Autoconhecimento

A saúde e a autorresponsabilidade

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Desde que resolvi mudar meu estilo de vida, percebi a necessidade de pesquisar, estudar e me informar para que pudesse fazer escolhas mais conscientes.

O que antes ficava na mão de terceiros, agora eu precisava me apropriar.

É muito comum entregarmos nossa saúde nas mãos dos profissionais da área e nos isentarmos da responsabilidade, mas isso não estava mais funcionando pra mim.

Já me consultei com uma infinidade de profissionais e, como acontece em toda profissão, sempre existe o mau e o bom profissional. Sempre existe aquele que vai um pouquinho além e te enxerga em toda a sua complexidade, e existe o outro que parece apenas seguir uma cartilha, como se todo ser humano fosse igual e funcionasse da mesma maneira.

Por anos e anos eu tive uma alteração no meu Hemograma e o médico do trabalho me dizia que era comum e que eu não precisava me preocupar. Eu confiava no que ele me dizia e não fui atrás para saber o porquê daquela alteração.

Ano passado resolvi assumir definitivamente a responsabilidade pela minha saúde física, mental e espiritual. E foi aí que muitas respostas chegaram.

Aquela alteração que o médico do trabalho dizia ser comum, era de fato comum, mas isso não a tornava não prejudicial, ela estava relacionada com a minha insuficiência de vitamina B12. Talvez, por eu ainda comer carne na época, ele não conseguiu relacionar os meus sintomas ao resultado do exame, talvez ele não soubesse interpretar um hemograma (coisa assustadoramente comum na classe médica), talvez ele não soubesse que a deficiência de B12 não afeta somente vegetarianos estritos, mas também pessoas que consomem carne, ovos e laticínios, ou talvez ele só quisesse atender logo o próximo paciente para ir embora dali.

Eu estava com uma insuficiência de B12 alarmante, e estive assim por muito tempo, e como eu não sabia interpretar um hemograma e confiei no que aquele médico me disse, muitos dos sintomas que eu tinha não eram relacionados à sua real causa.

É claro que depois de muita pesquisa por minha própria conta e de perceber que havia algo errado, procurei outro profissional, fiz vários exames que constataram o que eu já sabia. Faço a reposição vitamínica desde então e reavalio a situação com novos exames a cada três meses.

Tudo isso me fez perceber a importância de nos conhecermos bem, em todos os aspectos. É muito importante sabermos ouvir o que nosso corpo nos diz. Ele sempre se comunica com a gente, seja por um desconforto após ingerir determinado alimento, pelo cansaço que pode advir da falta de ingestão de água na quantidade necessária ou por uma dor de cabeça se comi muito açúcar. Cada organismo reage de determinada maneira e cabe a nós interpretarmos esses sinais.

Talvez, o que dificulte isso seja a sua desconexão consigo mesmo. Se quando chega uma dor de cabeça você já engole um comprimido, se quando está com azia ingere outra cápsula, e não se dá a chance de perceber o que pode ter causado aquele sintoma, você pode perder a oportunidade de conhecer melhor os sinais que o seu corpo está te dando de presente. Todo sintoma tem uma causa, seja ela física ou emocional.

É claro que não tem como saber tudo sobre tudo e que, em muitos momentos, precisaremos confiar em outras pessoas para nos darem as respostas que não encontramos sozinhos. Mas é importante que a gente saiba que assumir a responsabilidade pela nossa saúde não é só ir ao médico e fazer exames regulares para verificar se está tudo bem.

Nenhum profissional conseguirá conhecer o seu corpo tão bem quanto você mesmo.

Me libertando da prisão

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A ideia de escrever e postar é uma forma de não me sentir sozinha com as minhas loucuras. Porque quando eu escrevo, eu as tiro um pouco de mim e, quando eu as compartilho, encontro outras pessoas que se identificam com o meu funcionamento por também funcionarem assim.

A exposição me deixa vulnerável às críticas, eu sei, mas isso já não é tão assustador quanto antes porque estou acostumada ao bombardeio interno. São décadas de autocrítica impiedosa e isso me faz perguntar, por que, quando se trata de nós mesmos, somos sempre tão rigorosos em julgar e punir? Descobri que ninguém pode me ferir tanto quanto eu mesma.

Você também faz isso consigo? Você se critica por cada pequeno erro? Se julga por cada ação desastrosa? Se culpa por cada mero deslize?

Já há um tempo estou trabalhando a culpa em mim, porque, sinceramente, ela não serve pra nada. Me arrepender por um erro cometido, pedir perdão e me perdoar e estar atenta para não errar o mesmo erro de novo, isso sim tem alguma serventia para o meu crescimento. Mas o sentimento de culpa, esse só me prende e castiga, ele me impede de tentar melhorar, ele me subjuga e me mantém num ciclo de dor e autopunição sem fim.

Fico aqui me perguntando de onde vem a necessidade desse castigo. Em que momento aprendemos que precisamos nos culpar por tudo e, ainda pior, por que entendemos a culpa como algo bom e necessário?

Sério, pensa comigo. Lembre de algo que você tenha feito e que foi considerado errado, por você e pela sociedade. Lembre da culpa que você sentiu. Sinta de novo esse sentimento e me diga o que ele traz a você. Ele te faz querer ser alguém melhor? Ele te move em direção ao autoperdão? Ele te mostra que você é um ser humano passível de erros e que só dá o melhor que você tem pra dar em cada situação? Ou ele só te põe pra baixo?

A culpa prolongada imobiliza e impede o crescimento, ela nos faz adoecer, mental e fisicamente. Quando tiver um tempinho, busque por SENTIMENTO DE CULPA na internet e veja a quantidade de textos discorrendo sobre o assunto e afirmando como esse sentimento nos é nocivo.

Então, mesmo sabendo de todo o mal que nos causa, por que ainda enveredamos por esse caminho? Que parte nossa busca essa prisão?

É necessário um exercício no espelho, olhando pra dentro de si e procurando a origem da sua busca pela perfeição e pelo controle. Porque o sentimento de culpa guarda uma relação estreita com a necessidade de controlar, com o perfeccionismo, com o nosso ego, mas não me sinto habilitada para discorrer sobre assunto aqui.

A culpa, ou é melhor dizer arrependimento, pode ser boa até o ponto que nos faz avaliar nossos pensamentos e ações, nesse sentido ela pode ser útil, mas quando se torna algo prolongado e que toma conta de nós, ela nos adoece.

A culpa nos prende.

O autoperdão nos liberta.

Tentando deixar a rigidez de lado

Estava aqui pensando no quanto tenho de rigidez dentro de mim, no quanto posso ser inflexível com os meus pensamentos e na minha forma de encarar a vida, no quanto tento impor minha verdade para o meu parceiro, principalmente, e na minha dificuldade de não julgar/respeitar a verdade do outro.

Admitir pra mim mesma essas características das quais não me orgulho faz parte da minha jornada de autoconhecimento. Reconhecer as minhas imperfeições, que são tantas, e tentar lidar com elas da melhor forma possível tem sido um belo desafio.

Cada um tem suas crenças ou a falta delas, e cada um vive de acordo com o que acha certo ou de acordo com o que os outros acham certo e, baseado nisso, fazem suas escolhas.

As minhas crenças foram mudando com o tempo, mas certas coisas permaneceram imutáveis em mim.

Eu acredito que exista muito mais do que podemos ver e compreender, neste e em outros mundos. Acredito que o Universo é grande demais para que nos coloquemos como o centro dele, como sendo a única forma de vida inteligente que nele habita.

Acredito que a morte terrena seja só uma passagem e que esse ciclo de vida neste plano é só uma pequena parte de tudo o que já vivi e ainda vou viver.

Acredito que estamos todos interligados energeticamente – seres humanos, animais e natureza – e que o mal feito a um afeta a todos.

Acredito que encarnei aqui como parte do meu processo evolutivo espiritual e que esse ciclo ainda se repetirá incontáveis vezes, neste ou em outro planeta.

Acredito na ação e na reação, mesmo que a reação não seja imediata.

Acredito na luz e na sombra, no bem e no mal, e que são as minhas atitudes, pensamentos e escolhas que me levarão para perto de um ou de outro. Mas sei que ambos fazem parte de mim.

Acredito que o mal pode ser contagioso, assim como o bem também é. Eu realmente acredito que gentileza gera gentileza.

Acredito na natureza. Na sua beleza, no seu poder de regeneração e cura, na sua energia pura e na sua sabedoria infinita.

Acredito no Amor, mesmo que eu ainda não saiba amar.

Essas são algumas de minhas crenças e de acordo com elas tento viver a minha verdade.

Tenho me questionado bastante ultimamente. Esse olhar atento é uma vigília às minhas atitudes e pensamentos e me faz perceber que os aprendizados são diários e que escorrego vezes sem fim.

Me percebo como um bebê aprendendo a andar, tentando se levantar, caindo, perdendo o equilíbrio, engatinhando e persistindo. Eu levanto, caminho um pouco, me desequilibro e caio, levanto de novo, caminho mais um pouco e lá vou eu pro chão outra vez.

Acho que isso faz parte do crescimento, né? Tudo o que está vivo passa por um processo evolutivo e tudo muda com o tempo, mesmo aquelas pessoas que dizem não mudar nunca.

Então o que me resta é me tornar o mais maleável possível para não quebrar sob fortes vendavais e tempestades. Meu corpo sempre teve a sua maleabilidade inata, meu desafio maior é com a minha mente.

Mudar: morrer e renascer dentro de mim!

Mudar: morrer e renascer dentro de mim! - doce cotidiano

Estava aqui pensando no tanto de mudanças que podem acontecer num curto espaço de tempo e no quanto nossas vidas podem mudar a partir de pequenas escolhas e atitudes diferentes das de antes.

Há seis meses atrás eu estava morando em Campinas, no centro cinza da cidade, num apartamento já pequeno para nós dois, sofrendo horrores no calor, tanto dentro quanto fora de casa. Eu não tinha muita vontade de sair caminhando por aí e minhas saídas se restringiam a alguma atividade específica, como fazer compras ou ir à consultas médicas.

Eu desejava ser voluntária num asilo, mas o fato de ser distante de casa e precisar pegar duas conduções me desanimava muito, então eu não fazia nada. Meus planos só ficavam no campo mental. Nada de ação!

As pessoas que eu conhecia na cidade eram ex colegas de trabalho e funcionários dos comércios que eu frequentava.

Eu passava a maior parte do tempo sozinha entocada no apartamento e achava que estava tudo bem em ser assim.

E então, enquanto eu visitava meus irmãos na Estônia no começo do ano, soube que mudaria pra Curitiba e tudo aconteceu enquanto eu ainda estava lá. Quando voltei pro Brasil, percebi que a realidade que eu havia vivido nos últimos anos não mais existiria. Meu apartamento já não era mais meu e meus objetos estavam morando em caixas na casa do meus pais, aguardando a minha chegada.

Essa mudança foi muito mais do que uma mudança de estado/cidade porque algo aconteceu dentro de mim. Uma parte minha que estava adormecida, despertou.

Meu novo apartamento, extremamente gelado, me fez sair de casa e, ao sair caminhando sem rumo pelo bairro, fui encontrando um novo caminho.

Descobri um asilo na rua de baixo de casa e vou lá duas vezes por semana.

Outros dois dias da semana eu vou num Centro Espírita que também não é muito distante do meu apartamento. Aproveito minha disposição pra caminhar e vou a pé. Além das pessoas incríveis que encontrei e que me receberam tão bem, o reencontro com a doutrina está me fazendo olhar pra mim e para as minhas atitudes com um pouco mais de atenção.

É engraçado pensar que fui encontrar meu lar tão longe de casa!

Não sei o dia de amanhã, ninguém sabe não é mesmo, por isso não posso afirmar quanto tempo ainda ficaremos por aqui. Mas enquanto aqui estou, vou formando meu lar com antigos e novos afetos, para poder carregar comigo bem dentro de mim para onde eu for, no lugar onde tudo mora, onde tudo vive, onde tudo cresce, morre e renasce, quantas vezes preciso for.

Tentando mudar o foco

Uau, quanto tempo sem aparecer por aqui. Mas, pelo menos dessa vez, eu não fiquei sem escrever, só deixei de postar. É que tantas coisas aconteceram nesses últimos meses que eu precisei de um tempo pra processar, tanto os acontecimentos quanto os sentimentos decorrentes.

Às vezes a gente só precisa de um tempo pra si, né.

Bom, com tudo o que aconteceu, acho que o maior aprendizado, aquilo que eu não posso esquecer, é a colocar as coisas em PERSPECTIVA. De vez em quando eu preciso voltar ao passado recente e recordar dos momentos vividos para que eu possa olhar meu momento presente de outra forma.

Não é segredo que sou imatura emocionalmente, que me deixo levar facilmente pelos sentimentos e que isso gera muito estresse desnecessário na minha vida. Eu estou bem consciente disso, mesmo nos momentos que minha criança birrenta interna surge, eu estou plenamente consciente de mim, mas nem por isso estou no controle. Ainda me deixo guiar pela sombra.

Então, como preciso viver e reviver certas coisas para aprender, como preciso de lembretes diários para recordar e fazer melhores escolhas, fiz uma lista do que acho mais importante.

  • Deixar de encarar os desafios como problemas
  • Não colocar peso no que poderia ser mais leve
  • Olhar meus medos de frente e questioná-los
  • Lembrar que sempre há algo pelo o que ser grato, mesmo quando nos sentimos na merda
  • Entender que cada um tem a sua jornada e que eu não posso viver a dor de ninguém, mas posso ajudar
  • Lembrar que o “peso” que me é dado eu posso carregar, mas não preciso aumentar o fardo com pensamentos e atitudes negativas
  • Não ter pressa, respeitar meu ritmo de aprendizado e viver um dia de cada vez
  • Na completa escuridão, acender algum ponto de luz, nem que essa luz esteja do lado de dentro
  • Olhar para o outro ajuda a mudar o foco
  • Uma fralda cheia de merda pode ser um grande presente.

Com certeza tem muitas outras coisas que deveriam entrar nessa lista e eu me esqueci, mas como estou tentando diminuir o ritmo da minha mente e me cobrar menos, por enquanto está tudo certo.

Tirando algumas máscaras

Porque eu quero poder ser quem eu sou, eu preciso tirar algumas máscaras, tanto as físicas quanto as emocionais.

Quando eu me exponho aqui nesse espaço estou me mostrando vulnerável e sei que posso me magoar com os comentários e atitudes advindos dessa exposição. Aliás, esse foi um dos motivos que me fez parar de escrever por um tempo; o medo. Mas esse também foi um dos motivos que me fez voltar a escrever; eu estava cansada de fugir do que eu queria fazer e eu sabia que precisava enfrentar meu monstros e seguir em frente.

Estou nessa fase de tentar me livrar de tudo aquilo que me esconde e estou gostando muito disso.

Há algumas semanas atrás teve uma confraternização do trabalho do Ciro, num dia de muito sol, com tempo quente e abafado. Durante os onze anos de trabalho no banco eu nunca entrei na piscina em nenhuma dessas festas de fim de ano. Só alguns homens, as crianças e pouquíssimas “corajosas” mulheres (coisa muito rara) se refrescavam. Esse ano eu decidi dar um basta nesse meu comportamento castrador e me joguei.

Pode parecer algo bobo, eu sei, mas se você é mulher e em algum momento já sentiu receio de mostrar seu corpo, se você se escondeu e ainda se esconde e prefere ficar suando a se expor, talvez entenda a libertação que foi quando desfilei minhas celulites e flacidez. E mesmo me lembrando de todas as vezes em que não me permiti essa simples diversão de me refrescar num dia quente, não me culpei.

Não sei o que pensaram a meu respeito, não sei se julgaram meu corpo e, honestamente, estava pouco me lixando pra isso. Finalmente, um pouquinho da liberdade que eu tanto almejava pareceu surgir quando eu fiz o que eu estava com vontade, pensando somente em mim e no que eu queria fazer.

Outra máscara que comecei a retirar há um tempinho, foi a maquiagem; artifício que eu usava como um meio de proteção quando eu queria esconder minhas imperfeições de pele e que me dava uma falsa sensação de segurança pra botar minha cara no mundo. Essa função da maquiagem eu não quero mais “vestir”. Quando eu usar, e se eu usar, não será mais para me esconder, porque eu não quero mais sentir vergonha da minha aparência e de todas as marcas que fazem parte de mim.

Não sei se tem a ver com ficar mais velho, com atingir um ponto na sua vida em que você não quer mais fingir, se esconder, se fechar, não se permitir. Estou tão cansada de tentar interpretar alguém diferente de mim, porque soa falso e é extremamente exaustivo fingir pra si mesmo e pro mundo que você é alguém que não é.

Quero ser livre para viver de acordo com as minhas verdades e com tudo aquilo que faz sentido pra mim, seguindo o meu coração e não os meus medos, porque esse último já foi meu guia por muito tempo e não me fez mais feliz.

A ideia é encontrar e reconhecer cada uma dessas máscaras que criei para me proteger e, então, me libertar. É tentar não criar novas couraças e viver mais leve. É me jogar no mundo, mesmo com medo de me machucar. É ser eu mesma em cada salto no escuro, me despindo e me reencontrando em cada mergulho profundo pra dentro de mim.

Para onde estou indo?

“Quando você anda de carro à noite, o farol do carro não ilumina o caminho inteiro – por que você faz questão de saber de absolutamente tudo o que vai acontecer? Simplesmente faça o seu melhor hoje e sempre e nunca se esqueça de consultar seu coração em cada bifurcação do caminho.”

Lendo um dos textos da Flávia Melissa no Instagram, senti esse parágrafo “conversar” comigo. Eu já tinha lido algo semelhante que a Paula Abreu escreveu sobre não precisarmos saber, com certeza, aonde nossos passos irão nos levar, mas que o importante é começar a caminhar, e isso fez ainda mais sentido para o meu momento presente.

Tenho uma tendência muito forte a viver, por longos períodos, de maneira letárgica. Não faço nada, não produzo nada, enrolo o máximo possível. Então, quando acordo desse marasmo, fico elétrica e quero tudo pra ontem. Fico angustiada por estar andando no escuro e porque minha visão só alcança uns poucos metros adiante. Pra onde estou indo?

Às vezes, e só às vezes, eu gostaria de saber de antemão os resultados esperados para cada ação, mais ou menos assim: “se eu fizer um conjunto de coisas, por tantas horas e por determinado período de tempo, poderei esperar um resultado X.” Dessa forma eu não perderia tempo e não teria que enfrentar surpresas negativas.

Ok, eu sei que se as coisas funcionassem assim não teria graça, afinal, quando viveríamos os desafios que nos trazem oportunidades de crescimento pessoal? Quando aprenderíamos a lidar com as frustrações e decepções? E aprender a lidar com esses sentimentos considerados negativos é o que nos deixa fortes e resilientes.

É que tenho a sensação de estar perdendo tempo. Não é sempre que me sinto assim, mas acontece numa frequência maior do que gosto de experenciar. Parece que estou no caminho errado, fazendo a coisa errada. Mas então, me recordo da Byron Katie e seu livro Ame a Realidade e desencano um pouco.

Talvez essa dúvida toda faça sentido lá na frente, talvez eu não saiba as respostas porque ainda não é o momento de saber. Talvez, um dia, eu consiga ser ainda mais grata por todo esse turbilhão de sentimentos, todas essas dúvidas e receios, porque eu entenderei que foram eles que me levaram até lá e me transformaram na pessoa que serei.

Comunicação Não-Violenta

Por não acreditar na violência como forma de resolver as coisas e por nunca ter me envolvido em brigas com agressão física, eu não me considerava uma pessoa violenta, até enxergar a violência dentro de mim.

Ela se expressa, na maioria das vezes, através da fala; quando quero impor minhas verdades e quando discordo de alguém meus argumentos são expressos de uma forma agressiva – 99% das vezes faço isso com as pessoas mais próximas e a quem mais amo. Percebi isso há uns meses atrás. Eu já sabia que me comunicava assim, mas acho que não tinha me escutado de verdade até então. Não foi legal descobrir que guardo isso dentro de mim; não foi legal, mas foi.

Foi bom porque consegui enxergar meu comportamento agressivo no segundo seguinte à minha fala, pude me desculpar e entender que ainda tenho muito a aprender.

Minha irmã me emprestou o livro Comunicação Não-Violenta, do Marshall B. Rosenberg, e já nas primeiras páginas pude ver o quanto eu precisava disso e não sabia. Percebi que, desde pequena, a minha violência só era expressa através das palavras, talvez por eu achar que já que não estava batendo em ninguém, estava tudo bem. E sabemos que não é bem assim, não é verdade? Palavras machucam e também causam danos, muitas vezes até mais extensos e duradouros do que a ferida física.

E por muito tempo e por tempo demais, essa foi uma das minhas maiores capacidades: destruir através da palavra. Meu discurso violento sempre foi minha autodefesa, e eu me defendia atacando. Fiz isso “muito bem”, até me dar conta de que estava me destruindo também, até perceber que eu recebia a mesma mágoa que eu destilava, até enxergar a violência que me habitava e eu desconhecia.

No prefácio do livro Comunicação Não-Violenta, Arun Gandhi – neto de Gandhi -, escreveu alguns parágrafos que mexeram muito comigo e me fizeram enxergar a violência com outros olhos. Vou compartilhar algumas palavras que me ajudaram a refletir.

“Uma das muitas coisas que aprendi com meu avô foi a compreender a profundidade e a amplitude da não-violência e a reconhecer que somos todos violentos e precisamos efetuar uma mudança qualitativa em nossas atitudes. Com frequência, não reconhecemos nossa violência porque somos ignorantes a respeito dela. Presumimos que não somos violentos porque nossa visão da violência é aquela de brigar, matar, espancar e guerrear – o tipo de coisa que os indivíduos comuns não fazem.”

Era justamente o que eu pensava; eu não batia nos meus irmãos, eu não agredia ninguém fisicamente, então, eu não era uma pessoa violenta.

Você consegue admitir pra si mesmo que você pratica a violência, mesmo que não seja de forma física? É difícil, né?

Porque existem duas formas de violência, a ativa e a passiva. Na ativa eu emprego a força física, a agressão; na passiva, o sofrimento causado é mais de natureza emocional. Arun Gandhi diz que a violência passiva é mais insidiosa do que a física, porque ela gera raiva na vítima, e essa vítima acaba por responder violentamente à agressão. É um ciclo de violência e dor sem fim, porque, como ele disse, “é a violência passiva que alimenta a fornalha da violência física.”

Meu aprendizado tem sido na minha forma de me comunicar, especialmente quando estou cansada ou estressada e quando estou conversando sobre um assunto que me desestabiliza ou me comove. São nessas situações que preciso ficar ainda mais atenta. Pra mim, a não-violência é um exercício quase diário.

Quando quero mudar o mundo

Quando quero mudar o mundo - doce cotidiano

Por muito tempo, talvez por arrogância ou inocência, achei que poderia mudar o mundo. E, por não ser bem sucedida nessa empreitada, me senti fracassada, desanimada, desesperançosa.

Uma mudança de foco já teria sido suficiente pra amenizar esse peso da busca pelo impossível. Porque, na verdade, eu posso sim ajudar a mudar o mundo, e eu faço isso quando eu mudo a mim.

Mudar a si mesmo já é algo bem difícil; requer vontade, paciência e autocompaixão. Tentar mudar o outro, não só é impossível como gerará frustração, além de ser algo bem egoísta. Nessa tentativa fica subentendido que eu sei o que é melhor, que eu sei o que é certo, que a minha visão de mundo é a correta e que o outro deve viver de acordo com as minhas regras e verdades.

E por que eu estou escrevendo sobre isso? Porque eu sou essa pessoa que se acha dona da razão e da verdade, porque eu sou a pessoa que quer convencer os outros do que é certo, porque eu sou a “cagadora de regras”. Hipocrisia total, certo? Porque eu mesma vivo mudando de ideias, meus conceitos de certo e errado já mudaram muito com o tempo e acho que mudarão ainda mais enquanto eu viver. Se, na maior parte do tempo, eu não sei o que é realmente bom pra mim, se ainda estou aprendendo a me conhecer, se não sei quais são os meus limites e quais devo ultrapassar, como posso querer saber o que é melhor para o outro e como posso ditar o jeito que ele deveria agir?

Eu, que sempre me achei tão flexível e aberta, reconheci uma rigidez em mim que eu não sabia que existia. Mas, beleza, vivendo e aprendendo. Dizem que o primeiro passo para a mudança é reconhecer que você é/tem aquilo que você quer mudar. Reconheço minha rigidez, minha arrogância e prepotência, aceito que essas características fizeram parte de mim por um bom tempo e tiveram sua serventia, entendo que ainda tenho um caminho pela frente e que essa jornada nunca acaba e agradeço por, finalmente, ter aberto meus olhos para enxergar isso em mim.

Aprendi que a minha contribuição para um mundo melhor vem por meio da minha mudança interna, afinal, a gente só consegue dar aquilo que a gente tem. Como disse Sri Prem Baba:

”Muitos querem contribuir para a paz da Terra, mas não sabem como encontrar a paz dentro da própria família. Então, enquanto não há o que oferecer, não caia na armadilha de querer salvar o mundo, trate de salvar a si mesmo. Trate de olhar para a injustiça que te habita. Olhe para a violência, para o desrespeito e para a dor que te habitam. Esse é o primeiro e mais importante passo para iluminar este mundo.”

O suicídio, o escrever e a permanência

O suicídio, o escrever e a permanência - doce cotidiano

Quando eu era adolescente, pensar em suicídio era algo recorrente. Eu me odiava tanto que eu não queria mais ser eu. Eu não me sentia pertencendo a esse corpo, a essa família e a essa vida. Mas, por mais vontade que eu tivesse de deixar de existir, duas coisas me ajudaram a continuar aqui.

A primeira foi porque eu não queria “repetir o ano”. A crença no espiritismo, na época, me fez desistir de me matar porque eu não queria sofrer no pós-morte, eu não queria voltar para aprender as mesmas lições que não tinha aprendido, eu só queria que o sofrimento acabasse.

A segunda, e mais importante, foi a escrita. Quando eu escrevia poesias meio sombrias eu me suicidava inúmeras vezes e, ao me matar no papel, a vontade de sumir diminuía um pouquinho.

Hoje, quando eu me recordo dessa fase e de todos os sentimentos que a envolveram, penso nos questionamentos que eu me fazia. Por que meu eu adolescente se odiava tanto? De onde vinha tanta culpa? Por que eu não me achava merecedora de amor? Nenhuma resposta que me dei, na época, pareceu ser satisfatória.

Eu tenho uma ideia do que estava por trás dos meus sentimentos, mas ainda não estou pronta para falar sobre isso publicamente porque existem algumas caixinhas internas que eu não abri, outras eu abri mas não quis olhar o conteúdo, e as que abri e olhei estou tentando me dar um tempo pra lidar com as coisas que consigo, uma de cada vez.

Depois de tanto tempo me dedicando ao autoconhecimento, os sentimentos daquela fase da minha vida mudaram, por isso ainda estou aqui. Mas, percebo que não foi bem uma mudança de sentimento, acredito que tenha sido uma nova maneira de enxergá-los.

Coisas que eram imensas há duas décadas atrás, hoje parecem pequenas. E acho que costuma ser assim, né? Certas questões perderam o peso depois que aprendi a lidar com elas, outras questões surgiram pedindo atenção e começou tudo outra vez, mas com um pouco mais de facilidade para lidar com meus monstros.

O suicídio deixou de ser um desejo há muito tempo e nunca mais voltou a me assombrar, nem nos piores momentos. Mas por um bom tempo foi um pedido de ajuda silencioso, porque eu não expressava essa vontade pra ninguém, não de forma clara, pelo menos. Não sei se alguém conseguia imaginar o que eu sentia e pensava, porque apesar da minha escrita reveladora, eu tinha muitos amigos e estava sempre sorrindo na escola. Já em casa, a situação era outra.

Felizmente, com o passar do tempo, adquiri muitas “ferramentas” que me ajudaram a lidar com tudo aquilo que me desestabilizava, com os sentimentos que me oprimiam e com as situações que me abalavam. Mas, e se não tivesse sido assim? E se eu não amasse a escrita? E se, na época, eu não acreditasse em umbral e reencarnação? Gosto de pensar que eu teria arranjado outros meios e outras desculpas para permanecer aqui.

Fui dormir com essa lembrança na cabeça, peguei o celular e anotei no meu bloco de notas para não esquecer. Não me recordo do que trouxe esse assunto à tona, mas não consegui parar de pensar nisso e, automaticamente, inúmeras questões se formaram em minha mente.

Quantas pessoas não gostam de si mesmas? Quantas se perguntam se vale a pena viver? Quantas estão procurando um meio de tirar a própria vida?

De onde vem o sentimento de não pertencimento e inadequação? De onde vem a falta de amor próprio? De onde vem a vontade que gera a ação? Porque existe um vão entre a vontade de se matar e o ato em si. O que constrói essa ponte e o que nos faz atravessá-la?

É algo espiritual? É algo emocional? É alguma reação química que acontece no nosso cérebro? O que nos faz “puxar o gatilho”?

Quantos pedidos de ajuda silenciosos nós não escutamos? Quantos sinais não percebemos? Quem tira a própria vida realmente quer morrer ou só quer parar de sentir/viver algo?

Eu só posso falar por mim. O que eu queria de verdade era parar de sentir o que eu sentia com tanta intensidade; acho que nunca quis morrer realmente, porque provavelmente eu teria arranjado um meio para isso. Sentir sempre foi algo bem difícil pra mim, difícil e exaustivo. Muitas vezes, ainda é. Por isso tenho meus períodos de introspecção e recolhimento como um meio de recarregar as baterias, que é quando eu me preparo para uma nova rodada de sentimentos intensos .

Ainda estou aprendendo a lidar comigo e com o meu lado mais sombrio e, às vezes, parece que esse é um aprendizado eterno. Mas, felizmente, existe a escrita. Escrever sempre foi meu melhor exercício, meu exorcismo, minha redenção, foi o que me manteve viva.

E você? Tem algo que seja a sua válvula de escape? Tem algo que te faça permanecer?