Tentando viver com a dor – procurando respostas

Photo by Hailey Kean on Unsplash

Nessa proposta de me conhecer e aprender a lidar com tudo o que eu sou e sinto, me pego voltando ao passado e revisitando a dor. Quando eu saí do banco pensei que, além de estar me despedindo dos amigos e do trabalho, eu também estava me despedindo das dores crônicas, mas infelizmente isso não aconteceu.

Tem momentos que penso que posso enlouquecer, e em outros momentos eu chego a ter certeza que já enlouqueci.

Eu pensava que as dores vinham apenas da situação de estresse e dos movimentos repetitivos que o banco me impunha, e eu imaginava que ao eliminar a causa, eu também eliminaria os sintomas. Mas não tem sido bem assim.

As dores podem vir enquanto eu faço coisas que me dão prazer, como cozinhar, escrever, pintar e até dormir.

Eu tenho apenas 40 anos, não era para me sentir como se estivesse presa no corpo de uma anciã com problemas de coluna e quadril.

Minha mãe diz que quando eu nasci o médico avisou que eu tinha um probleminha no quadril e que era para ela fazer alguns exercícios fisioterápicos em mim, e assim ela fez para que eu não tivesse uma perna menor que a outra.

Na verdade, eu só fui saber disso quanto eu tinha por volta de 18 anos, porque, uma vez, enquanto eu atravessava uma avenida, senti uma dor lancinante na região do quadril e não consegui controlar muito bem minha perna direita, a sensação que eu tive é que ela havia saído do lugar. Eu terminei de atravessar a rua mandando meu cérebro comandar a minha perna para que ela se movesse, e fui meio que arrastando e me sentindo como uma boneca mole de pano. Ao comentar com a minha mãe, ela se lembrou desse probleminha no quadril e imaginou que tivesse uma relação. Um médico com quem me consultei disse que isso era comum em descendentes de italianos (meu caso), mas não me deu maiores explicações e, como isso acontecia muito esporadicamente, eu não me interessei em ir atrás de respostas. De vez em quando o fêmur deslocava da bacia e um tempo depois ele voltava ao lugar sozinho, a dor ia embora e eu ficava bem.

A frequência e a intensidade começaram a aumentar somente há poucos anos.

Uma vez, ao tentar sair do carro (eu estava sentada no banco do passageiro), movi a perna direita pra fora e foi nesse segundo que uma dor absurda, como se algo houvesse se partido, me atingiu perto da virilha. Cheguei a ouvir o barulho de algo saindo do lugar. Fiquei assim sem poder abrir a perna direito por um tempo até o meu acupunturista me ajudar.

Já há um tempo o lado esquerdo começou a me incomodar. Todas as manhãs, enquanto ainda estou deitada na cama, apoiada do lado esquerdo do corpo, eu sinto uma dor muito forte na região do quadril. A sensibilidade é tanta que não suporto nenhuma pressão das mãos nessa região e na região dos glúteos.

Então, há pouco mais de um mês, sem ter feito nenhum movimento brusco, eu fui tentar sentar com as pernas cruzadas e não consegui. Ao tentar abaixar a perna esquerda eu senti a mesma dor de antes na região da virilha. Depois de um tempo assim, fui ao quiropraxista. Apesar da dor no local, ele conseguiu fazer alguns movimentos e senti um pouco de alívio, mas como eu estava muito sensível, não insistimos muito.

Uns dias depois a dor voltou e a impossibilidade de fazer certos movimentos também, e estou assim até hoje.

A coluna foi algo que começou a me incomodar de verdade na época do banco, já nos últimos anos antes de pedir demissão, eu gastava uma boa parte do meu salário com isso. RPG, Pilates, acupuntura, quiropraxia, massagens, fisioterapia … os sintomas aliviavam mas eu nunca melhorava realmente porque a causa do problema continuava existindo.

Só que agora a causa já não existe mais, mas os sintomas ainda se manifestam. Não posso escrever por muito tempo, nem pintar por uma hora, nem passar alguns momentos de pé na cozinha sem sentir uma dor queimando meu pescoço, ombros e, às vezes, meus braços.

Em muitas manhãs eu sinto uma pressão forte nas costas, como se meus músculos estivessem duros e grudados e fica difícil de me mover sem dor.

Eu imagino que, para quem está lendo, deve parecer que sou hipocondríaca, e tudo bem, porque se eu estivesse lendo esse relato é muito provável que eu chegasse a essa conclusão também. Mas eu não sou. Sempre foi raro ficar doente, há bastante tempo eu não fico gripada, eu nunca suportei remédios e não os tomo nem para aliviar a cólica menstrual. Mas eu sinto que, há anos, meu corpo está me dando vários sinais e eu não estou conseguindo perceber o que ele quer dizer.

Já fui em alguns médicos, fiz alguns poucos exames, mas nada muito específico. Acho que, por eu ser jovem, não me dão muita atenção ou talvez só me achem louca mesmo. E é assim que tenho me sentido, louca. Em muitos momentos eu não sei o que fazer comigo e tenho medo que isso nunca termine. Só é suportável porque não sinto essa dor 24 horas por dia se as áreas sensíveis do meu corpo não forem tocadas e se eu não tentar fazer nenhum movimento repetitivo por um tempo minimamente prolongado.

Eu resolvi escrever isso porque eu precisava desabafar e o ato de escrever sempre foi terapêutico e, também, porque imagino que eu não seja a única a estar vivendo algo assim.

De qualquer forma, pedi algumas indicações de ortopedistas especializados em coluna e/ou quadril e consegui marcar uma consulta para fevereiro. Estou aqui, com os dedos cruzados, torcendo para que, dessa vez, eu consiga alguma mísera resposta que me leve a algum lugar para longe da dor.

A saudade do invisível

Photo by Stephen Leonardi on Unsplash

Hoje acordei com um sentimento que soa como saudade, mas é uma saudade de algo que não sei o que é. Talvez seja de algum lugar ou de algum acontecimento (às vezes tenho a sensação que sinto falta de algo que nunca vi, ou de algum lugar que nunca fui), eu realmente não sei.

Começou de forma sutil enquanto eu estava no supermercado percorrendo os corredores de objetos de decoração, mas não cheguei a me lembrar de nada específico, foi mais como uma sensação. Depois, voltando a pé pra casa, andando sob a sombra das árvores e sentindo uma brisa fresca, essa sensação aumentou e eu quase pude visualizar algo.

Dessa vez, não cheguei a ficar triste, foi mais como sentir que eu pertencia a outro lugar.

Você já sentiu algo semelhante?

Vez ou outra acontece isso comigo e fico algumas horas, às vezes alguns dias, sentindo essa saudade e, por mais que me esforce, não consigo saber do que. É como se múltiplos véus turvassem minha visão interna me impedindo de recordar. Eu deveria recordar?

É só ilusão? Pode ser saudade de algo que vivi ou vi em outras vidas? Pode ser saudade do plano espiritual de onde vim? Pode ser um monte de coisas e também pode não ser nada. Pode ser apenas eu, repleta de sentimentos como sempre, toda confusa com o meu turbilhão interno.

Os cheiros, as lembranças e a saudade da vó

Eu tenho um tanto de focinho de cachorro quando se trata do meu nariz e, fora esse faro tão característico, somado a isso vem a minha memória olfativa.

Certos cheiros me levam de volta a vários lugares do meu passado, me fazendo lembrar de situações, pessoas e eventos, trazendo sentimentos, imagens e recordações esquecidas.

Com um aroma posso lembrar de alguém, da roupa que essa pessoa estava usando quando eu senti esse cheiro, do que eu senti ao abraçá-la, da conversa que tivemos e por aí vai.

Hoje, em meio a diversão de testar receitas veganas que peguei na internet, um dos processos trouxe um cheiro forte de saudade. Foi a primeira vez que lidei com fermento biológico seco e, ao fazer a “esponja” para incorporar à farinha, senti o cheirinho que sentia na minha infância quando via minha avó fazendo pães, massas e todas as coisas maravilhosas que só ela sabia fazer.

Um simples aroma me fez viajar no tempo, me levando de volta à cozinha da casa onde morei no bairro Alto do Mandaqui, em São Paulo, quando criança.

Minha avó tinha vários dons, mas dois deles foram os mais marcantes pra mim: seu dedo verde (tudo o que ela tocava florescia) e sua mão para cozinhar. De todas as coisas mais gostosas que já experimentei, a grande maioria foi feita por ela.

Nas pequenas coisas do dia a dia as melhores lembranças são construídas e muitas vezes não nos damos conta, e então, décadas se passam e um pequeno acontecimento traz tudo à memória outra vez.

Os cheiros são muito importantes pra mim, eles contam uma história.

Os desejos que se realizam e o saber pedir

Os últimos acontecimentos me mostraram duas coisas muito importantes:

1. Desejos se realizam

2. Você precisa ser claro ao desejar hahaha

Essa mudança pra Curitiba tem sido um aprendizado constante e, se eu me permitir perceber as pequenas e grandes coisas e não focar somente nos desafios que eu ainda chamo de problemas (mas estou tentando mudar e encarar o desafio pelo o que ele é: uma oportunidade de crescimento), perceberei que quase tudo o que eu havia desejado por anos e anos se realizou.

Eu sempre gostei do frio, o calor me deixava irritada e alérgica.

Eu queria morar num bairro bem verde e cheio de árvores, porque o centro de Campinas era bem cinza.

Eu queria, um dia, poder morar no sul.

Eu queria morar num lugar onde eu me sentisse em casa ao andar nas ruas.

Eu queria poder fazer minhas compras a pé.

Eu queria uma cozinha maior, um banheiro maior e mais claro, mais um quarto em casa, uma sacada e uma vista.

Eu sempre quis morar num lugar em que a temperatura me permitisse usar aqueles cobertores fofos no sofá.

Cada um desses desejos se realizou, sem exceção.

Mas quando os probleminhas começaram a surgir nesse apartamento eu meio que me esqueci de que estava vivendo a realização de um sonho.

Eu queria morar numa cidade fria, não num apartamento frio. Não bate sol e, por ser antigo, não tem aquecimento a gás. A água é super gelada e o chuveiro não aquece o suficiente por ser 110V (coisa de prédio velho demais). Às vezes, é mais frio dentro do que fora de casa.

Não pudemos contratar a empresa de internet que queríamos porque a fiação não passava pelos dutos que são estreitos demais.

Problemas de estrutura, problemas com as esquadrias, problemas de vazamentos, problemas com vaga de garagem …. Problemas, problemas, problemas! E, como era uma coisa acontecendo atrás da outra, eu só foquei nisso por um tempo.

E por estar tão focada no que eu não gostava e não queria, deixei de ver a beleza das Araucárias e dos Cedros nas ruas do meu bairro.

Deixei de reparar nas montanhas ao fundo da paisagem que é possível ver das janelas de casa.

Deixei de apreciar o frio que sempre gostei.

Agora, enquanto escrevo na sala, o aquecedor portátil está ligado, estou usando 2 calças de lã, meias fofas e 2 blusas e, ainda assim, não consigo me aquecer. Nem em Tallinn passei esse frio dentro do apartamento. Mas, quer saber, uma hora ou outra eu me acostumo e, felizmente, esse apartamento é alugado e poderemos sair dele no ano que vem. E, agora, depois de tudo isso, já sei o que desejar e procurar para o próximo apartamento.

E o que eu quero mesmo, a cada vez que olhar pela janela e que sair pra caminhar, é me lembrar que todos os meus desejos foram realizados e que eu tenho muito a agradecer. Esse lugar é tão lindo e me faz sentir em casa e acho que isso é o mais importante.

Tirando algumas máscaras

Porque eu quero poder ser quem eu sou, eu preciso tirar algumas máscaras, tanto as físicas quanto as emocionais.

Quando eu me exponho aqui nesse espaço estou me mostrando vulnerável e sei que posso me magoar com os comentários e atitudes advindos dessa exposição. Aliás, esse foi um dos motivos que me fez parar de escrever por um tempo; o medo. Mas esse também foi um dos motivos que me fez voltar a escrever; eu estava cansada de fugir do que eu queria fazer e eu sabia que precisava enfrentar meu monstros e seguir em frente.

Estou nessa fase de tentar me livrar de tudo aquilo que me esconde e estou gostando muito disso.

Há algumas semanas atrás teve uma confraternização do trabalho do Ciro, num dia de muito sol, com tempo quente e abafado. Durante os onze anos de trabalho no banco eu nunca entrei na piscina em nenhuma dessas festas de fim de ano. Só alguns homens, as crianças e pouquíssimas “corajosas” mulheres (coisa muito rara) se refrescavam. Esse ano eu decidi dar um basta nesse meu comportamento castrador e me joguei.

Pode parecer algo bobo, eu sei, mas se você é mulher e em algum momento já sentiu receio de mostrar seu corpo, se você se escondeu e ainda se esconde e prefere ficar suando a se expor, talvez entenda a libertação que foi quando desfilei minhas celulites e flacidez. E mesmo me lembrando de todas as vezes em que não me permiti essa simples diversão de me refrescar num dia quente, não me culpei.

Não sei o que pensaram a meu respeito, não sei se julgaram meu corpo e, honestamente, estava pouco me lixando pra isso. Finalmente, um pouquinho da liberdade que eu tanto almejava pareceu surgir quando eu fiz o que eu estava com vontade, pensando somente em mim e no que eu queria fazer.

Outra máscara que comecei a retirar há um tempinho, foi a maquiagem; artifício que eu usava como um meio de proteção quando eu queria esconder minhas imperfeições de pele e que me dava uma falsa sensação de segurança pra botar minha cara no mundo. Essa função da maquiagem eu não quero mais “vestir”. Quando eu usar, e se eu usar, não será mais para me esconder, porque eu não quero mais sentir vergonha da minha aparência e de todas as marcas que fazem parte de mim.

Não sei se tem a ver com ficar mais velho, com atingir um ponto na sua vida em que você não quer mais fingir, se esconder, se fechar, não se permitir. Estou tão cansada de tentar interpretar alguém diferente de mim, porque soa falso e é extremamente exaustivo fingir pra si mesmo e pro mundo que você é alguém que não é.

Quero ser livre para viver de acordo com as minhas verdades e com tudo aquilo que faz sentido pra mim, seguindo o meu coração e não os meus medos, porque esse último já foi meu guia por muito tempo e não me fez mais feliz.

A ideia é encontrar e reconhecer cada uma dessas máscaras que criei para me proteger e, então, me libertar. É tentar não criar novas couraças e viver mais leve. É me jogar no mundo, mesmo com medo de me machucar. É ser eu mesma em cada salto no escuro, me despindo e me reencontrando em cada mergulho profundo pra dentro de mim.