Autoconhecimento

Quando quero mudar o mundo

Quando quero mudar o mundo - doce cotidiano

Por muito tempo, talvez por arrogância ou inocência, achei que poderia mudar o mundo. E, por não ser bem sucedida nessa empreitada, me senti fracassada, desanimada, desesperançosa.

Uma mudança de foco já teria sido suficiente pra amenizar esse peso da busca pelo impossível. Porque, na verdade, eu posso sim ajudar a mudar o mundo, e eu faço isso quando eu mudo a mim.

Mudar a si mesmo já é algo bem difícil; requer vontade, paciência e autocompaixão. Tentar mudar o outro, não só é impossível como gerará frustração, além de ser algo bem egoísta. Nessa tentativa fica subentendido que eu sei o que é melhor, que eu sei o que é certo, que a minha visão de mundo é a correta e que o outro deve viver de acordo com as minhas regras e verdades.

E por que eu estou escrevendo sobre isso? Porque eu sou essa pessoa que se acha dona da razão e da verdade, porque eu sou a pessoa que quer convencer os outros do que é certo, porque eu sou a “cagadora de regras”. Hipocrisia total, certo? Porque eu mesma vivo mudando de ideias, meus conceitos de certo e errado já mudaram muito com o tempo e acho que mudarão ainda mais enquanto eu viver. Se, na maior parte do tempo, eu não sei o que é realmente bom pra mim, se ainda estou aprendendo a me conhecer, se não sei quais são os meus limites e quais devo ultrapassar, como posso querer saber o que é melhor para o outro e como posso ditar o jeito que ele deveria agir?

Eu, que sempre me achei tão flexível e aberta, reconheci uma rigidez em mim que eu não sabia que existia. Mas, beleza, vivendo e aprendendo. Dizem que o primeiro passo para a mudança é reconhecer que você é/tem aquilo que você quer mudar. Reconheço minha rigidez, minha arrogância e prepotência, aceito que essas características fizeram parte de mim por um bom tempo e tiveram sua serventia, entendo que ainda tenho um caminho pela frente e que essa jornada nunca acaba e agradeço por, finalmente, ter aberto meus olhos para enxergar isso em mim.

Aprendi que a minha contribuição para um mundo melhor vem por meio da minha mudança interna, afinal, a gente só consegue dar aquilo que a gente tem. Como disse Sri Prem Baba:

”Muitos querem contribuir para a paz da Terra, mas não sabem como encontrar a paz dentro da própria família. Então, enquanto não há o que oferecer, não caia na armadilha de querer salvar o mundo, trate de salvar a si mesmo. Trate de olhar para a injustiça que te habita. Olhe para a violência, para o desrespeito e para a dor que te habitam. Esse é o primeiro e mais importante passo para iluminar este mundo.”

O suicídio, o escrever e a permanência

O suicídio, o escrever e a permanência - doce cotidiano

Quando eu era adolescente, pensar em suicídio era algo recorrente. Eu me odiava tanto que eu não queria mais ser eu. Eu não me sentia pertencendo a esse corpo, a essa família e a essa vida. Mas, por mais vontade que eu tivesse de deixar de existir, duas coisas me ajudaram a continuar aqui.

A primeira foi porque eu não queria “repetir o ano”. A crença no espiritismo, na época, me fez desistir de me matar porque eu não queria sofrer no pós-morte, eu não queria voltar para aprender as mesmas lições que não tinha aprendido, eu só queria que o sofrimento acabasse.

A segunda, e mais importante, foi a escrita. Quando eu escrevia poesias meio sombrias eu me suicidava inúmeras vezes e, ao me matar no papel, a vontade de sumir diminuía um pouquinho.

Hoje, quando eu me recordo dessa fase e de todos os sentimentos que a envolveram, penso nos questionamentos que eu me fazia. Por que meu eu adolescente se odiava tanto? De onde vinha tanta culpa? Por que eu não me achava merecedora de amor? Nenhuma resposta que me dei, na época, pareceu ser satisfatória.

Eu tenho uma ideia do que estava por trás dos meus sentimentos, mas ainda não estou pronta para falar sobre isso publicamente porque existem algumas caixinhas internas que eu não abri, outras eu abri mas não quis olhar o conteúdo, e as que abri e olhei estou tentando me dar um tempo pra lidar com as coisas que consigo, uma de cada vez.

Depois de tanto tempo me dedicando ao autoconhecimento, os sentimentos daquela fase da minha vida mudaram, por isso ainda estou aqui. Mas, percebo que não foi bem uma mudança de sentimento, acredito que tenha sido uma nova maneira de enxergá-los.

Coisas que eram imensas há duas décadas atrás, hoje parecem pequenas. E acho que costuma ser assim, né? Certas questões perderam o peso depois que aprendi a lidar com elas, outras questões surgiram pedindo atenção e começou tudo outra vez, mas com um pouco mais de facilidade para lidar com meus monstros.

O suicídio deixou de ser um desejo há muito tempo e nunca mais voltou a me assombrar, nem nos piores momentos. Mas por um bom tempo foi um pedido de ajuda silencioso, porque eu não expressava essa vontade pra ninguém, não de forma clara, pelo menos. Não sei se alguém conseguia imaginar o que eu sentia e pensava, porque apesar da minha escrita reveladora, eu tinha muitos amigos e estava sempre sorrindo na escola. Já em casa, a situação era outra.

Felizmente, com o passar do tempo, adquiri muitas “ferramentas” que me ajudaram a lidar com tudo aquilo que me desestabilizava, com os sentimentos que me oprimiam e com as situações que me abalavam. Mas, e se não tivesse sido assim? E se eu não amasse a escrita? E se, na época, eu não acreditasse em umbral e reencarnação? Gosto de pensar que eu teria arranjado outros meios e outras desculpas para permanecer aqui.

Fui dormir com essa lembrança na cabeça, peguei o celular e anotei no meu bloco de notas para não esquecer. Não me recordo do que trouxe esse assunto à tona, mas não consegui parar de pensar nisso e, automaticamente, inúmeras questões se formaram em minha mente.

Quantas pessoas não gostam de si mesmas? Quantas se perguntam se vale a pena viver? Quantas estão procurando um meio de tirar a própria vida?

De onde vem o sentimento de não pertencimento e inadequação? De onde vem a falta de amor próprio? De onde vem a vontade que gera a ação? Porque existe um vão entre a vontade de se matar e o ato em si. O que constrói essa ponte e o que nos faz atravessá-la?

É algo espiritual? É algo emocional? É alguma reação química que acontece no nosso cérebro? O que nos faz “puxar o gatilho”?

Quantos pedidos de ajuda silenciosos nós não escutamos? Quantos sinais não percebemos? Quem tira a própria vida realmente quer morrer ou só quer parar de sentir/viver algo?

Eu só posso falar por mim. O que eu queria de verdade era parar de sentir o que eu sentia com tanta intensidade; acho que nunca quis morrer realmente, porque provavelmente eu teria arranjado um meio para isso. Sentir sempre foi algo bem difícil pra mim, difícil e exaustivo. Muitas vezes, ainda é. Por isso tenho meus períodos de introspecção e recolhimento como um meio de recarregar as baterias, que é quando eu me preparo para uma nova rodada de sentimentos intensos .

Ainda estou aprendendo a lidar comigo e com o meu lado mais sombrio e, às vezes, parece que esse é um aprendizado eterno. Mas, felizmente, existe a escrita. Escrever sempre foi meu melhor exercício, meu exorcismo, minha redenção, foi o que me manteve viva.

E você? Tem algo que seja a sua válvula de escape? Tem algo que te faça permanecer?

Desempregada ou dona de casa?

desempregada ou dona de casa? - doce cotidiano

Outra semana, durante um depoimento, eu tive que responder algumas questões sobre mim; nome, data de nascimento, escolaridade, endereço, profissão e outros dados pessoais. Na hora de responder sobre a profissão eu disse “desempregada no momento”, mas logo que eu disse isso, senti um baita desconforto.

Eu estou desempregada? Eu me considero desempregada mesmo sem estar procurando um emprego? Eu deveria ter respondido “dona de casa” ou “do lar”? Qual é a minha situação?

A realidade do momento é que meu namorado paga as contas e eu cuido da casa. Não existe problema algum nesse arranjo se isso é um acordo do casal – e esse é o nosso caso. Então, por que me sinto incomodada quando tenho que falar para terceiros sobre a minha condição profissional?

Por que me importo, ainda, com o que os outros pensam sobre a minha vida? Que parte minha julga essa situação como inadequada? Por que me sinto menos por não estar contribuindo financeiramente em casa? Essa é uma questão tão minha! Não existe nada no meu relacionamento que me faça sentir mal sobre isso. O Ciro não me pressiona para que eu volte a trabalhar, ele não me cobra nada e sempre me apoia. Eu não tenho nada a reclamar, sério. Então, por que me sinto assim?

A todo momento que encontro algum conhecido, logo depois que me perguntam se estou bem, vem a pergunta seguinte: com o que você está trabalhando, o que você está fazendo da vida? Bom, eu estou vivendo. Mas, isso não parece ser o suficiente pra mim. Porque, em algum ponto da nossa história, nos definimos e nos descrevemos pelo o que fazemos e não por quem somos. Já reparou nisso? Uma das primeiras coisas que as pessoas falam sobre si mesmas é a profissão. “Olá, sou Fulano, advogado”, “bom dia, me chamo Sicrana, sou empresária”. Mas, a sua profissão não é quem você é. Você não É advogado, você ESTÁ advogado. Mas, a gente mistura tudo, talvez por não saber de verdade quem somos. Sei lá. Só posso falar por mim.

O que percebi é que ainda existem algumas questões e bloqueios internos a serem trabalhados nessa área da minha vida. Eu quero voltar a ganhar dinheiro por uma infinidade de razões e eu sei que isso vai acontecer mais cedo ou mais tarde, mas ainda coloco muita pressão em mim. Parece que certos comportamentos requerem um pouco mais de tempo para mudar, ainda mais quando fizeram parte da minha vida por tanto tempo, como a autocobrança e a autodepreciação.

Entendo que, mais do que não querer me definir por uma palavra relacionada a alguma profissão, o meu ponto de incômodo aqui é o DINHEIRO, mais precisamente o fato de não estar ganhando nenhum. E isso tem a ver com a minha dificuldade de receber, com o fato de me sentir menos por estar dependendo financeiramente de alguém, mesmo que esse alguém seja meu parceiro.

Eu poderia pensar que voltar a ganhar dinheiro seria a solução para esse “problema”, mas sei que o buraco é mais fundo, porque na época que eu trabalhava já me sentia NÃO merecedora, essa dificuldade ainda é uma questão que necessita de aceitação e acolhimento. E, apesar do desconforto em falar desse assunto, sou grata por poder viver essa experiência que me faz lidar com questões que me desafiam e me ensinam diariamente.

Ainda estou aprendendo a conhecer quem eu sou enquanto tento me desvencilhar de ideias preconcebidas sobre quem eu deveria ser.

Sobre ser/estar inteira

Sobre ser/estar inteira - doce cotidiano

Mesmo quando estou despedaçada, partida, quebrada, ainda posso ser inteira. Pra mim, ser inteira é reconhecer e aceitar todas as partes como minhas, as boas e as não tão boas.

Sabe, tem dias que eu não tenho nada pra dar. Absolutamente nada. Nem um sorriso. Esses dias já não são tão frequentes, mas eles existem. Pode até ser que eu me sinta diferente no decorrer das horas, pode ser que as emoções que me prendem e a quem eu me prendo, se dispersem. Acontece. Mas tento não contar com isso!

Estou aprendendo a não brigar mais com meus sentimentos. Estou aprendendo a acolher. É claro que nem sempre é fácil, ninguém disse que é. Mas, consegui fazer isso há algumas semanas e a sensação foi tão boa, mas tão boa, que eu quis escrever.

Acordei me sentindo triste e angustiada e passei o dia com um nó na garganta. De início, tentei recordar se havia algo novo acontecendo em minha vida que pudesse contribuir com essa sensação; não, não havia. Massageei um pouco meu peito, pousei as duas mãos sobre ele e lá as deixei. Fiquei assim, quieta comigo, me dando um pouco de carinho e atenção.

A tristeza não foi embora, entendi que ela ainda precisava ficar ali.

Fiz EFT, chorei. Chorei muito. Mesmo sem saber o porquê das lágrimas, mesmo sem entender o que estava acontecendo comigo, deixei o sentimento livre.

Acho que foi a primeira vez que não fiquei brigando com o que eu sentia. Não tentei ignorar, não tentei expulsar e, depois de um tempo, não tentei entender. Só fiquei ali, com todas aquelas sensações que pediam pelo meu acolhimento.
Deitei um pouco na rede e me abracei. Embalei lentamente nós duas, eu e minha tristeza. E lá ficamos por um tempo olhando o céu e observando o voo dos urubus – que é uma das coisas mais lindas de se ver, em minha opinião -, curtindo o fim da tarde que se aproximava.

Depois, o Ciro me levou ao parque, nos sentamos num banco embaixo das árvores e em frente ao lago. Ficamos um tempo observando os passarinhos, as capivaras e os patos. E ali, em meio à natureza, que é onde sempre me sinto conectada comigo, chegou a paz.

E aquela paz cresceu até ocupar tantos espaços dentro de mim que a tristeza foi embora. Eu não pedi para ela ir, ela simplesmente foi. Talvez, por ter se sentido acolhida e escutada, ela não precisava mais estar ali implorando por atenção.

Não sei se conseguirei fazer isso sempre, mas estou aprendendo a não brigar com o que eu sinto. Quando a raiva, a tristeza, a angústia e o medo chegam, eu imagino que é a minha criança interior que está inundada por todos esses sentimentos, assim fica mais fácil escutá-los e dar amor.

Quando acolho essa criança que faz parte de quem eu fui e de quem eu sou, reconheço todos os sentimentos que me invadem como uma parte de mim, os bons e os não tão bons. E isso me faz sentir inteira.

Voltando a antigos padrões

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Ativei o botão de autodestruição, de novo!

De tempos em tempos eu faço isso. Essa parte em mim que de vez em quando adormece, desperta e quer me ferir. Volto para os antigos padrões de pensamento, descuido da minha alimentação e me entupo de alimentos que eu sei que me fazem mal, não me exercito, me sinto miserável e o ciclo se repete.

Eu já sei que tudo isso faz parte da autopunição a que me impus e eu conheço todos esses sintomas a nível consciente, mas tem algo acontecendo bem dentro de mim que ainda não consegui acessar. O que ativa esse comportamento? De onde vem a necessidade de me destruir?

Sou o tipo de pessoa que precisa “exercitar” sempre o otimismo e a alegria de viver, caso contrário, tenho tendência a mergulhar fundo na minha sombra da autopiedade e faço coisas para me machucar.

De quem eu quero me vingar? Eu faço isso para atingir alguém, além de mim? Eu sinto prazer na dor? Por que, mesmo sabendo que faço isso de tempos em tempos, continuo repetindo esse padrão negativo?

Estou cansada de entrar repetidamente nesse ciclo. Tem alguma lição que ainda não aprendi? Ainda me assombro com a minha capacidade de autopunição. Ingenuamente, achei que saber que faço isso já seria meio caminho andado, achei que não repetiria mais esses antigos comportamentos, achei que estava livre de me causar dor. Mas, pelo visto, tem algo em mim que ainda não curei.

Mergulhei no desânimo e no negativismo e tive dificuldades de sair. Acessei alguns sentimentos que, aparentemente, eu estava mantendo escondidos. Senti raiva! Raiva dos médicos que não descobrem o que eu tenho, raiva de mim por entregar a minha saúde na mão de terceiros e esperar por milagres, raiva por descuidar de mim, raiva por sentir raiva … raiva.

Alguns parágrafos acima eu disse que, pra mim, o otimismo é um exercício; e é. Às vezes, esqueço que o pessimismo é meu vício. Tenho que estar sempre vigilante e prestar atenção nos meus pensamentos e nas coisas que leio/ouço/assisto; não consigo me manter afastada das energias que me puxam pra baixo só desejando. Preciso adquirir uma consciência maior sobre mim. Mas, me sinto tão sozinha!

Apesar de saber que não acontece só comigo, sinto que me isolo na minha bolha de autocomiseração. E eu sei que sou eu que faço isso; eu que me fecho, eu que me guardo, eu que me tranco e não deixo ninguém entrar. Porque, quando volto para esse círculo de dor, o que eu quero mesmo é continuar no meu processo sadomasoquista.

Nesses momentos de escuridão, necessito me afastar um pouco do que me puxa ainda mais pra baixo. Mesmo sabendo que esse é um processo interno e que o que acontece a minha volta não é o responsável pela forma como me sinto, preciso deixar o que está fora, distante de mim.

As notícias ruins, as conversas desesperançosas, o negativismo do outro e a raiva que não é a minha, ganham proporções maiores quando estou assim. Tudo me atinge, tudo me toca, tudo me empurra pro meu vício. Então, chega o momento de me retirar pra me curar.

Me fazendo de vítima

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“Fingimos ser frágeis e coitados para que o outro faça tudo do jeito que queremos, ou para nos eximirmos da responsabilidade de buscar a própria felicidade. Estando no papel de masoquista, nos colocamos como vítimas indefesas da maldade do outro, sem assumir responsabilidade pela nossa própria miséria.” AMAR E SER LIVRE, Sri Prem Baba

Ah, a vítima! Esse papel é tão familiar. Não é uma posição da qual eu me orgulhe, mas é algo que fez parte de mim por muito tempo e, de vez em quando, ainda faz. Esse foi o meu modo de agir, sempre esperando que os outros resolvessem as minhas questões e entregando a responsabilidade da minha vida nas mãos de terceiros.

A vítima surgia, principalmente, dentro do meu núcleo familiar. Percebo que entrei nesse papel de ser incapaz e frágil, acho que querendo ser protegida. Não sei dizer quando isso começou, mas sei que é um processo antigo. A minha rebeldia adolescente foi isso, uma maneira desesperada de buscar atenção; e eu conseguia, mesmo que fosse de forma negativa.

Entenda que, pra mim, nada disso aconteceu de forma consciente. Eu não ficava maquinando como agir e o que fazer, eu simplesmente fazia.

Depois desses anos olhando pra mim e me conhecendo um pouco mais, depois de ter iluminado algumas das minhas sombras e de ter desenterrado alguns traumas e bloqueios passados, consigo ver que a criança que eu fui tinha um sentimento muito forte de não pertencimento.

Todos nós, em algum momento da vida – e não importa se recebemos amor e se tivemos uma infância mágica – passamos por situações desafiadoras e interpretamos esses fatos de uma maneira bem individual, baseados nas nossas experiências passadas, no nosso grau de sensibilidade, nas nossas crenças, na forma como enxergamos o mundo e a nós mesmos.

Tenho quatro irmãos, fomos criados pelos mesmos pais, com as mesmas regras e hábitos (principalmente os três filhos mais velhos, grupo do qual faço parte) e somos completamente diferentes. Entendemos as coisas e acontecimentos de maneiras diversas, temos lembranças e sentimentos diferentes com relação a um mesmo acontecimento, nossos temperamentos não são iguais, nossa forma de encarar a vida também é individual. Isso, possivelmente, reflete que cada um sente as coisas de um jeito; algo que foi tranquilo pra um, pode ter sido um evento traumático pra outro.

Hoje revisito esse lugar para entender meus comportamentos atuais e me sinto um pouco mais próxima de acolher e ressignificar minhas atitudes antigas. Porque é apenas isso que posso fazer com o meu passado; olhá-lo e ressignificá-lo.

Isso não quer dizer que nunca mais viverei esse papel de vítima, não quer dizer que nunca mais cometerei erros e que tudo será diferente daqui pra frente. Eu ainda estou aprendendo e o aprendizado continua pela vida afora com ensinamentos diferentes à medida que “passamos de ano”, e é uma jornada que nunca acaba. Eu só estou um pouco mais atenta a alguns aspectos do meu comportamento, reconhecendo a minha responsabilidade em todas as minhas escolhas e suas consequências.

Às vezes, é dolorido. Nem sempre estou disposta a reconhecer certas partes como minhas.

Porque quando a vítima surge, eu quero me entregar a ela porque parece ser mais fácil seguir por esse caminho; a autorresponsabilidade me faz entrar em contato com as sombras que mantive intocadas dentro de mim e nem sempre estou pronta para abraçar os meus monstros. Às vezes, só quero voltar a ser protegida, e tenho vontade de entregar toda essa responsabilidade nas mãos de alguém e esperar que esse outro me faça feliz e supra todas as minhas necessidades. Mesmo sabendo que é impossível ser feliz assim, tem dias que só gostaria de voltar a adormecer. Porque dói, tem dias que dói muito.

Mas, com dor ou sem dor, viver na realidade ainda é muito mais interessante do que viver na ilusão criada por nossas máscaras.

Por isso, quando percebo e reconheço esse papel que interpretei por tanto tempo, aceito que fiz o que sabia fazer e que dei o melhor que tinha pra dar na época. E não é o que todos fazemos? Nós damos o que temos pra dar. E está tudo bem!

E então, ao adquirirmos mais consciência sobre nós mesmos, ao percebermos as nossas ações frente às variadas situações, ao entrarmos em contato com nossos sentimentos, com as nossas sombras e com o que mantivemos escondido, chega o momento de assumirmos a responsabilidade por nossos sentimentos, escolhas e atitudes. E, mesmo que isso pareça um pouco assustador a princípio, se entender como o único responsável por sua vida e por sua felicidade, pode ser libertador.

Rótulos são para produtos, não para pessoas

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Outra noite, eu sonhei que estava com o cabelo comprido. Consigo lembrar-me bem da sensação de desconforto, de ficar prendendo-o o tempo todo e de me sentir estranha, eu me perguntava o porquê de ter deixado meu cabelo crescer de novo e pensava em cortá-lo, doar os fios para alguma instituição e raspar a cabeça outra vez.

Esse sonho fez-me lembrar de outros, de anos atrás. Eu ainda tinha cabelos bem longos e sonhava que era careca e eu estava sempre feliz, só ficava triste ao acordar e perceber que aquele cabelão ainda estava lá.

Já raspo a cabeça há uns bons anos e nunca me senti tão livre e bonita! Mas, apesar de tanto tempo ter passado e eu já estar mais do que acostumada a esse visual, minha ausência de cabelos ainda causa estranhamento nas pessoas e continuo recebendo vários tipos de olhares nas ruas, principalmente o olhar de piedade, e eu até entendo. Não é muito comum vermos mulheres carecas andando por aí.

De acordo com algumas coisas que já ouvi e com as perguntas que respondi, minha falta de cabelo está ligada ao câncer; ao fato de eu ter sofrido algum trauma e não querer mostrar meu lado feminino e por isso fiquei careca; a minha possível homossexualidade e a minha religião inexistente. A minha vontade de ser quem sou nunca foi considerada. Afinal, por que uma mulher deseja não ter cabelos?

O diferente costuma despertar nossa curiosidade e a nossa necessidade de entender, enquadrar, rotular. E ok, nós fazemos isso com tudo e todos que parecem não se encaixar nas nossas definições de “normalidade”, a gente sente que precisa nomear essas diferenças que nos cercam e fazemos isso de acordo com o que é a NOSSA verdade. Sim, nossa! Minha, sua, dele; porque a verdade é a verdade de cada um, ela não é única e soberana.

Os rótulos vêm carregados dos mais diversos preconceitos e, ao rotular, enquadramos as pessoas em certas categorias. Enquanto as “prendemos” nesses grupos que nós mesmos definimos, esquecemo-nos que o ser humano é feito de milhares de possibilidades. Somos complexos demais para sermos rotulados. Não somos produtos estáticos em gôndolas.

Quando rotulamos, perdemos. E perdemos porque restringimos. O ser humano está em constante evolução e pode se transformar várias vezes durante um mesmo dia, mas mesmo sabendo disso, ainda nos surpreendemos.

Já reparou que quando alguém “ousa” sair da pequena caixinha onde o prendemos, nos chocamos? A gente fica confuso, se frustra, se decepciona, se sente enganado. Mas, que culpa o outro tem de ser quem é e não se contentar em viver preso aos rótulos que lhe demos? E, por acaso, nós gostamos dos rótulos que nos dão e vivemos de acordo com eles?

Acho que, por já fazer parte de um hábito, nem percebemos que estamos rotulando. É algo automático, não prestamos atenção e continuamos reproduzindo essa conduta. Eu só despertei para essa questão recentemente. Desde que mergulhei em mim nesse processo de autoconhecimento, comecei a observar certas atitudes minhas e me reconheci, muitas vezes ainda, como uma rotuladora.

Percebo que estar consciente me ajuda a enxergar meu comportamento e, muitas vezes, consigo notar que estou rotulando no momento exato do ato. Nessa hora posso reconhecer os preconceitos que existem em mim e que geram minhas atitudes e repenso minha forma de agir. Não é algo que consigo fazer sempre, mas estou aprendendo e, como todo aprendizado, requer força de vontade e persistência.

Isso é realmente algo que quero fazer, deixar de rotular os outros e me libertar dos rótulos autoimpostos também. Esse desejo de mudança vai de encontro à minha ideia de liberdade e do querer ser livre. E não tem como ser livre estando presa a julgamentos.

Sobre iluminar as minhas sombras

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Estava em busca da minha raiva, esse sentimento poderoso que mora dentro de mim e que estava escondido.

Eu sempre senti raiva, de tudo! E a minha forma de lidar com ela era meio primitiva, o sentimento vinha e eu o colocava pra fora, sem filtros. Com o tempo, comecei a me sentir mal com isso porque eu magoava pessoas que eu amava, e a solução encontrada foi sufocar a raiva. Escondê-la, reprimi-la, ignorá-la.

Por um tempo, pareceu dar super certo. E eu realmente acreditei nisso. Via-me como alguém que não nutria mais esse sentimento tão perturbador, acho até que me sentia superior por não deixar que um sentimento de vibração tão baixa me dominasse. Eu racionalizava as situações que poderiam despertar o monstro e, depois, as ignorava.

Então, acontecimentos que normalmente despertariam a minha raiva começaram a me deixar triste e deprimida. Sem ação, sem reação, sem movimento algum. E isso começou a me incomodar muito mais do que as antigas explosões. Porque deixar de sentir por um tempo pode até ter um efeito calmante, mas, se isso persiste, fica muito claro que é só um processo de fuga. E eu não queria mais viver fugindo de mim.

Porque o problema nunca foi a raiva ou qualquer outro sentimento considerado negativo. A questão não é só o que eu sinto, mas sim, o que eu faço com isso. A raiva pode ser um ótimo combustível para coisas boas e bonitas.

Dizem que a raiva é a tristeza colocada em movimento, que onde existe raiva, provavelmente, existe uma tristeza profunda que não foi olhada. A tristeza, por sua vez, pode vir de um sentimento de raiva que não foi expresso. Pra mim, pra minha história, isso faz total sentido. Esses dois sentimentos sempre estiveram conectados.

Não existe nada de errado em sentir raiva e tristeza. O que eu quero aprender é a acolher todo sentimento que brota em mim, olhar pra ele, não negar ou esconder sua existência. Quero entender de onde eles vêm e os seus porquês.

Percebo que toda vez que fico triste ou sinto raiva é porque estou “brigando internamente” com a realidade. Isso não quer dizer que devo simplesmente me conformar e aceitar as coisas como são; não agir quando sinto que preciso agir, não dizer quando sinto que preciso dizer. Mas, certas coisas são como são, não estão no meu controle e não há muito o que eu possa fazer. A única situação que tenho algum poder pra mudar é a minha. E isso já é difícil pra caramba.

Convivo comigo há quase 39 anos e ainda não me decifrei. Ainda estou aprendendo os porquês de fazer as coisas que faço, do jeito que faço, muitas vezes de forma destrutiva. Os porquês de repetir antigos comportamentos, seguindo velhões padrões comprovadamente catastróficos. Porque, tantas vezes, escolho a dor e não o amor, mesmo que faça isso inconscientemente naquele momento.

Meu momento agora é de união. Juntar esses muitos pedaços perdidos e renegados, todos os sentimentos que fazem e já fizeram parte de mim, acolhê-los, aceitá-los e assumir a minha responsabilidade em cada ação e em cada falta de ação, e fazer isso com amor. Abraçar a raiva que permiti, finalmente, que saísse de seu esconderijo; acolher a tristeza, a culpa e a vergonha que me fizeram companhia por tanto tempo; aceitar o medo constante que só tentava me proteger e, então, usar a luz que me habita para iluminar minhas sombras, todas elas e, um dia, conseguir amar cada pedacinho de mim.

Essa é minha missão. Ser quem eu vim pra ser. Inteira!

O dinheiro, o controle e o não saber receber

O dinheiro, o controle e o não saber receber - doce cotidiano

Estou tentando adquirir um pouco de perspectiva relacionada a alguns dos meus bloqueios: o dinheiro, o controle e o não saber receber.

Por que é tão difícil, pra mim, falar sobre dinheiro? Por que eu me sinto envergonhada por não estar trabalhando e ganhando um salário? Por que me sinto inferior por estar dependendo financeiramente do meu parceiro neste momento da minha vida?

Sinto tudo isso e tento entender de onde esses questionamentos vêm.

Tenho muita dificuldade de falar sobre esse assunto e de admitir esses sentimentos, me sinto desconfortável até em admiti-los pra mim. E é justamente por me sentir assim que decidi escrever.

Quero desenterrar esse desconforto e trazê-lo para a luz; dessa forma fica mais fácil enxergar e compreender o que me aflige.

O “estar no controle” sempre foi muito importante pra mim, mesmo que fosse um controle ilusório, ele fazia com que me sentisse segura me dando a ideia de que eu tinha algum poder. E eu sei que é só uma necessidade do ego, eu sei que são sensações que não se sustentam na realidade, mas é assim que é.

Controle e poder. O querer controlar e querer ter poder; de onde vem essa necessidade? Pra mim, vem do medo que sinto em simplesmente SER e ESTAR. Se eu não estiver no controle, quem está? Se eu não estiver no controle, significa que alguém pode me controlar?

E, no momento presente, o dinheiro me traria a sensação de estar no controle e de ter algum poder. Quando eu ganho meu dinheiro eu sou dona de mim? Quando é o outro quem paga as contas, eu pertenço a esse alguém?

Veja as coisas que viajam pela minha mente! Só consegui acessar todos esses pensamentos e sentimentos recentemente. Antes, eu só estava no piloto automático, me sentindo desconfortável sem saber com o quê.

E é óbvio pensar que basta eu arranjar um emprego e voltar a ganhar meu dinheiro e todas essas sensações irão embora. E eu até concordo com isso. Em parte. Porque tem algo mais profundo aqui. Tem algo que está pedindo meu olhar e a minha atenção. Não é só sobre dinheiro.

A necessidade que tenho de controlar (de pensar que controlo algo) e a dificuldade de receber, se estendem a, praticamente, todas as áreas da minha vida. Pra mim, é muito desconfortável receber elogios, receber carinho e afeto genuíno, receber presentes inesperados, receber dinheiro; simplesmente receber. É como se eu não fosse merecedora disso, me sinto uma impostora.

Abrir meu coração e admitir tudo isso em voz alta, em público e pra qualquer um ver, requer que eu entregue o controle que penso que tenho, requer que eu me coloque na posição de receber críticas e julgamentos ou receber apoio e escuta.

Esse é um dos motivos pelo qual estou escrevendo isso aqui, porque eu sempre soube que escrever é uma forma de cura, aliás, esse foi o tema do meu trabalho de conclusão de curso na faculdade, então resolvi usar o que eu sei. Escrevo, agora, para me entender, escrevo para buscar as peças faltantes, escrevo para levar luz à escuridão, escrevo para me curar.

Ao escrever e reler o que foi escrito, ao dar voz aos meus sentimentos e ao fazer EFT (Emotional Freedom Techniques) para liberá-los e acolhê-los, eu me conecto um pouco mais comigo, me distancio um pouco mais da necessidade do controle e me abro mais à possibilidade de receber.

O assunto DINHEIRO é amplo demais para que eu consiga limitá-lo a essas linhas; a minha dificuldade em lidar com ele, ao não conseguir me colocar no papel de merecedora, ainda requer muita atenção e trabalho interno. Por isso, esse tema ainda vai render.

Um pouco da minha jornada – Autoconhecimento

um pouco da minha jornada - doce cotidiano

Recentemente, percebi que minha busca pelo autoconhecimento é antiga. Antiga, porque ela se iniciou há mais de duas décadas, mais da metade da minha vida.

Essa jornada não começou de forma voluntária, não mesmo! O negócio é que minha mãe já não sabia mais o que fazer comigo; eu a imagino desesperada, jovem e com cinco filhos em casa (dentre eles, uma rebelde sem causa), a solução foi me levar a vários lugares, todos voltados à terapia alternativa (sou imensamente grata por essa sabedoria quase inata da minha mãe, o alternativo funciona em mim muito mais do que o velho método tradicional ocidental).

Acho que a primeira tentativa da minha mãe foi com uma acupunturista Hare Krishna. Dos três meses de tratamento, renderam alguns frutos. Me apaixonei pela acupuntura, fui apresentada ao incenso Spiritual Guide (meu favorito, infelizmente está impossível de encontrar), surgiu a ideia da primeira tatuagem (uma flor de Lótus, que era como a terapeuta me chamava) e, óbvio, um pouco de equilíbrio emocional. Como foi algo que minha mãe compartilhou comigo – ela era tratada na maca ao lado -, acho que foi importante para uma aproximação entre nós.

Depois, veio o Tai Chi Chuan. Minha irmã mais velha, minha mãe e eu fazíamos juntas. Lembro-me de ser sempre tão agitada interiormente que toda vez que tínhamos que nos sentar, colocar as mãos no segundo chakra e prestar atenção na nossa respiração, eu sentia enjoo. Acho que precisei de muitos anos até conseguir fazer isso sem querer vomitar. Ganhei um livro sobre os chakras nessa época e eu o tenho até hoje.

Então, nesse mesmo espaço onde eram dadas as aulas de Tai Chi, tinha um guru (me lembro que o chamavam assim) e minha mãe resolveu que eu precisava me consultar com ele. Só entrando na fase adulta eu descobri que nossas sessões foram baseadas na PNL – Programação Neurolinguística. Um bom tempo depois, eu e minha mãe fizemos um workshop de PNL em SP e foi incrível.

Na época da faculdade, quando começaram os estágios de atendimento aos pacientes, nossa orientadora nos disse como era importante fazermos terapia – todo terapeuta deve ter seu terapeuta. E lá fui eu, para as minhas primeiras sessões com uma psicóloga. Desde então, já tive três terapeutas e um arte terapeuta e passei por inúmeras sessões no decorrer dos anos e, com certeza, todo esse processo enriqueceu o meu autoconhecimento; não tenho dúvidas disso.

Tive o meu período de negação, de esquecimento, de viver no piloto automático, de total desconexão comigo, e isso aconteceu enquanto eu trabalhava no banco. Foi a fase da minha vida em que mais adoeci. Ainda assim, foi um momento muito importante, pois grande parte dos profissionais com os quais me consultei para aliviar as dores físicas, me ajudou a voltar a olhar pra mim.

Depois que saí do banco fiz um programa de autoconhecimento que me ajudou a criar mais algumas rachaduras na minha couraça. Foi meio como um renascimento, principalmente pelo fato de ter me apresentado tantas coisas novas e pessoas incríveis que seriam meus guias nessa nova etapa da minha jornada.

Além das pessoas e dos lugares que frequentei, tive acesso a muitos, muitos livros mesmo, e eu, como devoradora ávida de letras, amei!

Talvez, olhando de fora, você possa pensar que muito tempo foi perdido e que desperdicei energia com tantas abordagens diferentes. Mas, esse foi o meu caminho e hoje consigo perceber que tudo o que aconteceu comigo teve um motivo, nada é fruto do acaso. Todas essas pessoas que me ajudaram, todos os livros que li, todas as discussões com a minha mãe, toda essa busca sem, na época, saber pelo o quê, me trouxeram até esse momento e fizeram de mim o que sou hoje: uma amante do autoconhecimento que aprendeu a se amar enquanto se redescobria. Então, definitivamente, tudo valeu a pena.

Nenhum conhecimento é jogado fora, fica tudo guardadinho dentro da gente. E acredito que, em algum momento, todos esses “pontinhos” se conectam e nos levam a um lugar novo, inesperado e que faz muito sentido.