Escrever ou não escrever? Eis a questão!

Procuro um espaço para escrever. Um canto em casa onde minha mente se liberte dos bloqueios e deixe a criatividade e a inspiração aflorarem.

Mas não sei se esse espaço existe.

Procuro fora o que não existe dentro.

Dentro de mim não existe a liberdade de criação sem que o bloqueio do julgamento se apresente. Como escrever sem julgar cada escolha de palavra? Como me permitir exprimir o que está guardado dentro de mim, incubado, esperando o momento de nascer?

As palavras não se encontram para formarem ideias.

As ideias não formadas não podem me encontrar para, assim, serem libertas.

E, já que as ideias não me encontram, continuo presa às antigas palavras que já foram usadas à exaustão.

Me repito e me canso.

Você também está cansado de mim?

Já ouviu as mesmas histórias milhares de vezes?

Já sabe o que irei dizer antes mesmo que o pensamento se aproxime da minha boca?

É assim que me sinto ao sentar para escrever.

Se quiser algo novo terei que visitar as histórias que tenho medo de contar.

Tenho medo das histórias não contadas, sabe? Tenho medo porque não sei o que elas contariam se eu decidisse escrevê-las.

Porque eu as escrevo sem controle. Na verdade, poderíamos dizer que as histórias se escrevem através de mim. Sou só um instrumento. Sou apenas a máquina que elas usam para conseguirem a liberdade de escapar para o mundo. E, por mais que eu goste de me sentir no controle, com as histórias eu não tenho controle algum.

Por isso não as escrevo.

Por isso as escondo bem dentro de mim onde nem eu mesma consigo acessá-las. Para vislumbrá-las seria necessário uma viagem hipnótica para os recônditos mais escuros da minha mente e, como eu não gosto de perder o controle imaginário e tenho medo do escuro, não me permito essa viagem que me carregaria sem que eu pudesse interferir ou fugir.

O preço que eu pago pela minha covardia é a rotina repetitiva de palavras já conhecidas e cansadas. Não quero mais escrevê-las e nem elas querem ser reescritas. Estamos exaustas e à procura de algo que nos desperte e nos tire desse torpor, desse sonho que se repete, desse dia da marmota enlouquecedor.

Estou cansada de ser covarde, sabe? Ser covarde é exaustivo porque requer a invenção de muitas explicações, para os outros e para si mesmo. Sinto a necessidade de dar satisfações por cada ato que me afasta do que realmente quero e, com isso, fico inventando novas coisas para preencher o tempo e, assim, me deixar sem tempo para fazer o que eu realmente preciso e devo fazer, que é escrever.

E para escrever é necessário coragem, porque esse não é só o ato de colocar palavras no papel, na tela ou onde for. Escrever é se despir de tudo o que te esconde e te protege. Escrever é expor sua sombra e sua luz sem filtros, sem máscaras. Escrever é a extensão do pensar e sentir. Escrever, pra mim, é o que me liga a esse plano, a essa vida e a mim mesma.

E já que escrever é tudo isso, como posso pensar em escrever? E como pensar em não?

O medo e a merda

Me lembro de estar deitada no chão do banheiro, sem conseguir me mexer ou falar, ouvindo minha mãe falando comigo como se ela estivesse muito distante, sua voz abafada e perdida dentro de mim.

Entendo que eu estou deitada sobre uma poça da minha própria merda, líquida e incontrolável, e que continua a escorrer de mim, sem que eu possa segurar ou sentir.

Chegam meu pai e meu marido e eu só consigo pensar que meu pai vai me ver nua e que eu não o quero ali.

Eu sou uma boneca de pano sem controle, mole e quase sem vida.

Me despem e me colocam sentada numa cadeira plástica embaixo do chuveiro com a água escorrendo pelo meu corpo enquanto a diarreia escorre de mim.

Ainda estou lá apesar de não conseguir falar. Ouço a preocupação na voz da minha mãe: olha como ela está branca, se ela estivesse sozinha em casa quem iria encontrá-la?, ela não pode mais morar sozinha, ela parece estar morrendo.

E eu só consigo pensar: eu não quero voltar a morar com vocês, eu estou bem. Mas as palavras não conseguem encontrar o caminho da minha mente até a minha boca e morrem antes que possam sair.

Acho que estou indo embora e começo a gostar da sensação. Acaba-se o medo e a dúvida e com isso não preciso decidir e agir. Eu sou uma covarde! Começo a me perder e afundar dentro de mim e tudo o que me aborrece se torna secundário. Se eu soubesse como era bom, eu teria morrido antes.

Querem me levar para o hospital, mas eu ainda me perco no monte de água suja que insiste em escorrer de dentro de mim, sem que eu possa me opor, sem que eu consiga segurar. Talvez me reste alguma dignidade porque me forço a dizer: não vou pro hospital toda cagada.

Quando me torno vazia e não resta mais nada a sair, me vestem e me levam.

Na sala de espera, minha mãe e meu marido começam a discutir para decidir quem ficará comigo caso eu precise ser internada. Ele diz: eu fico. Ela rebate: não, eu que fico, você vai acabar dormindo e ela precisa de alguém acordada ao lado dela, e então me perguntam quem eu quero que fique, e eu só consigo dizer: pai, fica você?, mas quem entra comigo é a minha mãe.

Finalmente sou atendida e iniciam a medicação. Não me recordo de muita coisa, talvez eu tenha dormido.

Me dão alta, me colocam numa cadeira de rodas e, no caminho para o carro, me sinto partindo outra vez. Talvez eu só estivesse desmaiando, mas me lembro de pensar: que bom, estou morrendo.

Sabe, eu não queria realmente morrer, eu só queria acabar com a culpa, o medo, a indecisão e a covardia. Eu só queria resolver os meus problemas sem ter que resolvê-los. Eu só queria me divorciar sem ter que pedir o divórcio. Eu só queria viver a minha vida sem o medo de ser julgada.

A diarreia incontrolável diz o que eu não consigo dizer. Toda a sujeira que me habita e tudo o que eu carrego de medo e de culpa quer sair e encontra um caminho e eu já não posso negar.

Perceber que desejei morrer para não ter que agir me fez agir, porque, no fundo, eu não queria morrer. Eu só queria ser livre. Dois dias depois eu pedi o divórcio, da forma mais corajosa que a minha bruta covardia permitia, por e-mail.

Sobre respirar e estar

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Inspirar
Expirar
Inspirar
Expirar

Respirar é algo vital, natural e automático, tão automático, que se torna algo imperceptível quando nossa atenção não está voltada para esse ato.

Desde que comecei a prestar atenção em minha respiração, durante as técnicas de relaxamento e de meditação, notei como sou travada. Percebi que minha respiração é curta e que só consigo expandi-la se for de forma consciente, notei também que, frequentemente, eu prendo a respiração, fico um bom tempo segurando o ar e não o deixo fluir.

Percebi que o ar circula apenas na parte superior do tronco – mais na região do diafragma, não desce para o abdômen de jeito nenhum. Sabe aquilo de sentir a barriga crescendo no momento da inspiração? Pois é, não acontece comigo. Mesmo quando sou guiada a isso, não consigo fazer de forma natural.

Mas, por que é tão difícil me permitir simplesmente respirar?

Me observando mais a fundo, percebo que reproduzo o meu respirar no meu jeito de viver a vida, meio descompassado e por vezes travado.

Me prendo a pensamentos, padrões e sentimentos e não os deixo ir. Me prendo e não me liberto. Seguro tudo por tanto tempo e só percebo quando já estou sem fôlego.

A respiração curta está refletida no meu medo do que é intenso e daqueles sentimentos tão profundos e assustadores que chego a bloquear qualquer possibilidade de expansão, e meu abdômen não quer expandir porque passei grande parte da minha vida colocando a barriga pra dentro – na tentativa de parecer magra -, e com esse “treino” diário, segurar a respiração se tornou natural pra mim.

Essa junção de acontecimentos e sentimentos que me travam quando eu não estou consciente do meu respirar, são o resultado da soma de uma mente inquieta e de uma desconexão com meu ser na tentativa de ser quem eu não sou.

Se eu não estou totalmente presente no meu corpo e na minha mente, quem está respirando por mim?

Você já prestou atenção ao seu modo de respirar? Percebeu alguma relação entre esse ato inconsciente e o seu jeito de viver a vida e encarar as emoções? Já se perguntou quem está respirando por você quando você não está presente no momento presente?

Restaurantes Veganos ou com opções veganas em Curitiba

Desde que nos mudamos pra Curitiba, comecei minha caça a restaurantes/lanchonetes veganos ou com opções veg. Já fomos em alguns e, em outros, pedimos comida pelo delivery. Quero compartilhar algumas dessas boas descobertas com vocês.

Para mais informações sobre os restaurantes, é só clicar no nome!

POLOME

Foi o primeiro que conhecemos em Curitiba. É um restaurante vegetariano self-service com várias opções veganas, durante a semana você paga por quilo e, aos finais de semana, é buffet. Tem um bom preço e a comida é muito saborosa, eu e o Ciro já fomos várias vezes e não enjoamos. Comeria o rolinho primavera deles diariamente.

Abre apenas para o almoço, de terça a domingo das 11:30 às 14:00, no fim de semana fica aberto até 14:30 e fecha às segundas-feiras. Fica localizado na Rua Ernesto Araújo, 69 no bairro Jardim Botânico.

STRAVEGANZZA

Restaurante vegano à la carte. Um lugar super agradável com um ótimo atendimento. Logo que você chega já te trazem água saborizada, um caldinho e mini aperitivos deliciosos, de cortesia.

As entradas, tanto as frias quanto as quentes, são absurdamente deliciosas – em todas as vezes que vou peço várias e nunca aguento pedir o prato principal. O Ciro é apaixonado pelos risotos que eles fazem e sempre tem dó de experimentar os outros pratos. De todas as entradas fica difícil escolher a favorita, mas acho que os destaques, dentre as opções quentes, são os bolinhos de batata doce roxa recheados com carne de jaca e um molhinho divino e a bruschetta com abobrinha e, nas opções frias, a salada de folhas com bolinhos de grão de bico.

Ah, um detalhe charmoso são os nomes de todos e pratos e sucos.

Os sucos são generosos, servidos naqueles vidros como os de palmito de 500ml, dá pra dividir tranquilo se você não aguentar beber tanto líquido de uma vez só como eu. Todos são algum tipo de limonada, com limões diversos e algumas misturas bem interessantes.

Também tem sobremesas e o mousse de chocolate é o melhor que já comi, mesmo se comparado aos não veganos que já provei no passado.

Com relação a valores, acho acessível. Eu e o Ciro acabamos gastando bastante toda vez que vamos lá porque exageramos nos pedidos.

Abre para o almoço de segunda a domingo – fechado às terças-feiras – e, no jantar, apenas de quinta a sábado. Fica localizado na Rua Sete de Abril, 121 no bairro Alto da Rua XV.

GREENGO VEGETARIANO

Apesar da palavra Vegetariano dar a ideia de que podemos encontrar leite e derivados nos ingredientes, o cardápio atualmente é todo vegano, tanto no almoço quanto no jantar.

Por enquanto só fomos lá uma vez (eu gostaria de ter ido há mais tempo, mas eles ficaram um tempinho fechados para reforma), mas pretendemos voltar.

O ambiente é super moderno e agradável, atendimento simpático e comidinhas muito saborosas. Pra quem diz que comida vegana não tem graça ou sabor, precisa ir lá pra mudar de opinião.

Abre para o almoço de terça a sexta das 11:30 às 14:30 e no sábado e domingo das 11:30 às 15:00, no jantar de terça a sábado das 18:00 às 23:00 e fecha às segundas-feiras. Fica localizado na Alameda Dr. Carlos de Carvalho, 1282 perto da Praça da Espanha.

VEG VEG

Empório/restaurante vegano que também serve pratos/lanches para comer no local ou pra levar (toda vez que vamos lá, pegamos coxinhas e banoffe pra comer em casa). Um fato legal é que inauguraram em 2013 como o primeiro empório vegano do Brasil.

Com uma decoração bem jovem e colorida, atendimento sempre simpático e gentil e comidinhas deliciosas, o empório está sempre cheio de gente! Os lanches são muito bons, a batata é crocante e sequinha e a banoffe que eles fazem lá é divina.

No empório você encontra várias opções de comida pronta congelada, produtos veganos de marcas conhecidas e de produtores da região, como o pão de melado das meninas do Les Fourmis (https://pt-br.facebook.com/lesfourmisdoceria/), que é o melhor que já provei.

Eles têm um espaço gramado no fundo e, vira e mexe, tem eventos no local.

Abre de segunda a sábado das 11 às 18 horas. Fica localizado na Rua Visconde de Nácar, 655 no bairro Mercês.

DOMO CAFÉ E BISTRÔ

Restaurante bem aconchegante e com um ótimo atendimento. A comida, no geral, é ovolactovegetariana, mas existe a possibilidade de veganizar alguns pratos.

No momento, não é fácil de encontrar alguma sobremesa vegana, mas quando questionei a atendente, ela me disse que estavam pensando em ampliar as possibilidades de doces sem ingredientes de origem animal.

Abre de segunda a sábado das 11:30 às 18:30. Fica localizado na Rua Acre, 655 no bairro Água Verde, dá pra ir a pé daqui de casa.

DOCES E CORES

É uma confeitaria totalmente livre de gluten (confiável para celíacos) e, por também ser vegana, livre de lactose.
Lugar pequeno e aconchegante, que vende produtos feitos no local e também aceita encomendas. As coxinhas são bem saborosas.

Existe desde 2011 e inaugurou a atual loja física em 2017. Abre de terça a sábado das 11:30 às 19:30, de domingo das 13:00 às 18:00 e fecha às segundas-feiras. Fica localizado na Rua Albino Silva, 501 no bairro Bom Retiro.

Agora os estabelecimentos que só pedimos comida pelo delivery.

PIZZARIA OPTE

Pizzaria com várias opções veganas – 4 opções doces e 17 opções salgadas. Ainda não provei de todos os sabores, mas até agora a minha favorita é a de alho poró.

Abre de domingo a quarta-feira das 18:00 às 23:30 e de quinta a sábado das 18:00 às 24:00. Fica localizada na Avenida Presidente Kennedy, 2800 no bairro Portão.

MAMBA VEGAN

O Mamba é uma hamburgueria vegana que inaugurou em 2015 com opções bem criativas e saborosas.

No cardápio fixo são 8 opções de lanches, como o MAMBA, que leva o nome da casa, que é composto por pão com gergelim, pasta de manjericão, alface roxa, tomate, picles, burger de milho com alho poró e cenoura, acompanha couve flor empanada e molho da casa, ou o LUPITA, que é um lanche com pão com gergelim, guacamole, alface americana, cebola roxa brunoise com salsa, burger chilli de feijão com mix de pimentões coloridos, acompanha porção de nachos e creme azedo artesanal.

Por enquanto só pedimos pelo ifood mas pretendo ir lá para experimentar os outros lanches.

Abre de terça a sexta das 17:00 às 22:30, de sábado das 14:00 às 22:30 e fecha aos domingos e segundas-feiras. Fica localizado na Rua Presidente Carlos Cavalcanti, 1345 perto do Centro.

CIDADÃO DO MUNDO

Hamburgueria com 3 opções de lanches veganos, como o Paul McCartney que é com burger de cogumelos, queijo vegano, confit de tomate cereja e cogumelos, o Ogros Veganos que é uma opção mexicana com burger de feijão e PTS, guacamole , alface, tomate, pico de galo e pimenta jalapeño e o Carl Lewis, também com burger de feijão e PTS, queijo vegano, cebola grelhada, pimenta biquinho e molho barbecue e mais 2 opções vegetarianas.

Dentre as porções, fora a batata de sempre, também tem opção de mini coxinhas veganas de sabores sortidos.

Abre de segunda a sexta em 2 horários, das 12:00 às 17:00 e das 18:00 às 23:30, aos sábados das 12:00 às 23:30 e aos domingos das 18:00 às 23:30. Fica localizada na Rua Bento Viana, 352 no bairro Água Verde.

Essas são as opções que experimentamos, gostamos e pretendemos repetir. Ainda tem outros lugares na cidade que precisamos conhecer e, se gostarmos, darei a dica aqui também.

Num outro momento falarei das comidinhas deliciosas que provamos nas feiras veganas que acontecem pela cidade de tempos em tempos.

Resetando meus preconceitos – o que define meu valor?

Photo by Kelly Sikkema on Unsplash

Mesmo sabendo que nenhum momento dura pra sempre, me pego com receio de continuar na mesma situação indefinidamente.

Meu período sabático já acabou, e não porque eu estou trabalhando de novo, mas porque agora me considero desempregada.

Foram três anos separados pra cuidar de mim, estudar o que tivesse vontade, viajar, me conhecer melhor e descobrir o que eu queria fazer dali pra frente.

E o que eu descobri?

Descobri que sei um pouco menos do que pensava saber e que por mais que eu descubra coisas novas sobre mim, ainda restarão muitas partes escondidas esperando para serem descobertas, descobri também que o meu propósito de vida talvez não seja a fonte do meu sustento e que, não importa quanto tempo passe e nem o quanto eu amadureça, ainda vou me sentir uma adolescente perdida em muitos momentos da minha vida.

Ao mesmo tempo em que soa como uma perspectiva desesperadora, também me dá um pouquinho de conforto porque ajuda a tirar o peso de ter que saber tudo sobre mim, de ter que ganhar dinheiro apenas fazendo aquilo que amo e de ter que ser um modelo de maturidade e segurança, porque eu definitivamente não sou.

No segundo semestre do ano que passou, senti um pouco do peso por não estar trabalhando, não porque estivéssemos com dificuldades financeiras, mas porque eu tive que lidar com alguns preconceitos meus. E eram apenas questões minhas mesmo, porque foi o meu parceiro que me incentivou a pedir demissão e que sempre me apoiou em todas as minhas decisões, as sãs e as mais desvairadas.

É como se a única contribuição que eu pudesse dar fosse financeira, porque eu teria menos valor por “apenas” contribuir com as atividades da casa. Fazer as compras, cozinhar, lavar roupa, estender e guardar, limpar a casa e manter tudo organizado … por mais que uma casa não funcione muito bem sem que todas essas coisas sejam feitas, elas me soavam (e ainda soam) como um trabalho sem mérito. E, racionalmente, eu sei que não deveria pensar assim.

Meu parceiro passa o dia todo fora, sai cedo para o trabalho e só volta tarde da noite ao sair da faculdade, nas madrugadas e nos finais de semana sempre tem milhares de trabalhos do curso para fazer, ele teria que ter um clone pra dar conta de tudo e ainda cuidar da casa e mantê-la funcionando.

O nosso acordo na época foi que eu cuidaria de tudo para que ele não precisasse se preocupar com essa questão. E, por mais incrível que me pareça, eu realmente gosto de fazer isso. Eu curto cuidar dele, eu curto preparar comidinhas saudáveis para ele levar, eu curto quando ele curte a minha comida, eu curto até dobrar as roupas e guardá-las no armário. Eu realmente faço isso com prazer, na maior parte do tempo (porque tem dias que eu só gostaria de ficar lendo e é isso que faço) e me considero uma boa dona de casa, não por fazer tudo perfeito, mas por fazer com amor. Se as donas de casa fossem remuneradas, talvez essa fosse a minha profissão.

Mas não é assim, cuidar da casa e de quem a gente ama não é considerado um trabalho que mereça remuneração e direitos garantidos, sob o ponto de vista das leis trabalhistas, então, no fim das contas, eu estou mesmo é desempregada.

E isso tem pesado de uma forma que eu não consigo entender. Eu chego a sentir vergonha quando tenho que responder qual a minha profissão e a palavra “desempregada” é dita. Talvez por pensar que eu perdi meu momento, ou por ter mandado vários currículos e não receber nenhuma resposta, ou por ter medo de descobrir que só tenho competência para trabalhar em banco e saber que essa não é mais uma opção pra mim (voltar para o banco seria a minha aposentadoria por invalidez).

Então, fico me analisando e buscando a origem desse medo e desse preconceito, e chego a pensar que continuo nessa situação para aprender a lidar com meus monstros. Sigo assim para reconhecer que nenhuma situação é permanente, para entender que todo trabalho honesto é digno, e que meu valor não está ligado a um número depositado mensalmente na minha conta bancária. Mas ainda é muito difícil, pra mim, desvincular o valor pessoal do valor financeiro!

Cheguei a pensar em fazer algo por conta, mas acho que já me conheço um pouco pra reconhecer que não sou esse tipo de pessoa. Eu mudo de ideia a todo instante, não me considero uma pessoa persistente e organizada pra conseguir produzir e gerenciar sozinha de modo satisfatório. Então, pra onde ir e o que fazer?

Na verdade, no momento não importa muito o onde ou o que, porque enquanto eu criar empecilhos com os meus medos e preconceitos, não me vejo saindo do lugar.

Estou tentando resetar minhas antigas crenças para criar um espaço em branco na esperança de preenchê-lo com algo novo, mais leve e sem autojulgamentos.