medicamentos e, como perdeu sangue vivo e a contagem de plaquetas estava baixa, acharam melhor interná-lo. Foram duas noites no hospital, pudemos visitá-lo no sábado e o buscamos no domingo.

Na primeira madrugada de internação, acordei às 3 horas e não conseguia mais dormir, tinha receio que fossem ligar com uma má notícia. E eu sei que ficar acordada não impediria nada, não resolveria o problema, não o curaria de todos os males. Mas, eu não conseguia dormir. Sei que minha cabeça não ajuda, que me preocupo demais e antecipo um sofrimento que pode nem vir a chegar. Enquanto eu fico com o estômago apertado, mil pensamentos habitam a minha mente, descontroladamente.

Quando eu saio do momento presente e viajo para um futuro que só existe na minha imaginação fértil e dramática, eu sofro.

META PARA 2017 E PARA A VIDA: NÃO SOFRER PELO QUE NÃO EXISTE.

Mas agora, felizmente, ele já parece estar fora de perigo, será medicado em casa por mais trinta dias e fará exames de sangue semanais. Logo mais o levaremos de volta para minha sogra, lá ele tem espaço e uma companheirinha canina que está sentindo a falta dele.

O que me fez escrever sobre esses acontecimentos foi porque isso tudo me fez enxergar meus medos por uma outra perspectiva. Sempre pensei que meus medos me paralisassem e, até certo ponto, é isso mesmo. Dependendo da situação, não consigo agir. Mas, nem tudo o que me assusta me imobiliza.

Não vou dizer que quando vi aquele sangue todo não senti nada, pra ser honesta, eu senti enjoo. E não foi de nojo, foi o medo de perdê-lo. Mas, dessa vez, consegui fazer o que precisava ser feito, com o estômago embrulhado, com medo de sofrer por uma futura (talvez, possível) perda, mas não recuei nem paralisei.

E aí fiquei pensando, qual a diferença entre o medo que me faz recuar e o medo que me impele adiante? É a motivação por trás que os distingue? Quando envolve uma outra pessoa a minha tendência é agir? Não sei. Não sei mesmo.

Só sei que, nesse momento enquanto escrevo, ele está deitado no chão ao meu lado, dormindo. Então, me deito ao lado dele e ficamos assim, nesse aconchego que poderia durar horas sem que qualquer um de nós dois se cansasse; ele que adora um carinho, e eu que não me canso de acarinhá-lo.

A zona de conforto desconfortável

A zona de conforto desconfortável - doce cotidiano

Estou com mania de adiar. “Isso pode esperar pra quando eu voltar de viagem”, “é besteira resolver isso agora, o ano está quase acabando”, “ano que vem eu faço isso”. Vivo como se essa marcação de tempo realmente fosse importante, como se isso significasse algo. As datas são mera convenção, não é verdade?

Percebo que estou evitando sair da minha zona de conforto. Mesmo que esse “conforto” não esteja me fazendo tão bem, mesmo que eu saiba que está na hora de mudanças, eu adio. Por medo? Não sei, tenho tendência a me acomodar.

Já faz um bom tempo que eu e o Ciro falamos sobre mudar, sair do micro apartamento onde moramos e ir para uma casa. Mais espaço, quintal, um pouco de verde. Vira e mexe, entro em sites para procurar imóveis para locação, em Campinas e em Indaiatuba, pesquiso valores, separo vários links, visitamos várias casas e só.

No começo do ano, enquanto eu viajava, o Ciro encontrou a casa perfeita pra nós, do jeitinho que queríamos e num valor que poderíamos pagar. E eu surtei. Dei pra trás, desisti, amarelei … existem várias palavras para descrever o meu medo de sair do conhecido. E eu faço isso numa frequência maior do que gostaria de admitir.

Óbvio que não foi de todo ruim ficarmos no nosso antigo apê esse ano, facilitou a vida do Ciro já que ele trabalha perto de casa. Mas, percebo que estamos há tempo demais nesse conforto desconfortável.

Não temos espaço, pra nada. Só temos um banheiro e ele é minúsculo, nossa cozinha é tão pequena que preciso fazer malabarismos pra cozinhar e vivo me batendo nos móveis, a máquina de lavar fica quase encostada no fogão e isso me irrita, mal tenho espaço para chegar ao tanque, nossa sala e nosso quarto ficam atravancados de coisas, e por ser um espaço pequeno cheio de móveis, é difícil de limpar.

Foram muitos anos nesse apartamento, quase 5 anos sozinha e 4 anos e meio com o Ciro. Acho que já deu! Sinto que está na hora de mudar. Assim como acontece com as pessoas, cada lugar só dá o que tem pra dar, e esse apê cumpriu bem a sua função.

O que me pega de verdade não é o ato da mudança em si, com as caixas, o transporte e a organização; o que me dá um friozinho na barriga é a antecipação da preocupação com algo que não tenho como prever ou controlar. Fuel e Spock! Um cachorro que mora na minha sogra e o outro que mora nos meus pais. Tenho medo que eles não se deem bem, tenho medo de não saber como agir, tenho medo do desconhecido dessa futura relação.

Eu sei que estou perdendo tempo e energia pensando nisso, porque só saberei o que fazer quando algo acontecer e se acontecer. Essa masturbação mental ainda faz parte de mim e, mesmo com EFT ou com toda a racionalização possível, permito que esses pensamentos me assombrem.

Mas, ainda que eu crie situações para me manter onde estou, sinto que é hora de ir, mesmo com medo.

Uma carta e uma década depois

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Em fevereiro de 2006 eu escrevi uma carta pra mim para ser aberta um tempo depois, mas me esqueci. Dia 5 de maio de 2010 eu a encontrei enquanto arrumava as minhas coisas. Eu digitei seu conteúdo e joguei o papel fora.

Essa semana, xeretando o HD externo que nunca uso, eu encontrei o arquivo.

Compartilho com vocês, na íntegra, sem exclusões.

Indaiatuba, 14 de fevereiro de 2006

Eu poderia começar de tantas formas, mas nunca sei como começar.
Tem tantas coisas que eu gostaria que você soubesse sobre mim, aqueles segredos que eu não revelo nem pra mim mesma. As coisas mais absurdas que já fiz, as insanidades que já pensei. Mas tenho medo. Medo de ser julgada, julgada e condenada. Mas, na verdade, eu sou o meu maior carrasco.
Eu não me permito errar, não me permito falhar e, muitas vezes, não me permito sentir.
Tudo em mim é tão intenso que me assusta, por isso me escondo na proteção, por isso me fecho pra mim mesma.
Não consigo nem responder o que eu quero fazer da minha vida.
Faço planos na irrealidade porque a realidade da vida me assombra.
É isso mesmo? Às vezes a vida parece uma estranha brincadeira.
Estudamos, aprendemos coisas novas a todo momento, crescemos, trabalhamos, nos relacionamos, férias de vez em quando, um passeio, algumas discussões, fazemos as pazes, conhecemos gente nova, nos apaixonamos, nos enganamos, comemos, dormimos, cagamos, peidamos, tomamos banho, conversamos, fazemos compras, nos decepcionamos, choramos, rimos, criamos, desejamos, esperamos… A vida é isso? Mas qual o sentido de tudo? Às vezes me parece tão banal, tão sem propósito.
A rotina me mata a cada dia, mas eu preciso dela, necessito de uma certa segurança e estabilidade, mesmo sabendo que não são reais, que tudo não passa de ilusão.
É tudo uma experiência? Mas quais são os resultados esperados?
Tenho medo de estar vivendo em vão. A minha vida parece tão sem propósito, sem importância.
Tudo bem, para as pessoas que me amam eu tenho importância. Mas que diferença isso faz no mundo? Parece uma vida tão descartável que qualquer um poderia vivê-la no meu lugar.
O que eu sinto se torna confuso pra mim. Como ir atrás do que quero se não sei o que eu quero?
Às vezes, gostaria que alguém pudesse responder as minhas perguntas.
Mas, enfim, o que é o melhor pra mim?
Um mar de pensamentos inunda a minha mente, um turbilhão de sentimentos me perturba; os mais controversos.
Já não sei para onde ir ou como agir. Por que não encarar de frente? De novo, por medo. O medo é um retrocesso, não só me paralisa, mas me faz voltar para trás. Como se mudanças não tivessem ocorrido em mim nesse meio tempo.
Eu gosto de viver, mas não sei direito como se faz isso. Parece que eu nunca vivi antes. Existe um treinamento que não seja a própria vida?
Num dia tenho plena convicção do que quero, na semana seguinte já não sei mais meu nome. Acho que poderia me chamar Inconstância. Belo nome! Nunca uma palavra descreveu tão bem um ser humano.
Eu sou, mas não sei ser.
Eu procuro com que intenção? Não sei se o que me move é carência, dependência … sei lá.
Minhas certezas são muito poucas, e antes eu tinha tantas!
Há tanto para dizer, há tanto para fazer. Mas não posso e nem sei começar pelo início. Porque minha memória não tem sequência, o que eu vivo hoje se mistura com o que vivi, e às vezes não posso discernir a realidade da fantasia.
Recordo da minha maldade, da extrema sensibilidade, das dificuldades, dos pavores, dos receios, das angústias, tantas tentativas, tantas desistências. Tantos começos, poucos meios, menos fins.
Eu amo e odeio, eu choro e dou risada, eu falo e pouco calo, eu atribulo e não pacifico, eu intensifico, eu não espero e disparo, eu temo e paro, eu quero e não quero, eu vou e às vezes volto, eu amo mas não me solto, eu penso e não posso. E é tanto que me desespero.
Estou sempre ligada em alta voltagem, e quando cai a força vou para o fundo do poço, mas sempre retorno à superfície. Sou forte e frágil, não sou calma, sou intempestiva, sou tempestade, não trago a bonança. Às vezes, esqueço da minha criança. Amo minha cachorra como jamais amei outro ser. E, dessa vez, mesmo sem ser como eu quero, não me desespero.
Meu instinto maternal me assusta.
Percebi que estou enrolando para não chegar onde realmente devo. Tenho medo de ser sincera comigo. Não sei até onde quero ir com isso.
Escrevo para tentar esvaziar um pouco a minha mente e tentar dormir em paz!

Mais de 10 anos se passaram e, ao reler a carta, percebi algumas coisas.

Essa busca por mim é muito antiga, talvez já esteja comigo desde o período fetal. A necessidade de saber quem eu sou e o meu papel nesse mundo me levou por uma jornada cheia de altos e baixos. Já estive no cume rodeada de luz e já fui a mosca no cocô do cavalo do bandido, às vezes tudo isso num só dia.

Não vou dizer que a angústia presente naquele momento não existe mais, porque eu estaria mentindo, mas notei que ela diminuiu consideravelmente.

Percebo que sempre associei essa busca por propósito com a descoberta de uma carreira profissional e me sentia frustrada por não trabalhar com algo que eu gostasse e me identificasse.

Mas hoje, pra mim, o meu propósito de vida é muito mais do que isso.

Trabalhar com o que se ama deve ser muito bom, talvez um dia eu vivencie essa experiência. Mas, meu propósito não precisa estar necessariamente ligado com o trabalho que eu farei para ganhar dinheiro, me sustentar e realizar alguns sonhos. Talvez, esse trabalho seja apenas um meio, e não um fim.

Porque existe o lado de fora e o lado de dentro, e esse “dentro” é o que sempre me fez questionar, quem eu sou e o que vim fazer aqui.

Por muito tempo eu priorizei uma ilusória linha de chegada, onde eu encontraria as respostas para as minhas perguntas e elas me dariam a sensação de completude. Mas, eu já sou completa e só estou aqui para relembrar.

Esse relembrar é a minha jornada, mesmo sem saber o destino final.

A alimentação, o dinheiro e as escolhas

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Já faz alguns meses que embarquei nessa mudança de hábitos, principalmente com relação à alimentação, e tem algumas coisas que percebi.

Nem sempre é possível fazer as coisas da forma exata que planejamos em nossos sonhos. Eu adoraria poder me alimentar somente de orgânicos, mas infelizmente não consigo por vários motivos.

O motivo principal que me impede de realizar esse desejo é a questão financeira, pelo menos no momento presente. Pagamos nossas compras com um cartão alimentação que o Ciro recebe no trabalho; os supermercados aceitam esses cartões, mas nem todo mercado tem uma seção de orgânicos. E, a outra parte da questão é que aqui onde moramos não está fácil achar produtos com valor acessível, a diferença de preços entre orgânicos e não orgânicos pode ser gritante.

Perto de mim tem alguns pontos de venda de alimentos orgânicos, mas na maior parte deles só consigo encontrar legumes e verduras e a variedade não é extensa. São basicamente os mesmos vegetais toda semana. O Cestão Biodinâmico facilita bastante, as feirinhas também (lá encontramos frutas), mas eles não aceitam cartão alimentação, somente dinheiro.

Eu sei que a variação de preços e do que encontrar depende muito do lugar que você mora. Sigo algumas pessoas no Instagram que sempre postam as fotos dos seus orgânicos e dos valores pagos e a diferença é absurda. Às vezes, chego a pagar três vezes mais do que eles pelo mesmo alimento.

São várias coisas que me fizeram pensar que, no momento, tenho que me adaptar da melhor forma possível. Comer alimentos saudáveis com agrotóxico ainda é melhor do que não comer nenhum. Infelizmente, a realidade é essa.

Enquanto não tivermos a nossa horta em casa, enquanto o Brasil ainda for um dos maiores consumidores de agrotóxicos do mundo, enquanto ainda não houver produção suficiente de alimentos orgânicos, enquanto a nossa condição financeira não nos permitir gastos maiores; temos que nos virar do jeito que der.

Existem várias receitinhas na internet de como retirar o agrotóxico, essa é uma delas, mas pra quem tem reação ao iodo, acho que não é recomendável; aqui nesse site tem outras dicas. Outras fontes dizem que mesmo lavando bem e descascando e/ou retirando sementes, ainda podemos ter resquícios de veneno porque, em alguns casos, ele penetra no alimento não ficando só na casca.

É algo que eu penso, é algo que tenho receio. Tenho medo de estar me envenenando demais, mas não comer frutas, verduras e legumes, não é uma opção pra mim.

No meu cenário de mundo ideal não haveria mais agrotóxico, todo alimento que vem da terra seria de fonte segura e confiável, nenhum animal seria explorado e morto para o nosso prazer, todos teríamos nossas hortinhas em casa e trocaríamos alimentos com os vizinhos, não existiria a fome e nem as doenças causadas pela má alimentação, a quantidade de lixo que produzimos seria reduzida consideravelmente, nossas águas não seriam contaminadas e seríamos uma comunidade praticamente autossustentável. Mas, por enquanto e a nível global, esse é só um sonho.

Na minha rotina estou tentando descobrir novas possibilidades de causar um impacto menor, tanto na minha saúde quanto no planeta. Ainda não estou no patamar que eu gostaria, mas estou tentando aceitar e não me culpar por não ter chegado lá ainda.

Por enquanto, como orgânicos quando for possível e tento, na maior parte do tempo, me alimentar de forma saudável. Veja bem, eu disse na maior parte do tempo, porque também tenho meus momentos de junk food. É que, hoje em dia, o meu junk não é tão junk quanto antigamente, mas só porque fiz algumas trocas.

Como é uma mudança de estilo de vida que pretendo que seja duradoura, estou tentando tirar a culpa e a autocobrança para deixar esse processo mais leve. E, sei que quanto mais eu me desintoxicar, mais serei capaz de escutar o meu corpo e dar a ele somente o que ele precisa. Uma hora eu chego lá!