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Me fazendo de vítima

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“Fingimos ser frágeis e coitados para que o outro faça tudo do jeito que queremos, ou para nos eximirmos da responsabilidade de buscar a própria felicidade. Estando no papel de masoquista, nos colocamos como vítimas indefesas da maldade do outro, sem assumir responsabilidade pela nossa própria miséria.” AMAR E SER LIVRE, Sri Prem Baba

Ah, a vítima! Esse papel é tão familiar. Não é uma posição da qual eu me orgulhe, mas é algo que fez parte de mim por muito tempo e, de vez em quando, ainda faz. Esse foi o meu modo de agir, sempre esperando que os outros resolvessem as minhas questões e entregando a responsabilidade da minha vida nas mãos de terceiros.

A vítima surgia, principalmente, dentro do meu núcleo familiar. Percebo que entrei nesse papel de ser incapaz e frágil, acho que querendo ser protegida. Não sei dizer quando isso começou, mas sei que é um processo antigo. A minha rebeldia adolescente foi isso, uma maneira desesperada de buscar atenção; e eu conseguia, mesmo que fosse de forma negativa.

Entenda que, pra mim, nada disso aconteceu de forma consciente. Eu não ficava maquinando como agir e o que fazer, eu simplesmente fazia.

Depois desses anos olhando pra mim e me conhecendo um pouco mais, depois de ter iluminado algumas das minhas sombras e de ter desenterrado alguns traumas e bloqueios passados, consigo ver que a criança que eu fui tinha um sentimento muito forte de não pertencimento.

Todos nós, em algum momento da vida – e não importa se recebemos amor e se tivemos uma infância mágica – passamos por situações desafiadoras e interpretamos esses fatos de uma maneira bem individual, baseados nas nossas experiências passadas, no nosso grau de sensibilidade, nas nossas crenças, na forma como enxergamos o mundo e a nós mesmos.

Tenho quatro irmãos, fomos criados pelos mesmos pais, com as mesmas regras e hábitos (principalmente os três filhos mais velhos, grupo do qual faço parte) e somos completamente diferentes. Entendemos as coisas e acontecimentos de maneiras diversas, temos lembranças e sentimentos diferentes com relação a um mesmo acontecimento, nossos temperamentos não são iguais, nossa forma de encarar a vida também é individual. Isso, possivelmente, reflete que cada um sente as coisas de um jeito; algo que foi tranquilo pra um, pode ter sido um evento traumático pra outro.

Hoje revisito esse lugar para entender meus comportamentos atuais e me sinto um pouco mais próxima de acolher e ressignificar minhas atitudes antigas. Porque é apenas isso que posso fazer com o meu passado; olhá-lo e ressignificá-lo.

Isso não quer dizer que nunca mais viverei esse papel de vítima, não quer dizer que nunca mais cometerei erros e que tudo será diferente daqui pra frente. Eu ainda estou aprendendo e o aprendizado continua pela vida afora com ensinamentos diferentes à medida que “passamos de ano”, e é uma jornada que nunca acaba. Eu só estou um pouco mais atenta a alguns aspectos do meu comportamento, reconhecendo a minha responsabilidade em todas as minhas escolhas e suas consequências.

Às vezes, é dolorido. Nem sempre estou disposta a reconhecer certas partes como minhas.

Porque quando a vítima surge, eu quero me entregar a ela porque parece ser mais fácil seguir por esse caminho; a autorresponsabilidade me faz entrar em contato com as sombras que mantive intocadas dentro de mim e nem sempre estou pronta para abraçar os meus monstros. Às vezes, só quero voltar a ser protegida, e tenho vontade de entregar toda essa responsabilidade nas mãos de alguém e esperar que esse outro me faça feliz e supra todas as minhas necessidades. Mesmo sabendo que é impossível ser feliz assim, tem dias que só gostaria de voltar a adormecer. Porque dói, tem dias que dói muito.

Mas, com dor ou sem dor, viver na realidade ainda é muito mais interessante do que viver na ilusão criada por nossas máscaras.

Por isso, quando percebo e reconheço esse papel que interpretei por tanto tempo, aceito que fiz o que sabia fazer e que dei o melhor que tinha pra dar na época. E não é o que todos fazemos? Nós damos o que temos pra dar. E está tudo bem!

E então, ao adquirirmos mais consciência sobre nós mesmos, ao percebermos as nossas ações frente às variadas situações, ao entrarmos em contato com nossos sentimentos, com as nossas sombras e com o que mantivemos escondido, chega o momento de assumirmos a responsabilidade por nossos sentimentos, escolhas e atitudes. E, mesmo que isso pareça um pouco assustador a princípio, se entender como o único responsável por sua vida e por sua felicidade, pode ser libertador.

Um novo ciclo

Um novo ciclo - doce cotidiano

Agora irei postar duas vezes na semana, toda segunda e quinta. Às segundas-feiras os posts serão como diários e, às quintas-feiras, temas diversos voltados para o autoconhecimento. Na verdade, pode ser que os dois se misturem um pouco, então vamos ver como fica daqui pra frente.

Já que é um recomeço, resolvi que o primeiro diário deveria iniciar com esse novo ciclo e, como foi meu aniversário no sábado, é sobre isso que eu quero falar.

Apesar de não ser muito fã de comemorações – quando é sobre mim -, gosto da ideia da passagem do tempo marcada em anos.

Completei 39 anos de vida e não tenho problema algum com esse número, na verdade, não me vejo tendo problema com idade alguma. Sei que os 40 serão incríveis, assim como os 50, 60, 70 e, se for muito abençoada, com os 80 e 90.

Apesar de algumas mudanças físicas que ocorreram no decorrer dos anos e que me dizem que estou envelhecendo, apesar de me considerar vaidosa e de me perguntar se lidarei bem com o efeito da gravidade nas próximas décadas, gosto de adicionar um número a mais na minha idade.

Se tem algo que você não vai me ouvir dizendo é que gostaria de voltar aos 20 com a cabeça que tenho hoje. Não tenho saudade nenhuma dos 20 anos, sério mesmo. Gosto tanto de quem eu me tornei!

Parece bobo dizer, mas tenho orgulho da minha idade. Acho lindo olhar pra trás e ver quantas coisas já vivi; quantos amores, quantas dores, quantas alegrias e aprendizado. 39 anos pode parecer pouco, mas também pode ser muito dependendo de como você viveu sua vida.

Então, nesse sábado, encerrei um ciclo de vida e iniciei outro e fui presenteada várias vezes com lindas demonstrações de afeto.

Minha família veio me visitar e, apesar de nenhum deles ser vegano e nem vegetariano, foram comigo num restaurante vegano da cidade onde moro. Não é a coisa mais linda?!

A presença do meu sobrinho já é um presente em si. Ser humaninho tão carinhoso e sensível, tão cheio de amor que me inunda e transborda toda vez que me chama de tia Xuxu. Basta eu me lembrar da voz dele me chamando que fico feliz por horas.

Recebi muitas mensagens e ligações carinhosas de pessoas que eu amo e uma linda surpresa vinda de um novo amigo. Um desenho meu, cheio de carinho e cuidado até nos detalhes das minhas tatuagens. Tocou tão fundo meu coração que me deu vontade de pegar um avião pra Curitiba só pra encher esse guri de abraços e beijos.

Foram tantos gestos de amor que fiquei pensando. Às vezes, a gente só valoriza aquilo que é palpável, aquilo que podemos usar, guardar, mostrar; e é legal ganhar presentes pensados em você, não vou negar. Mas, o que mais me toca, aquilo de que nunca me esqueço, aquilo que levo comigo e que não tem como perder, quebrar e nem estragar, é o amor. Esse permanece como uma luz bem dentro de mim, que ilumina minhas sombras e medos e cura as dores e tristezas.

Esse aniversário me fez sentir gratidão. Gratidão pelo ano de muito aprendizado que eu tive, gratidão por mais um ano de vida com saúde (saúde é um dos nossos bens mais preciosos), gratidão pelas pessoas que o Universo colocou em meu caminho para iluminarem a minha jornada, gratidão pelo amor que sempre recebo e que nunca me falta e gratidão por você, que está aí do outro lado, conversando comigo!

Rótulos são para produtos, não para pessoas

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Outra noite, eu sonhei que estava com o cabelo comprido. Consigo lembrar-me bem da sensação de desconforto, de ficar prendendo-o o tempo todo e de me sentir estranha, eu me perguntava o porquê de ter deixado meu cabelo crescer de novo e pensava em cortá-lo, doar os fios para alguma instituição e raspar a cabeça outra vez.

Esse sonho fez-me lembrar de outros, de anos atrás. Eu ainda tinha cabelos bem longos e sonhava que era careca e eu estava sempre feliz, só ficava triste ao acordar e perceber que aquele cabelão ainda estava lá.

Já raspo a cabeça há uns bons anos e nunca me senti tão livre e bonita! Mas, apesar de tanto tempo ter passado e eu já estar mais do que acostumada a esse visual, minha ausência de cabelos ainda causa estranhamento nas pessoas e continuo recebendo vários tipos de olhares nas ruas, principalmente o olhar de piedade, e eu até entendo. Não é muito comum vermos mulheres carecas andando por aí.

De acordo com algumas coisas que já ouvi e com as perguntas que respondi, minha falta de cabelo está ligada ao câncer; ao fato de eu ter sofrido algum trauma e não querer mostrar meu lado feminino e por isso fiquei careca; a minha possível homossexualidade e a minha religião inexistente. A minha vontade de ser quem sou nunca foi considerada. Afinal, por que uma mulher deseja não ter cabelos?

O diferente costuma despertar nossa curiosidade e a nossa necessidade de entender, enquadrar, rotular. E ok, nós fazemos isso com tudo e todos que parecem não se encaixar nas nossas definições de “normalidade”, a gente sente que precisa nomear essas diferenças que nos cercam e fazemos isso de acordo com o que é a NOSSA verdade. Sim, nossa! Minha, sua, dele; porque a verdade é a verdade de cada um, ela não é única e soberana.

Os rótulos vêm carregados dos mais diversos preconceitos e, ao rotular, enquadramos as pessoas em certas categorias. Enquanto as “prendemos” nesses grupos que nós mesmos definimos, esquecemo-nos que o ser humano é feito de milhares de possibilidades. Somos complexos demais para sermos rotulados. Não somos produtos estáticos em gôndolas.

Quando rotulamos, perdemos. E perdemos porque restringimos. O ser humano está em constante evolução e pode se transformar várias vezes durante um mesmo dia, mas mesmo sabendo disso, ainda nos surpreendemos.

Já reparou que quando alguém “ousa” sair da pequena caixinha onde o prendemos, nos chocamos? A gente fica confuso, se frustra, se decepciona, se sente enganado. Mas, que culpa o outro tem de ser quem é e não se contentar em viver preso aos rótulos que lhe demos? E, por acaso, nós gostamos dos rótulos que nos dão e vivemos de acordo com eles?

Acho que, por já fazer parte de um hábito, nem percebemos que estamos rotulando. É algo automático, não prestamos atenção e continuamos reproduzindo essa conduta. Eu só despertei para essa questão recentemente. Desde que mergulhei em mim nesse processo de autoconhecimento, comecei a observar certas atitudes minhas e me reconheci, muitas vezes ainda, como uma rotuladora.

Percebo que estar consciente me ajuda a enxergar meu comportamento e, muitas vezes, consigo notar que estou rotulando no momento exato do ato. Nessa hora posso reconhecer os preconceitos que existem em mim e que geram minhas atitudes e repenso minha forma de agir. Não é algo que consigo fazer sempre, mas estou aprendendo e, como todo aprendizado, requer força de vontade e persistência.

Isso é realmente algo que quero fazer, deixar de rotular os outros e me libertar dos rótulos autoimpostos também. Esse desejo de mudança vai de encontro à minha ideia de liberdade e do querer ser livre. E não tem como ser livre estando presa a julgamentos.

Sobre iluminar as minhas sombras

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Estava em busca da minha raiva, esse sentimento poderoso que mora dentro de mim e que estava escondido.

Eu sempre senti raiva, de tudo! E a minha forma de lidar com ela era meio primitiva, o sentimento vinha e eu o colocava pra fora, sem filtros. Com o tempo, comecei a me sentir mal com isso porque eu magoava pessoas que eu amava, e a solução encontrada foi sufocar a raiva. Escondê-la, reprimi-la, ignorá-la.

Por um tempo, pareceu dar super certo. E eu realmente acreditei nisso. Via-me como alguém que não nutria mais esse sentimento tão perturbador, acho até que me sentia superior por não deixar que um sentimento de vibração tão baixa me dominasse. Eu racionalizava as situações que poderiam despertar o monstro e, depois, as ignorava.

Então, acontecimentos que normalmente despertariam a minha raiva começaram a me deixar triste e deprimida. Sem ação, sem reação, sem movimento algum. E isso começou a me incomodar muito mais do que as antigas explosões. Porque deixar de sentir por um tempo pode até ter um efeito calmante, mas, se isso persiste, fica muito claro que é só um processo de fuga. E eu não queria mais viver fugindo de mim.

Porque o problema nunca foi a raiva ou qualquer outro sentimento considerado negativo. A questão não é só o que eu sinto, mas sim, o que eu faço com isso. A raiva pode ser um ótimo combustível para coisas boas e bonitas.

Dizem que a raiva é a tristeza colocada em movimento, que onde existe raiva, provavelmente, existe uma tristeza profunda que não foi olhada. A tristeza, por sua vez, pode vir de um sentimento de raiva que não foi expresso. Pra mim, pra minha história, isso faz total sentido. Esses dois sentimentos sempre estiveram conectados.

Não existe nada de errado em sentir raiva e tristeza. O que eu quero aprender é a acolher todo sentimento que brota em mim, olhar pra ele, não negar ou esconder sua existência. Quero entender de onde eles vêm e os seus porquês.

Percebo que toda vez que fico triste ou sinto raiva é porque estou “brigando internamente” com a realidade. Isso não quer dizer que devo simplesmente me conformar e aceitar as coisas como são; não agir quando sinto que preciso agir, não dizer quando sinto que preciso dizer. Mas, certas coisas são como são, não estão no meu controle e não há muito o que eu possa fazer. A única situação que tenho algum poder pra mudar é a minha. E isso já é difícil pra caramba.

Convivo comigo há quase 39 anos e ainda não me decifrei. Ainda estou aprendendo os porquês de fazer as coisas que faço, do jeito que faço, muitas vezes de forma destrutiva. Os porquês de repetir antigos comportamentos, seguindo velhões padrões comprovadamente catastróficos. Porque, tantas vezes, escolho a dor e não o amor, mesmo que faça isso inconscientemente naquele momento.

Meu momento agora é de união. Juntar esses muitos pedaços perdidos e renegados, todos os sentimentos que fazem e já fizeram parte de mim, acolhê-los, aceitá-los e assumir a minha responsabilidade em cada ação e em cada falta de ação, e fazer isso com amor. Abraçar a raiva que permiti, finalmente, que saísse de seu esconderijo; acolher a tristeza, a culpa e a vergonha que me fizeram companhia por tanto tempo; aceitar o medo constante que só tentava me proteger e, então, usar a luz que me habita para iluminar minhas sombras, todas elas e, um dia, conseguir amar cada pedacinho de mim.

Essa é minha missão. Ser quem eu vim pra ser. Inteira!

Sobre a escrita e a cura

Sobre a escrita e a cura - doce cotidiano

Sabe aqueles dias em que você precisa desabafar para organizar seus pensamentos e sentimentos?

Quando você sente que seu peito está oprimido e você não sabe se vai conseguir lidar com essa sensação?

Quando você está confuso e perdido e nada parece fazer sentido e você só queria sumir pra não ter que encarar o que está trancado dentro de você?

Quando você pensa que não vai mais suportar ser você e viver nessa angústia?

Para todas essas situações, terapia é sempre uma boa alternativa. Às vezes, tudo o que precisamos é da escuta de um profissional qualificado e em quem possamos confiar. Aliás, se você está se sentindo assim na maior parte do tempo, recomendo fortemente que procure ajuda.

Aliado a isso, uma das coisas que mais me ajudou no decorrer da minha vida, foi a escrita. Sei que já falei inúmeras vezes sobre o poder “curativo” do escrever, mas é porque comprovei por experiência própria o bem que esse simples ato proporciona.

Você não precisa se considerar um bom escritor, os erros de português não contam nessa atividade, você não será julgado ou avaliado; você só precisa de um papel e caneta (sim, papel e caneta; sou dessa geração e acho que os efeitos são melhores assim). E, mais importante de tudo, se permitir e ser honesto com você.

No início é meio difícil, você pode se sentir envergonhado por registrar sentimentos e pensamentos que você não gostaria de admitir que sente e pensa, você pode se sentir meio travado e não saber bem como fazer, mas o importante é começar.

Quanto mais você escrever, mais fácil fica. Dar “voz” aos sentimentos é como qualquer outro exercício, a gente precisa de prática. E, praticando, você conseguirá acessar, mais e mais, os cantos mais escondidos dentro de si.

Às vezes, o simples ato de reconhecer um sentimento e marcá-lo no papel já tem um efeito libertador e você pode sentir que um peso enorme foi tirado de cima do peito. Outras vezes, você precisará ler e reler o que foi escrito, se colocando como alguém de fora que está lendo a carta de um amigo querido que precisa de ajuda.

Você já percebeu como é muito mais fácil ser empático, ter compaixão e entender o problema quando é o dos outros? Quando é com a gente, podemos ser duros demais. Por isso, ao ler o que você escreveu, tente sair um pouco do seu papel e se transporte para o lugar desse Outro; já tive muitos insights assim. Algumas respostas e soluções ficam mais fáceis de serem vistas a certa distância.

Colocar seus sentimentos para fora, falando ou escrevendo, tem efeito de cura. Mas, pra mim, a escrita tem um benefício a mais, porque ela possibilita a leitura e releitura e você não precisa contar somente com a sua memória para relembrar o que foi “dito”.

Dê uma chance a essa atividade e depois me conta o que achou.

O dinheiro, o controle e o não saber receber

O dinheiro, o controle e o não saber receber - doce cotidiano

Estou tentando adquirir um pouco de perspectiva relacionada a alguns dos meus bloqueios: o dinheiro, o controle e o não saber receber.

Por que é tão difícil, pra mim, falar sobre dinheiro? Por que eu me sinto envergonhada por não estar trabalhando e ganhando um salário? Por que me sinto inferior por estar dependendo financeiramente do meu parceiro neste momento da minha vida?

Sinto tudo isso e tento entender de onde esses questionamentos vêm.

Tenho muita dificuldade de falar sobre esse assunto e de admitir esses sentimentos, me sinto desconfortável até em admiti-los pra mim. E é justamente por me sentir assim que decidi escrever.

Quero desenterrar esse desconforto e trazê-lo para a luz; dessa forma fica mais fácil enxergar e compreender o que me aflige.

O “estar no controle” sempre foi muito importante pra mim, mesmo que fosse um controle ilusório, ele fazia com que me sentisse segura me dando a ideia de que eu tinha algum poder. E eu sei que é só uma necessidade do ego, eu sei que são sensações que não se sustentam na realidade, mas é assim que é.

Controle e poder. O querer controlar e querer ter poder; de onde vem essa necessidade? Pra mim, vem do medo que sinto em simplesmente SER e ESTAR. Se eu não estiver no controle, quem está? Se eu não estiver no controle, significa que alguém pode me controlar?

E, no momento presente, o dinheiro me traria a sensação de estar no controle e de ter algum poder. Quando eu ganho meu dinheiro eu sou dona de mim? Quando é o outro quem paga as contas, eu pertenço a esse alguém?

Veja as coisas que viajam pela minha mente! Só consegui acessar todos esses pensamentos e sentimentos recentemente. Antes, eu só estava no piloto automático, me sentindo desconfortável sem saber com o quê.

E é óbvio pensar que basta eu arranjar um emprego e voltar a ganhar meu dinheiro e todas essas sensações irão embora. E eu até concordo com isso. Em parte. Porque tem algo mais profundo aqui. Tem algo que está pedindo meu olhar e a minha atenção. Não é só sobre dinheiro.

A necessidade que tenho de controlar (de pensar que controlo algo) e a dificuldade de receber, se estendem a, praticamente, todas as áreas da minha vida. Pra mim, é muito desconfortável receber elogios, receber carinho e afeto genuíno, receber presentes inesperados, receber dinheiro; simplesmente receber. É como se eu não fosse merecedora disso, me sinto uma impostora.

Abrir meu coração e admitir tudo isso em voz alta, em público e pra qualquer um ver, requer que eu entregue o controle que penso que tenho, requer que eu me coloque na posição de receber críticas e julgamentos ou receber apoio e escuta.

Esse é um dos motivos pelo qual estou escrevendo isso aqui, porque eu sempre soube que escrever é uma forma de cura, aliás, esse foi o tema do meu trabalho de conclusão de curso na faculdade, então resolvi usar o que eu sei. Escrevo, agora, para me entender, escrevo para buscar as peças faltantes, escrevo para levar luz à escuridão, escrevo para me curar.

Ao escrever e reler o que foi escrito, ao dar voz aos meus sentimentos e ao fazer EFT (Emotional Freedom Techniques) para liberá-los e acolhê-los, eu me conecto um pouco mais comigo, me distancio um pouco mais da necessidade do controle e me abro mais à possibilidade de receber.

O assunto DINHEIRO é amplo demais para que eu consiga limitá-lo a essas linhas; a minha dificuldade em lidar com ele, ao não conseguir me colocar no papel de merecedora, ainda requer muita atenção e trabalho interno. Por isso, esse tema ainda vai render.

Sendo a minha própria cobaia

cozinha

No início de setembro, eu comecei um diário alimentar com a ideia de anotar tudo o que eu como no dia, tudo mesmo! Inicialmente, eu queria reduzir a quantidade de lactose, de glúten e de açúcar, só pra ver como meu corpo reagiria.

Desde que parei o uso da pílula anticoncepcional, há dois anos, minha pele encheu de espinhas – é como se as espinhas que tinham sumido quando iniciei o hormônio, há umas duas décadas, decidissem voltar todas de uma vez. Fiquei um tempo com espinhas até nas costas e na bunda; nada legal!

Eu queria saber o que estava me fazendo mal e o que meu corpo não estava curtindo e, como forma de me avisar, me causava espinhas e alergias. Fora outros sintomas, como inchaço e cansaço.

Mesmo antes dessa pesquisa eu já não tomava mais leite de manhã (me dava azia), já tinha parado de comer ovo (o cheiro me dava nojo) e a carne, todo tipo de carne, eu já tinha parado há um tempinho. O leite e o ovo eram consumidos disfarçadamente em bolos e pães.

Eu sabia que não era celíaca, mas, mais de uma vez, profissionais de saúde já tinham me dito para reduzir ou eliminar o consumo de glúten da minha dieta e, pesquisando sobre os possíveis sintomas decorrentes de sua ingestão, resolvi fazer esse teste em mim.

Ao iniciar esse experimento, eu não sabia que o veganismo seria o meu caminho porque, até então, eu também acreditava que precisava do leite de vaca e seus derivados como fonte de cálcio.

Eu já tinha começado a ler o livro do Dr. Eric Slywitch – Alimentação sem Carne – e estava aprendendo um pouco mais sobre os alimentos, sobre a melhor forma de prepará-los para aproveitar mais seus nutrientes e sobre as combinações mais efetivas. Mas, ainda assim, eu não sabia muito bem aonde isso tudo iria me levar.

Comecei a seguir vários perfis no Instagram; de veganos, de pessoas com alimentação exclusiva plant based (dieta baseada em vegetais e alimentos integrais na sua forma mais natural, completa, não refinada, e minimamente processada), de veganos que não consomem glúten e, meio sem perceber, fui lindamente “contaminada” pela vontade de mudar.

Nesse espaço de tempo, desde que iniciei essa autopesquisa mais seriamente, notei duas mudanças principais:

  • Minha pele melhorou muito. Eu tirei fotos do rosto no início, no meio do processo e no “fim”, para comparar. Algumas espinhas super inchadas e vermelhas com as quais eu convivi por meses e não saíam mesmo com todo tipo de tratamento externo, diminuíram visivelmente.

pele

  • Meu corpo desinchou absurdamente, principalmente a região abdominal (também tirei fotografias antes de ir pra Piracanga, quando voltei de lá, no início desse experimento e recentemente). O importante não era a perda de peso, mas sim, como eu me sentiria.

Agora, vamos a algumas observações. Como eu anotava tudo o que comia, ficou um pouco mais fácil perceber a correlação entre o alimento ingerido e determinados sintomas.

Não consegui excluir o glúten completamente e notei que, quando o consumia por alguns dias seguidos, mesmo que em pequenas porções, as coceiras voltavam e eu ficava mais inchada.

Quando comi batatas fritas, o que aconteceu mais de uma vez (é meu fraco, comeria todos os dias), ou quando comi frituras em geral, me senti mal depois, como se tivesse ingerido um galão de óleo. E isso aconteceu em todas as vezes depois que comi!

O açúcar, mesmo ingerindo somente o demerara ou o mascavo e muito raramente, não se mostrou o melhor dos meus amigos. Também não me senti bem após a ingestão dele quando combinado com algum tipo de gordura, como em sorvetes – mesmo em opções veganas.

Entendi que o veganismo – na alimentação – é mais do que não comer nada de origem animal. É mais do que respeitar os animais e o planeta; é se respeitar em primeiro lugar.

Por isso, após esse período de quase dois meses de experimentação, entendi que, pra mim, quanto mais naturalmente eu me alimentar, melhor! Vou continuar observando a mim e as minhas escolhas, mudar mais algumas coisas na minha forma de me alimentar e, então, eu volto pra contar como foi.

Uma última coisa! Eu não quis postar as fotos do meu corpo por um simples motivo; cada um tem a sua forma física e seu peso ideal, magreza não é sinônimo de saúde e eu não quero fazer apologia a isso. O ser/estar magra é uma característica física minha, eu nasci assim e isso não é o que importa aqui. O importante é estar saudável, independente do seu peso na balança. É fazermos escolhas que nos façam sentir bem, alegres e dispostos.

Onde mora a limitação?

ultrapasse

Existe limite de idade pra começar uma nova carreira?

Existe limite de idade pra encontrar um amor?

Existe limite de idade pro prazer?

Existe limite de idade pra novas descobertas e sentimentos?

Existe limite de idade para sermos quem somos?

38 pra 39 e mudando de rumo, de ideia e de perspectiva.

Eu acredito que, enquanto houver vida em nossos corpos, sempre existe a possibilidade para novos começos, e penso que isso vale para todas as áreas.

Poucas coisas são limitadas pela idade e, ainda assim, varia de pessoa pra pessoa. Não acho que exista uma regra universal e imutável com relação a isso, nem mesmo pra engravidar, porque independente de ser aconselhável ou não gerar um ser numa idade avançada, já vimos avós engravidando. O risco é relativo, o risco é risco em qualquer fase da vida.

E por que temos tanto medo de arriscar? O que que queremos evitar? Uma decepção, uma rejeição, uma frustração? A gente continua vivo depois disso, a gente escolhe ficar vivo e recomeça.

Me lembro da primeira vez que meu coração foi partido numa decepção amorosa. Eu sentia até dor física e, na época, achei que não existia dor pior. Depois disso meu coração foi partido mais algumas vezes, provavelmente devo ter partido outros corações pelo caminho e descobri que, independente do tempo que a dor permaneceu, ela já não foi tão insuportável, eu já sabia o que esperar dela. A gente vive sabendo que não tem como fugir da dor, mas a gente aprende que tem como lidar com ela.

A gente vai seguindo, cada um no seu caminho, cada um ouvindo seu coração e intuição, tentando dar o melhor que temos pra dar no momento, entendendo que nunca paramos de aprender, que é sempre tempo de mudar, recomeçar, experimentar. E é isso que eu quero fazer até meu último momento aqui, quero aprender, quero compartilhar, quero ter minha vida tocada pelo outro e quero poder tocar a vida de alguém também.

A gente sempre pode mudar de ideia e fazer de novo ou fazer o novo. A ideia é cortar, romper, rasgar cada fio que nos prende e limita, nem que seja um pouquinho por vez. Acho que quando a gente percebe que a limitação mora somente dentro da nossa cabeça fica mais fácil lidar com ela. Esse tem sido o meu aprendizado diário.

Um pacto de amor

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Recentemente, eu fiz um pacto comigo mesma e estou tentando ser fiel a ele.

Esse acordo é um pouquinho amplo e engloba as coisas que eu quero fazer para que as minhas ações sejam o reflexo dos meus sentimentos. O que isso significa? Significa que estou tentando viver sem tantas contradições.

Por AMOR, percebi que não poderia fazer diferença entre os cães e os outros animais. Como eu posso comer a carne de um ser que eu amo e quero proteger? Como posso consumir os alimentos e produtos derivados de uma ação de violência e tortura? A escolha pelo veganismo como filosofia de vida foi uma ação baseada nos meus sentimentos e no sentimento do outro; eu já não posso mais viver nessa contradição de dizer que amo e continuar como cúmplice da crueldade. Pretendo trocar todos os produtos que visto e uso em casa por itens veganos (as próximas compras serão mais conscientes).

No decorrer desses anos eu aprendi a me amar e me respeitar mais – na verdade, ainda estou aprendendo; como decorrência disso, fazia total sentido cuidar mais de mim e fazer escolhas com menos impacto negativo para a minha saúde e para o meio ambiente. A mudança alimentar (no geral), a prática de atividades físicas e a troca de cosméticos industrializados por aqueles que eu mesma produzirei, são algumas das coisas que tenho feito e que ainda quero ampliar para viver de acordo com as minhas crenças e com o que faz sentido pra mim.

A minha forma de me comunicar também é um ponto muito importante no meu novo pacto de vida. Estou lendo o livro Comunicação Não-Violenta, do Marshall B. Rosenberg, e percebi que ainda tenho um longo caminho a percorrer nesse aspecto. Como eu quero me comunicar daqui pra frente e o que eu quero transmitir? Aliás, por causa do livro, assisti ao filme GANDHI na semana passada. Você já viu? É um filme um pouco antigo, mas mais atual do que nunca. Tem no Netflix, recomendo!

Vejo o AMOR como o ponto principal para seguir nesse propósito, e eu sei que pode soar meio piegas dizer isso, mas é no que acredito. Colocar o amor nas minhas ações, colocar o amor na minha forma de me alimentar (tentando, na maior parte do tempo) e colocar o amor nas minhas escolhas e no meu discurso, essa é a minha maneira de tentar diminuir todas as contradições que fazem parte de mim. Um passo de cada vez!

Sou humana e cheia de falhas e continuarei sendo assim. Não estou buscando a perfeição inalcançável; finalmente, percebi que essa é a receita para a infelicidade. Mas, estou tentando, no dia a dia, ser mais fiel às minhas crenças e à minha intuição.

Estou me permitindo considerar cada passo dado como um aprendizado. As escorregadas, os “erros”, as más escolhas; tudo faz parte desse aprender. Estou aprendendo a acolher tudo o que fez e faz parte de mim, sem brigas, sem culpas, sem julgamentos.

Mas, ainda estou aprendendo!

Um pouco da minha jornada – Autoconhecimento

um pouco da minha jornada - doce cotidiano

Recentemente, percebi que minha busca pelo autoconhecimento é antiga. Antiga, porque ela se iniciou há mais de duas décadas, mais da metade da minha vida.

Essa jornada não começou de forma voluntária, não mesmo! O negócio é que minha mãe já não sabia mais o que fazer comigo; eu a imagino desesperada, jovem e com cinco filhos em casa (dentre eles, uma rebelde sem causa), a solução foi me levar a vários lugares, todos voltados à terapia alternativa (sou imensamente grata por essa sabedoria quase inata da minha mãe, o alternativo funciona em mim muito mais do que o velho método tradicional ocidental).

Acho que a primeira tentativa da minha mãe foi com uma acupunturista Hare Krishna. Dos três meses de tratamento, renderam alguns frutos. Me apaixonei pela acupuntura, fui apresentada ao incenso Spiritual Guide (meu favorito, infelizmente está impossível de encontrar), surgiu a ideia da primeira tatuagem (uma flor de Lótus, que era como a terapeuta me chamava) e, óbvio, um pouco de equilíbrio emocional. Como foi algo que minha mãe compartilhou comigo – ela era tratada na maca ao lado -, acho que foi importante para uma aproximação entre nós.

Depois, veio o Tai Chi Chuan. Minha irmã mais velha, minha mãe e eu fazíamos juntas. Lembro-me de ser sempre tão agitada interiormente que toda vez que tínhamos que nos sentar, colocar as mãos no segundo chakra e prestar atenção na nossa respiração, eu sentia enjoo. Acho que precisei de muitos anos até conseguir fazer isso sem querer vomitar. Ganhei um livro sobre os chakras nessa época e eu o tenho até hoje.

Então, nesse mesmo espaço onde eram dadas as aulas de Tai Chi, tinha um guru (me lembro que o chamavam assim) e minha mãe resolveu que eu precisava me consultar com ele. Só entrando na fase adulta eu descobri que nossas sessões foram baseadas na PNL – Programação Neurolinguística. Um bom tempo depois, eu e minha mãe fizemos um workshop de PNL em SP e foi incrível.

Na época da faculdade, quando começaram os estágios de atendimento aos pacientes, nossa orientadora nos disse como era importante fazermos terapia – todo terapeuta deve ter seu terapeuta. E lá fui eu, para as minhas primeiras sessões com uma psicóloga. Desde então, já tive três terapeutas e um arte terapeuta e passei por inúmeras sessões no decorrer dos anos e, com certeza, todo esse processo enriqueceu o meu autoconhecimento; não tenho dúvidas disso.

Tive o meu período de negação, de esquecimento, de viver no piloto automático, de total desconexão comigo, e isso aconteceu enquanto eu trabalhava no banco. Foi a fase da minha vida em que mais adoeci. Ainda assim, foi um momento muito importante, pois grande parte dos profissionais com os quais me consultei para aliviar as dores físicas, me ajudou a voltar a olhar pra mim.

Depois que saí do banco fiz um programa de autoconhecimento que me ajudou a criar mais algumas rachaduras na minha couraça. Foi meio como um renascimento, principalmente pelo fato de ter me apresentado tantas coisas novas e pessoas incríveis que seriam meus guias nessa nova etapa da minha jornada.

Além das pessoas e dos lugares que frequentei, tive acesso a muitos, muitos livros mesmo, e eu, como devoradora ávida de letras, amei!

Talvez, olhando de fora, você possa pensar que muito tempo foi perdido e que desperdicei energia com tantas abordagens diferentes. Mas, esse foi o meu caminho e hoje consigo perceber que tudo o que aconteceu comigo teve um motivo, nada é fruto do acaso. Todas essas pessoas que me ajudaram, todos os livros que li, todas as discussões com a minha mãe, toda essa busca sem, na época, saber pelo o quê, me trouxeram até esse momento e fizeram de mim o que sou hoje: uma amante do autoconhecimento que aprendeu a se amar enquanto se redescobria. Então, definitivamente, tudo valeu a pena.

Nenhum conhecimento é jogado fora, fica tudo guardadinho dentro da gente. E acredito que, em algum momento, todos esses “pontinhos” se conectam e nos levam a um lugar novo, inesperado e que faz muito sentido.