Comunicação Não-Violenta

Por não acreditar na violência como forma de resolver as coisas e por nunca ter me envolvido em brigas com agressão física, eu não me considerava uma pessoa violenta, até enxergar a violência dentro de mim.

Ela se expressa, na maioria das vezes, através da fala; quando quero impor minhas verdades e quando discordo de alguém meus argumentos são expressos de uma forma agressiva – 99% das vezes faço isso com as pessoas mais próximas e a quem mais amo. Percebi isso há uns meses atrás. Eu já sabia que me comunicava assim, mas acho que não tinha me escutado de verdade até então. Não foi legal descobrir que guardo isso dentro de mim; não foi legal, mas foi.

Foi bom porque consegui enxergar meu comportamento agressivo no segundo seguinte à minha fala, pude me desculpar e entender que ainda tenho muito a aprender.

Minha irmã me emprestou o livro Comunicação Não-Violenta, do Marshall B. Rosenberg, e já nas primeiras páginas pude ver o quanto eu precisava disso e não sabia. Percebi que, desde pequena, a minha violência só era expressa através das palavras, talvez por eu achar que já que não estava batendo em ninguém, estava tudo bem. E sabemos que não é bem assim, não é verdade? Palavras machucam e também causam danos, muitas vezes até mais extensos e duradouros do que a ferida física.

E por muito tempo e por tempo demais, essa foi uma das minhas maiores capacidades: destruir através da palavra. Meu discurso violento sempre foi minha autodefesa, e eu me defendia atacando. Fiz isso “muito bem”, até me dar conta de que estava me destruindo também, até perceber que eu recebia a mesma mágoa que eu destilava, até enxergar a violência que me habitava e eu desconhecia.

No prefácio do livro Comunicação Não-Violenta, Arun Gandhi – neto de Gandhi -, escreveu alguns parágrafos que mexeram muito comigo e me fizeram enxergar a violência com outros olhos. Vou compartilhar algumas palavras que me ajudaram a refletir.

“Uma das muitas coisas que aprendi com meu avô foi a compreender a profundidade e a amplitude da não-violência e a reconhecer que somos todos violentos e precisamos efetuar uma mudança qualitativa em nossas atitudes. Com frequência, não reconhecemos nossa violência porque somos ignorantes a respeito dela. Presumimos que não somos violentos porque nossa visão da violência é aquela de brigar, matar, espancar e guerrear – o tipo de coisa que os indivíduos comuns não fazem.”

Era justamente o que eu pensava; eu não batia nos meus irmãos, eu não agredia ninguém fisicamente, então, eu não era uma pessoa violenta.

Você consegue admitir pra si mesmo que você pratica a violência, mesmo que não seja de forma física? É difícil, né?

Porque existem duas formas de violência, a ativa e a passiva. Na ativa eu emprego a força física, a agressão; na passiva, o sofrimento causado é mais de natureza emocional. Arun Gandhi diz que a violência passiva é mais insidiosa do que a física, porque ela gera raiva na vítima, e essa vítima acaba por responder violentamente à agressão. É um ciclo de violência e dor sem fim, porque, como ele disse, “é a violência passiva que alimenta a fornalha da violência física.”

Meu aprendizado tem sido na minha forma de me comunicar, especialmente quando estou cansada ou estressada e quando estou conversando sobre um assunto que me desestabiliza ou me comove. São nessas situações que preciso ficar ainda mais atenta. Pra mim, a não-violência é um exercício quase diário.

Quando quero mudar o mundo

Quando quero mudar o mundo - doce cotidiano

Por muito tempo, talvez por arrogância ou inocência, achei que poderia mudar o mundo. E, por não ser bem sucedida nessa empreitada, me senti fracassada, desanimada, desesperançosa.

Uma mudança de foco já teria sido suficiente pra amenizar esse peso da busca pelo impossível. Porque, na verdade, eu posso sim ajudar a mudar o mundo, e eu faço isso quando eu mudo a mim.

Mudar a si mesmo já é algo bem difícil; requer vontade, paciência e autocompaixão. Tentar mudar o outro, não só é impossível como gerará frustração, além de ser algo bem egoísta. Nessa tentativa fica subentendido que eu sei o que é melhor, que eu sei o que é certo, que a minha visão de mundo é a correta e que o outro deve viver de acordo com as minhas regras e verdades.

E por que eu estou escrevendo sobre isso? Porque eu sou essa pessoa que se acha dona da razão e da verdade, porque eu sou a pessoa que quer convencer os outros do que é certo, porque eu sou a “cagadora de regras”. Hipocrisia total, certo? Porque eu mesma vivo mudando de ideias, meus conceitos de certo e errado já mudaram muito com o tempo e acho que mudarão ainda mais enquanto eu viver. Se, na maior parte do tempo, eu não sei o que é realmente bom pra mim, se ainda estou aprendendo a me conhecer, se não sei quais são os meus limites e quais devo ultrapassar, como posso querer saber o que é melhor para o outro e como posso ditar o jeito que ele deveria agir?

Eu, que sempre me achei tão flexível e aberta, reconheci uma rigidez em mim que eu não sabia que existia. Mas, beleza, vivendo e aprendendo. Dizem que o primeiro passo para a mudança é reconhecer que você é/tem aquilo que você quer mudar. Reconheço minha rigidez, minha arrogância e prepotência, aceito que essas características fizeram parte de mim por um bom tempo e tiveram sua serventia, entendo que ainda tenho um caminho pela frente e que essa jornada nunca acaba e agradeço por, finalmente, ter aberto meus olhos para enxergar isso em mim.

Aprendi que a minha contribuição para um mundo melhor vem por meio da minha mudança interna, afinal, a gente só consegue dar aquilo que a gente tem. Como disse Sri Prem Baba:

”Muitos querem contribuir para a paz da Terra, mas não sabem como encontrar a paz dentro da própria família. Então, enquanto não há o que oferecer, não caia na armadilha de querer salvar o mundo, trate de salvar a si mesmo. Trate de olhar para a injustiça que te habita. Olhe para a violência, para o desrespeito e para a dor que te habitam. Esse é o primeiro e mais importante passo para iluminar este mundo.”

O suicídio, o escrever e a permanência

O suicídio, o escrever e a permanência - doce cotidiano

Quando eu era adolescente, pensar em suicídio era algo recorrente. Eu me odiava tanto que eu não queria mais ser eu. Eu não me sentia pertencendo a esse corpo, a essa família e a essa vida. Mas, por mais vontade que eu tivesse de deixar de existir, duas coisas me ajudaram a continuar aqui.

A primeira foi porque eu não queria “repetir o ano”. A crença no espiritismo, na época, me fez desistir de me matar porque eu não queria sofrer no pós-morte, eu não queria voltar para aprender as mesmas lições que não tinha aprendido, eu só queria que o sofrimento acabasse.

A segunda, e mais importante, foi a escrita. Quando eu escrevia poesias meio sombrias eu me suicidava inúmeras vezes e, ao me matar no papel, a vontade de sumir diminuía um pouquinho.

Hoje, quando eu me recordo dessa fase e de todos os sentimentos que a envolveram, penso nos questionamentos que eu me fazia. Por que meu eu adolescente se odiava tanto? De onde vinha tanta culpa? Por que eu não me achava merecedora de amor? Nenhuma resposta que me dei, na época, pareceu ser satisfatória.

Eu tenho uma ideia do que estava por trás dos meus sentimentos, mas ainda não estou pronta para falar sobre isso publicamente porque existem algumas caixinhas internas que eu não abri, outras eu abri mas não quis olhar o conteúdo, e as que abri e olhei estou tentando me dar um tempo pra lidar com as coisas que consigo, uma de cada vez.

Depois de tanto tempo me dedicando ao autoconhecimento, os sentimentos daquela fase da minha vida mudaram, por isso ainda estou aqui. Mas, percebo que não foi bem uma mudança de sentimento, acredito que tenha sido uma nova maneira de enxergá-los.

Coisas que eram imensas há duas décadas atrás, hoje parecem pequenas. E acho que costuma ser assim, né? Certas questões perderam o peso depois que aprendi a lidar com elas, outras questões surgiram pedindo atenção e começou tudo outra vez, mas com um pouco mais de facilidade para lidar com meus monstros.

O suicídio deixou de ser um desejo há muito tempo e nunca mais voltou a me assombrar, nem nos piores momentos. Mas por um bom tempo foi um pedido de ajuda silencioso, porque eu não expressava essa vontade pra ninguém, não de forma clara, pelo menos. Não sei se alguém conseguia imaginar o que eu sentia e pensava, porque apesar da minha escrita reveladora, eu tinha muitos amigos e estava sempre sorrindo na escola. Já em casa, a situação era outra.

Felizmente, com o passar do tempo, adquiri muitas “ferramentas” que me ajudaram a lidar com tudo aquilo que me desestabilizava, com os sentimentos que me oprimiam e com as situações que me abalavam. Mas, e se não tivesse sido assim? E se eu não amasse a escrita? E se, na época, eu não acreditasse em umbral e reencarnação? Gosto de pensar que eu teria arranjado outros meios e outras desculpas para permanecer aqui.

Fui dormir com essa lembrança na cabeça, peguei o celular e anotei no meu bloco de notas para não esquecer. Não me recordo do que trouxe esse assunto à tona, mas não consegui parar de pensar nisso e, automaticamente, inúmeras questões se formaram em minha mente.

Quantas pessoas não gostam de si mesmas? Quantas se perguntam se vale a pena viver? Quantas estão procurando um meio de tirar a própria vida?

De onde vem o sentimento de não pertencimento e inadequação? De onde vem a falta de amor próprio? De onde vem a vontade que gera a ação? Porque existe um vão entre a vontade de se matar e o ato em si. O que constrói essa ponte e o que nos faz atravessá-la?

É algo espiritual? É algo emocional? É alguma reação química que acontece no nosso cérebro? O que nos faz “puxar o gatilho”?

Quantos pedidos de ajuda silenciosos nós não escutamos? Quantos sinais não percebemos? Quem tira a própria vida realmente quer morrer ou só quer parar de sentir/viver algo?

Eu só posso falar por mim. O que eu queria de verdade era parar de sentir o que eu sentia com tanta intensidade; acho que nunca quis morrer realmente, porque provavelmente eu teria arranjado um meio para isso. Sentir sempre foi algo bem difícil pra mim, difícil e exaustivo. Muitas vezes, ainda é. Por isso tenho meus períodos de introspecção e recolhimento como um meio de recarregar as baterias, que é quando eu me preparo para uma nova rodada de sentimentos intensos .

Ainda estou aprendendo a lidar comigo e com o meu lado mais sombrio e, às vezes, parece que esse é um aprendizado eterno. Mas, felizmente, existe a escrita. Escrever sempre foi meu melhor exercício, meu exorcismo, minha redenção, foi o que me manteve viva.

E você? Tem algo que seja a sua válvula de escape? Tem algo que te faça permanecer?

Desempregada ou dona de casa?

desempregada ou dona de casa? - doce cotidiano

Outra semana, durante um depoimento, eu tive que responder algumas questões sobre mim; nome, data de nascimento, escolaridade, endereço, profissão e outros dados pessoais. Na hora de responder sobre a profissão eu disse “desempregada no momento”, mas logo que eu disse isso, senti um baita desconforto.

Eu estou desempregada? Eu me considero desempregada mesmo sem estar procurando um emprego? Eu deveria ter respondido “dona de casa” ou “do lar”? Qual é a minha situação?

A realidade do momento é que meu namorado paga as contas e eu cuido da casa. Não existe problema algum nesse arranjo se isso é um acordo do casal – e esse é o nosso caso. Então, por que me sinto incomodada quando tenho que falar para terceiros sobre a minha condição profissional?

Por que me importo, ainda, com o que os outros pensam sobre a minha vida? Que parte minha julga essa situação como inadequada? Por que me sinto menos por não estar contribuindo financeiramente em casa? Essa é uma questão tão minha! Não existe nada no meu relacionamento que me faça sentir mal sobre isso. O Ciro não me pressiona para que eu volte a trabalhar, ele não me cobra nada e sempre me apoia. Eu não tenho nada a reclamar, sério. Então, por que me sinto assim?

A todo momento que encontro algum conhecido, logo depois que me perguntam se estou bem, vem a pergunta seguinte: com o que você está trabalhando, o que você está fazendo da vida? Bom, eu estou vivendo. Mas, isso não parece ser o suficiente pra mim. Porque, em algum ponto da nossa história, nos definimos e nos descrevemos pelo o que fazemos e não por quem somos. Já reparou nisso? Uma das primeiras coisas que as pessoas falam sobre si mesmas é a profissão. “Olá, sou Fulano, advogado”, “bom dia, me chamo Sicrana, sou empresária”. Mas, a sua profissão não é quem você é. Você não É advogado, você ESTÁ advogado. Mas, a gente mistura tudo, talvez por não saber de verdade quem somos. Sei lá. Só posso falar por mim.

O que percebi é que ainda existem algumas questões e bloqueios internos a serem trabalhados nessa área da minha vida. Eu quero voltar a ganhar dinheiro por uma infinidade de razões e eu sei que isso vai acontecer mais cedo ou mais tarde, mas ainda coloco muita pressão em mim. Parece que certos comportamentos requerem um pouco mais de tempo para mudar, ainda mais quando fizeram parte da minha vida por tanto tempo, como a autocobrança e a autodepreciação.

Entendo que, mais do que não querer me definir por uma palavra relacionada a alguma profissão, o meu ponto de incômodo aqui é o DINHEIRO, mais precisamente o fato de não estar ganhando nenhum. E isso tem a ver com a minha dificuldade de receber, com o fato de me sentir menos por estar dependendo financeiramente de alguém, mesmo que esse alguém seja meu parceiro.

Eu poderia pensar que voltar a ganhar dinheiro seria a solução para esse “problema”, mas sei que o buraco é mais fundo, porque na época que eu trabalhava já me sentia NÃO merecedora, essa dificuldade ainda é uma questão que necessita de aceitação e acolhimento. E, apesar do desconforto em falar desse assunto, sou grata por poder viver essa experiência que me faz lidar com questões que me desafiam e me ensinam diariamente.

Ainda estou aprendendo a conhecer quem eu sou enquanto tento me desvencilhar de ideias preconcebidas sobre quem eu deveria ser.

Sobre ser/estar inteira

Sobre ser/estar inteira - doce cotidiano

Mesmo quando estou despedaçada, partida, quebrada, ainda posso ser inteira. Pra mim, ser inteira é reconhecer e aceitar todas as partes como minhas, as boas e as não tão boas.

Sabe, tem dias que eu não tenho nada pra dar. Absolutamente nada. Nem um sorriso. Esses dias já não são tão frequentes, mas eles existem. Pode até ser que eu me sinta diferente no decorrer das horas, pode ser que as emoções que me prendem e a quem eu me prendo, se dispersem. Acontece. Mas tento não contar com isso!

Estou aprendendo a não brigar mais com meus sentimentos. Estou aprendendo a acolher. É claro que nem sempre é fácil, ninguém disse que é. Mas, consegui fazer isso há algumas semanas e a sensação foi tão boa, mas tão boa, que eu quis escrever.

Acordei me sentindo triste e angustiada e passei o dia com um nó na garganta. De início, tentei recordar se havia algo novo acontecendo em minha vida que pudesse contribuir com essa sensação; não, não havia. Massageei um pouco meu peito, pousei as duas mãos sobre ele e lá as deixei. Fiquei assim, quieta comigo, me dando um pouco de carinho e atenção.

A tristeza não foi embora, entendi que ela ainda precisava ficar ali.

Fiz EFT, chorei. Chorei muito. Mesmo sem saber o porquê das lágrimas, mesmo sem entender o que estava acontecendo comigo, deixei o sentimento livre.

Acho que foi a primeira vez que não fiquei brigando com o que eu sentia. Não tentei ignorar, não tentei expulsar e, depois de um tempo, não tentei entender. Só fiquei ali, com todas aquelas sensações que pediam pelo meu acolhimento.
Deitei um pouco na rede e me abracei. Embalei lentamente nós duas, eu e minha tristeza. E lá ficamos por um tempo olhando o céu e observando o voo dos urubus – que é uma das coisas mais lindas de se ver, em minha opinião -, curtindo o fim da tarde que se aproximava.

Depois, o Ciro me levou ao parque, nos sentamos num banco embaixo das árvores e em frente ao lago. Ficamos um tempo observando os passarinhos, as capivaras e os patos. E ali, em meio à natureza, que é onde sempre me sinto conectada comigo, chegou a paz.

E aquela paz cresceu até ocupar tantos espaços dentro de mim que a tristeza foi embora. Eu não pedi para ela ir, ela simplesmente foi. Talvez, por ter se sentido acolhida e escutada, ela não precisava mais estar ali implorando por atenção.

Não sei se conseguirei fazer isso sempre, mas estou aprendendo a não brigar com o que eu sinto. Quando a raiva, a tristeza, a angústia e o medo chegam, eu imagino que é a minha criança interior que está inundada por todos esses sentimentos, assim fica mais fácil escutá-los e dar amor.

Quando acolho essa criança que faz parte de quem eu fui e de quem eu sou, reconheço todos os sentimentos que me invadem como uma parte de mim, os bons e os não tão bons. E isso me faz sentir inteira.