Sobre respirar e estar

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Respirar é algo vital, natural e automático, tão automático, que se torna algo imperceptível quando nossa atenção não está voltada para esse ato.

Desde que comecei a prestar atenção em minha respiração, durante as técnicas de relaxamento e de meditação, notei como sou travada. Percebi que minha respiração é curta e que só consigo expandi-la se for de forma consciente, notei também que, frequentemente, eu prendo a respiração, fico um bom tempo segurando o ar e não o deixo fluir.

Percebi que o ar circula apenas na parte superior do tronco – mais na região do diafragma, não desce para o abdômen de jeito nenhum. Sabe aquilo de sentir a barriga crescendo no momento da inspiração? Pois é, não acontece comigo. Mesmo quando sou guiada a isso, não consigo fazer de forma natural.

Mas, por que é tão difícil me permitir simplesmente respirar?

Me observando mais a fundo, percebo que reproduzo o meu respirar no meu jeito de viver a vida, meio descompassado e por vezes travado.

Me prendo a pensamentos, padrões e sentimentos e não os deixo ir. Me prendo e não me liberto. Seguro tudo por tanto tempo e só percebo quando já estou sem fôlego.

A respiração curta está refletida no meu medo do que é intenso e daqueles sentimentos tão profundos e assustadores que chego a bloquear qualquer possibilidade de expansão, e meu abdômen não quer expandir porque passei grande parte da minha vida colocando a barriga pra dentro – na tentativa de parecer magra -, e com esse “treino” diário, segurar a respiração se tornou natural pra mim.

Essa junção de acontecimentos e sentimentos que me travam quando eu não estou consciente do meu respirar, são o resultado da soma de uma mente inquieta e de uma desconexão com meu ser na tentativa de ser quem eu não sou.

Se eu não estou totalmente presente no meu corpo e na minha mente, quem está respirando por mim?

Você já prestou atenção ao seu modo de respirar? Percebeu alguma relação entre esse ato inconsciente e o seu jeito de viver a vida e encarar as emoções? Já se perguntou quem está respirando por você quando você não está presente no momento presente?

Resetando meus preconceitos – o que define meu valor?

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Mesmo sabendo que nenhum momento dura pra sempre, me pego com receio de continuar na mesma situação indefinidamente.

Meu período sabático já acabou, e não porque eu estou trabalhando de novo, mas porque agora me considero desempregada.

Foram três anos separados pra cuidar de mim, estudar o que tivesse vontade, viajar, me conhecer melhor e descobrir o que eu queria fazer dali pra frente.

E o que eu descobri?

Descobri que sei um pouco menos do que pensava saber e que por mais que eu descubra coisas novas sobre mim, ainda restarão muitas partes escondidas esperando para serem descobertas, descobri também que o meu propósito de vida talvez não seja a fonte do meu sustento e que, não importa quanto tempo passe e nem o quanto eu amadureça, ainda vou me sentir uma adolescente perdida em muitos momentos da minha vida.

Ao mesmo tempo em que soa como uma perspectiva desesperadora, também me dá um pouquinho de conforto porque ajuda a tirar o peso de ter que saber tudo sobre mim, de ter que ganhar dinheiro apenas fazendo aquilo que amo e de ter que ser um modelo de maturidade e segurança, porque eu definitivamente não sou.

No segundo semestre do ano que passou, senti um pouco do peso por não estar trabalhando, não porque estivéssemos com dificuldades financeiras, mas porque eu tive que lidar com alguns preconceitos meus. E eram apenas questões minhas mesmo, porque foi o meu parceiro que me incentivou a pedir demissão e que sempre me apoiou em todas as minhas decisões, as sãs e as mais desvairadas.

É como se a única contribuição que eu pudesse dar fosse financeira, porque eu teria menos valor por “apenas” contribuir com as atividades da casa. Fazer as compras, cozinhar, lavar roupa, estender e guardar, limpar a casa e manter tudo organizado … por mais que uma casa não funcione muito bem sem que todas essas coisas sejam feitas, elas me soavam (e ainda soam) como um trabalho sem mérito. E, racionalmente, eu sei que não deveria pensar assim.

Meu parceiro passa o dia todo fora, sai cedo para o trabalho e só volta tarde da noite ao sair da faculdade, nas madrugadas e nos finais de semana sempre tem milhares de trabalhos do curso para fazer, ele teria que ter um clone pra dar conta de tudo e ainda cuidar da casa e mantê-la funcionando.

O nosso acordo na época foi que eu cuidaria de tudo para que ele não precisasse se preocupar com essa questão. E, por mais incrível que me pareça, eu realmente gosto de fazer isso. Eu curto cuidar dele, eu curto preparar comidinhas saudáveis para ele levar, eu curto quando ele curte a minha comida, eu curto até dobrar as roupas e guardá-las no armário. Eu realmente faço isso com prazer, na maior parte do tempo (porque tem dias que eu só gostaria de ficar lendo e é isso que faço) e me considero uma boa dona de casa, não por fazer tudo perfeito, mas por fazer com amor. Se as donas de casa fossem remuneradas, talvez essa fosse a minha profissão.

Mas não é assim, cuidar da casa e de quem a gente ama não é considerado um trabalho que mereça remuneração e direitos garantidos, sob o ponto de vista das leis trabalhistas, então, no fim das contas, eu estou mesmo é desempregada.

E isso tem pesado de uma forma que eu não consigo entender. Eu chego a sentir vergonha quando tenho que responder qual a minha profissão e a palavra “desempregada” é dita. Talvez por pensar que eu perdi meu momento, ou por ter mandado vários currículos e não receber nenhuma resposta, ou por ter medo de descobrir que só tenho competência para trabalhar em banco e saber que essa não é mais uma opção pra mim (voltar para o banco seria a minha aposentadoria por invalidez).

Então, fico me analisando e buscando a origem desse medo e desse preconceito, e chego a pensar que continuo nessa situação para aprender a lidar com meus monstros. Sigo assim para reconhecer que nenhuma situação é permanente, para entender que todo trabalho honesto é digno, e que meu valor não está ligado a um número depositado mensalmente na minha conta bancária. Mas ainda é muito difícil, pra mim, desvincular o valor pessoal do valor financeiro!

Cheguei a pensar em fazer algo por conta, mas acho que já me conheço um pouco pra reconhecer que não sou esse tipo de pessoa. Eu mudo de ideia a todo instante, não me considero uma pessoa persistente e organizada pra conseguir produzir e gerenciar sozinha de modo satisfatório. Então, pra onde ir e o que fazer?

Na verdade, no momento não importa muito o onde ou o que, porque enquanto eu criar empecilhos com os meus medos e preconceitos, não me vejo saindo do lugar.

Estou tentando resetar minhas antigas crenças para criar um espaço em branco na esperança de preenchê-lo com algo novo, mais leve e sem autojulgamentos.

Sonhos para 2018 e para a vida

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A virada de ano se aproxima e, geralmente nessa época, costumamos fazer uma análise do ano que está terminando. O que fizemos? O que aprendemos? O que realizamos e o que deixamos pra depois? O que fizemos de bom e o que podemos melhorar?

Nesse momento de reflexão, podemos rever algumas atitudes e costumes antigos que já não nos servem mais e que já não fazem mais sentido. Nós evoluímos com o passar dos séculos e não precisamos mais viver como nossos antepassados viviam. Arranjar desculpas para as nossas escolhas que impactam negativamente na vida dos outros já não funciona mais.

Se todos nós sonhamos com um mundo de amor e de paz, como podemos compactuar com a violência, a tortura, o confinamento e o sofrimento de milhares de animais que são “criados” para segundos de prazer gustativo e para o enriquecimento de alguns poucos humanos?

Se todos desejamos um país governado por políticos decentes, justos e éticos, como podemos justificar as nossas pequenas corrupções do dia a dia?

Se todos nós queremos viver livres e sem julgamentos e se queremos ser respeitados por quem somos, por que continuamos cerceando a liberdade alheia com os nossos comentários e escolhas?

Se queremos que o nosso espaço seja respeitado, precisamos respeitar o espaço do outro, então, por que ainda soltamos fogos de artifícios barulhentos? Já é fato sabido que atormentam tantas pessoas, principalmente crianças e idosos; que machucam vários animais – ou atingidos diretamente pelos fogos, ou que se ferem tentando fugir e se proteger – e que, muitas vezes, causam suas mortes. Será que não somos capazes de festejar algo sem incomodar ou ferir alguém?

Será que só o meu prazer e desejo importam, mesmo quando eles causam o mal a milhares de vidas?

Não adianta esperar por um ano diferente e melhor se continuamos fazendo tudo igual. Não adianta querer receber amor se propagamos a dor diariamente com as nossas escolhas. Não adianta pedir pela paz e, no dia a dia, disseminar a violência.

Então, pra esse novo ano que se inicia, eu desejo que a gente aprenda a olhar mais para o outro e menos para o próprio umbigo, e que quando olharmos para o nosso umbigo que seja para nos conhecermos melhor e para cuidarmos da nossa saúde mental, física e espiritual.

Que a compaixão pelo outro seja diária e que ela comece no prato, e assim se estenda a todas as nossas ações e a todos os seres.

Que a gente entenda, de uma vez por todas, que o planeta Terra é a nossa casa e que não existe lado de fora. Todo o lixo gerado e descartado aqui, aqui permanece.

Que possamos nos desapegar dos excessos, de posses e de sentimentos destrutivos.

Que possamos olhar a dor do outro e senti-la como parte de nós.

Que possamos abrir mão de alguns segundos de prazer que causam a dor e a morte de milhares de seres de amor.

Que sejamos luz e que possamos iluminar a escuridão que nos habita.

Nos vemos de novo em 2018.

O reencontro com o feminino

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Recentemente fui bombardeada – no bom sentido – pelo feminino, tanto em workshops para mulheres como em conversas com as mais variadas pessoas. E isso me fez pensar e questionar tantas atitudes e escolhas, antigas e atuais.

Minha relação com o feminino sempre foi conturbada, e não estou falando da minha relação com outras mulheres, mas sim de algo interno. O “ser mulher” era algo que me remetia à vulnerabilidade, e como eu entendia vulnerabilidade como fraqueza, me sentia frágil na minha condição feminina.

Me lembro de uma necessidade de não querer ser vista e desejada pelos homens, a não ser que fosse pelo carinha que eu estivesse interessada na época. E, na tentativa frustrada de tentar me esconder e me fazer invisível, eu fui brigando internamente com todas as mudanças que ocorriam no meu corpo e na minha mente.

Não sei dizer quando tudo isso começou, mas talvez exista uma causa externa da qual eu não me lembro com clareza. Nos últimos anos alguns pensamentos relativos à minha infância começaram a surgir, como flashes, mas não posso chamá-los de memórias porque eu não sei se são reais já que até hoje fica tudo meio nebuloso. Às vezes, é mais como uma sensação e algo desperta no fundo da minha mente, para logo em seguida desaparecer.

A questão é que, desde cedo, comecei a brigar com minha feminilidade e com o que ela representava pra mim. Ser mulher me colocava fraca e vulnerável à força dos homens e aos seus desejos pelo meu corpo. Mas, como esconder o meu corpo? Por mais que quisesse desaparecer, eu não conseguia.

Me senti violada inúmeras vezes, nas palavras que me sussurraram nas ruas e nas mãos que me tocaram sem a minha permissão. E, sabendo que aquilo também acontecia com quase todas as mulheres que eu conhecia, esse desejo de ser invisível só aumentava.

Foram décadas nessa briga interna com o que ser mulher representava pra mim e eu levei um bom tempo pra entender que vulnerabilidade e fraqueza eram coisas diferentes. Aliás, demorei pra entender que era preciso muita força para expor a própria vulnerabilidade.

Foi só no encontro com outras mulheres que eu iniciei meu reencontro comigo, e no reconhecimento da força que nelas reside eu pude vislumbrar um pouco da força que vive em mim. E então, eu comecei a fazer as pazes com o meu útero, com o meu corpo e suas mudanças hormonais e físicas, com a minha menstruação e até com a cólica que dói horrores. Comecei a entender meu ciclo e sua interferência no meu humor, na minha pele, nos meus cheiros e desejos. Redescobri a bruxa que sempre me habitou e reassumi a responsabilidade pela minha saúde na tentativa de me cuidar da forma mais natural possível, e comecei a estudar sobre os óleos essenciais e suas funcionalidades e sobre a alimentação feita de forma mais intuitiva e consciente.

É engraçado, sabe. Eu cresci ouvindo que a relação entre mulheres era pautada na rivalidade, mas o que tenho percebido, cada vez mais, não tem nada a ver com isso. O que eu encontrei foi essa linda irmandade que tem me ajudado demais a me entender melhor e a olhar para todas as outras mulheres com um outro olhar; o da compaixão, da empatia, da admiração, do entendimento e de uma conexão que me possibilita enveredar pelo caminho do não-julgamento.

Quando eu me vejo em outras mulheres e quando vejo um pouco delas em mim – as mulheres do meu passado, as que já se foram e as que permanecem aqui; as mulheres do meu presente, que me inspiram ao me dar bons exemplos -, sinto essa força do feminino crescendo dentro de mim e posso aprender a deixar de brigar com quem eu sou e com o que não posso mudar. Porque apesar de ter começado a trilhar esse caminho quase agora – eu levei 40 anos para chegar até aqui -, acho que nunca é tarde para uma reconciliação interna.

Procura-se: compaixão, empatia e amor

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Relendo o livro AMAR E SER LIVRE, do Sri Prem Baba, me deparo com um trecho que me fez pensar na nossa CARÊNCIA de compaixão, empatia e amor.

“A cura planetária acontece de dentro para fora. Ao nos dedicarmos ao processo de autotransformação, em algum momento, poderemos contribuir também para a transformação planetária. Porque só podemos dar aquilo que temos. Só é possível dar amor se amamos, a nós mesmos e ao outro. Só podemos ajudar o outro a ser feliz se somos felizes.

Muitos querem contribuir para a paz da Terra, mas não sabem como encontrar a paz dentro da própria família. Então, enquanto não há o que oferecer, não caia na armadilha de querer salvar o mundo, trate de salvar a si mesmo. Trate de olhar para a injustiça que te habita. Olhe para a violência, para o desrespeito e para a dor que te habitam. Esse é o primeiro e mais importante passo para iluminar este mundo”.

Temos tanta dificuldade em nos colocarmos no lugar do outro e talvez por isso, agimos como agimos.

Escravizamos animais e outros humanos, simplesmente porque somos mais fortes e temos mais poder. Humilhamos aqueles que têm menos, seja a nível financeiro ou intelectual. Sentimos prazer na desgraça alheia e a compartilhamos nas redes sociais. Adoramos julgar, apontar o dedo e jogar a primeira pedra, afinal, nós é que somos perfeitos. Roubamos, agredimos, estupramos, matamos. Achamos que somos donos das vidas dos nossos parceiros, dos nossos filhos e dos animais de estimação que habitam nossos lares, e assim os prendemos em gaiolas, em correntes ou a nós mesmos. Dizemos amar os animais, mas comemos seus cadáveres, nos vestimos com suas peles, torturamos e violentamos suas fêmeas a procura do leite que não foi feito para nossa espécie e compactuamos com toda a violência envolvida nesse processo de dor.

Estamos doentes, mas infelizmente não é só no campo físico, porque se assim fosse, seria mais fácil de tratar. A pior doença é na nossa espiritualidade e moralidade. Somos miseráveis no autoconhecimento, no amor próprio e no amor ao próximo.

Quando eu me odeio e estou infeliz, se torna insuportável ver a felicidade do outro, então eu quero destruí-la. Quando me sinto preso às normas e regras que eu mesmo criei pra mim, a liberdade com que o outro vive me ofende. Quando eu penso que o outro tem mais posses do que eu, eu o invejo. Quando me sinto feio, a beleza do outro precisa ser diminuída. Quando não consigo lidar com os meus sentimentos, eu os jogo em cima do outro. Quando não sei dialogar, eu grito. Quando não consigo perdoar, me ressinto e guardo mágoa. Quando não sou capaz de ver algo, eu nego a sua existência. Quando quero continuar errando, arranjo desculpas. Quando não quero enxergar a realidade, me cubro com a fantasia. Quando o outro não vive de acordo com a minha verdade, ele está errado e precisa mudar. Quando eu digo que amo, espero que seja recíproco, mas quando digo que odeio, não aceito a reciprocidade.

Aí você pode me perguntar, e como a gente muda isso? Sinceramente, não sei.

Talvez o primeiro passo seja conhecermos a nós mesmos. Reconhecer, em nós, aquilo que não gostamos e queremos mudar; olhar no espelho, bem dentro do olho daquele reflexo que, muitas vezes, tanto odiamos e criticamos, e redescobrir as nossas qualidades perdidas e trazê-las à tona; identificar as nossas contradições, que são tantas, e tentar diminuí-las na nossa rotina.

Quando aprendo a me amar e quando respeito quem eu sou, fica menos difícil amar o outro e respeitar quem ele é. E, quando eu aprendo a amar e respeitar o outro, eu entendo que ele tem tanto direito a vida quanto eu e que a liberdade que eu quero pra mim é a mesma que é de direito dele (humano ou animal).

Ok, não vou ser hipócrita e dizer que escrevi isso somente para o OUTRO, porque esse OUTRO também sou eu. Tenho a minha longa jornada de aprendizado pela frente e, apesar de já ter despertado para alguns aspectos, ainda estou adormecida para outros.

Quero viver com menos contradições e seguir aquilo que prego. Quero me amar ao ponto de só existir amor pra dar, pra mim e para o outro. Quero acreditar que, mais cedo ou mais tarde, estaremos todos despertos e não mais compactuaremos com a violência, direta ou indiretamente.

Se eu consegui mudar tantas coisas em mim, acredito que você possa fazer o mesmo. Eu sei que sair da zona de conforto pode ser bem dolorido, mas é uma dor passageira e a recompensa vale a pena. Eu sigo nesse intuito, aos tropeços e ainda falhando, encontrando outros como eu pelo caminho.

Espero que nossos caminhos se cruzem nessa busca e para isso eu te desejo uma jornada profunda, intensa e reveladora.